jmts
poesia . fotografia . & etc.
Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
domingo, 26 de maio de 2019
# Em Agenda #
A Garganta Inflamada
antologia de poemas publicados na Companhia das Ilhas
2012-2018
Carlos Alberto Machado - Catarina Costa - Daniel Gonçalves - Fernando
Gandra - Fernando Machado Silva - Francisco José Craveiro de Carvalho -
Gisela Cañamero - Helder Moura Pereira - Inês Lourenço - João Candeias -
Jorge Aguiar Oliveira - Jorge Fazenda Lourenço - José Manuel Teixeira
da Silva - José Ricardo Nunes - Leonardo - Luís Carlos Patraquim - Luis
Maffei - Luís Serra - Madalena de Castro Campos - Manuel Fernando
Gonçalves - Manuel Tomás - Mário T Cabral - Nuno Costa Santos - Nuno
Dempster - Nuno Félix da Costa - Paulo Ramalho - R. Lino - Ramiro S.
Osório - Rosalina Marshall - Rui Almeida - Rui Baião - Urbano
Bettencourt - Vergílio Alberto Vieira
colecção azulcobalto | 068
ISBN 978-989-8592-71-2
ISBN 978-989-8592-71-2
Páginas 200 | PVP € 16
quarta-feira, 24 de abril de 2019
das palavras dos outros
carlos poças falcão / Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018
Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.
Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.
Sais de ti: o que é que entra?
Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?
carlos poças falcão / Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018
Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.
Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.
Sais de ti: o que é que entra?
Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?
Carlos Cánovas
Maria Fugit, London, 1995
visto aqui
segunda-feira, 22 de abril de 2019
ela decide responder-lhe
Há uma mulher que espera, com as mãos cruzadas no ventre.
Olha pela janela do enorme edifício, uma fábrica de silêncios e ecos, a
manhã avança, é como se escutasse o rumor do mundo, os silvos da sua
rotação. Ela vê as ramagens em sobressalto, está à espera em frente do
vidro e decifra as gotas de chuva. Batem as portadas, aqui e acolá,
pensa nos pescadores que estão longe e sofrem no mar, nos que se abrigam
entre as torres antigas da sua cidade, nos que vão pelos arrabaldes
lamacentos. Acaricia distraidamente o ventre, descobre na distância um
vulto que está também à janela, um rapaz que olha a tempestade, o mundo
inteiro que nasce para os seus olhos. Ele acena-lhe longamente, por
entre os riscos do dia, ela decide responder-lhe.
quarta-feira, 6 de março de 2019
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019
das palavras dos outros
AS ASAS DO DESEJO
No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora…
Bruno Ganz . 1941 - 2019
inês lourenço / O Segundo Olhar, Companhia das Ilhas, 2015
AS ASAS DO DESEJO
No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora…
Bruno Ganz . 1941 - 2019
sábado, 9 de fevereiro de 2019
domingo, 3 de fevereiro de 2019
terça-feira, 29 de janeiro de 2019
# Em Agenda #
Enfermaria 6. leitura de poesia
livraria flâneur, porto, 01/02/2019, 18 h
Bruno M. Silva, Francisca Camelo, J. Carlos Teixeira,
José Manuel Teixeira da Silva, José Pedro Moreira,
Pedro Braga Falcão, Rafael Mantovani,
Tatiana Faia, Vítor Teves
aqui
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
das palavras dos outros
josé pascoal / Sob Este Título, Editorial Minerva, 2017
IMAGEM E SEMELHANÇA
Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.
Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.
Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.
Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.
VISITA DOMICILIÁRIA
Não reparem.
A casa foi desarrumada pelo vento.
Os bichos não têm de que comer.
O sol já brilhou nos ladrilhos da cozinha.
Não façam caso
Do pó de estricnina
Que cobre os retratos de família
E os recados deixados ao pé do telefone.
Esqueçam
As manchas de humidade no tecto,
Os sapatos gastos à beira da cama,
O silêncio ameaçador do fogão a gás.
Não reparem na minha pobre nudez.
A FELICIDADE É UM NOME
Devo ter sido concebido
No dia de Fiéis Defuntos.
Nasci numa aldeia à beira-mar.
As falésias elevam-se a 53 m.
A praia é um poço de caranguejos
E cargueiros naufragados.
Havia uma anciã chamada Felicidade.
Apareceu enforcada numa figueira.
Ninguém sabe quais serão as últimas palavras.
fotografias de André Kertész
vistas aqui
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.
Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.
Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.
Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.
VISITA DOMICILIÁRIA
Não reparem.
A casa foi desarrumada pelo vento.
Os bichos não têm de que comer.
O sol já brilhou nos ladrilhos da cozinha.
Não façam caso
Do pó de estricnina
Que cobre os retratos de família
E os recados deixados ao pé do telefone.
Esqueçam
As manchas de humidade no tecto,
Os sapatos gastos à beira da cama,
O silêncio ameaçador do fogão a gás.
Não reparem na minha pobre nudez.
A FELICIDADE É UM NOME
Devo ter sido concebido
No dia de Fiéis Defuntos.
Nasci numa aldeia à beira-mar.
As falésias elevam-se a 53 m.
A praia é um poço de caranguejos
E cargueiros naufragados.
Havia uma anciã chamada Felicidade.
Apareceu enforcada numa figueira.
Ninguém sabe quais serão as últimas palavras.
fotografias de André Kertész
vistas aqui
quinta-feira, 29 de novembro de 2018
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
das palavras dos outros
josé pedro moreira / Gatos no Quintal, Enfermaria 6, 2018
O TERRENO 2
pedras a fazer de postes
o terreno de jogo
estava minado
de trampa canina
havia que fintar
os calhaus e os dejectos
evitar os carros estacionados
fugir quando um alarme tocava
o pior
era quando a bola
ia parar à vivenda
era preciso saltar a cerca
era preciso ser rápido
por causa do cão
no verão
os rapazes jogavam à bola
pela noite adentro
até deixarem
de ver as balizas
era preciso saltar a cerca
era preciso ser rápido
por causa do cão
no verão
os rapazes jogavam à bola
pela noite adentro
até deixarem
de ver as balizas
Carlos Cánovas
Paisaje Anónimo, Zarautz, 2017
visto aqui
outrora havia os mestres obreiros
erguiam catedrais de beleza a partir da pedra
dos anos para admiração de todos
tanto do vulgo como do senhor
quando calhava fechavam-nos numa caixa
e eles apodreciam no chão
nós os seus netos arrepiámos caminho
sabemos que entre nós e a morte
só há isto
erguer muros e sebes
para que os possamos derrubar
sabemos que esta é uma fórmula tão válida
como outra qualquer
de medir o tempo
erguiam catedrais de beleza a partir da pedra
dos anos para admiração de todos
tanto do vulgo como do senhor
quando calhava fechavam-nos numa caixa
e eles apodreciam no chão
nós os seus netos arrepiámos caminho
sabemos que entre nós e a morte
só há isto
erguer muros e sebes
para que os possamos derrubar
sabemos que esta é uma fórmula tão válida
como outra qualquer
de medir o tempo
Paul den Hollander
Les Pyramides du Nord
Les Pyramides du Nord
visto aqui
sexta-feira, 13 de julho de 2018
sublinhados & notas
Traçar um Nome no Coração do Branco | Rosa Alice Branco | Assírio & Alvim | 2018
Traçar um Nome no Coração do Branco | Rosa Alice Branco | Assírio & Alvim | 2018
DO POEMA ENQUANTO CLIPE
Apresentar um livro de
poesia será sobretudo celebração da própria poesia, e nela da vida, na exacta
medida em que os poemas nos acrescentem, como é notoriamente o caso, sentido e sentidos à nossa tão gloriosa como precária existência: Rosa Alice
Branco, Traçar um Nome no Coração do
Branco (Assírio & Alvim, 2018). E tal acontece, antes de mais, porque
se trata de um ciclo poético extremamente desafiante em termos de leitura, ao
baralhar expectativas e questionar, na prática, os limites do que podemos
designar, simplificando, como o universo da poesia.
Há uma primeira tentação:
ficarmo-nos pela leitura, pela simples leitura audível dos poemas, e eis aqui
um primeiro impacto da obra, a par do livro-objecto que não nos deixa também indiferentes,
assim demasiado rosa avermelhado, com um título a branco que nos fala,
precisamente, do branco. Enleia-nos uma
musicalidade muito natural, um falar que diríamos chão, mas cheio de pequenas e
preciosas surpresas. Um discurso que cria uma insidiosa envolvência no leitor,
uma espécie de respiração fácil; há uma distensão nesta poesia, preguiça
sensual, languidez. Sinto o livro bastante “cool”, na sua musicalidade fluente,
mesmo que o clima não deixe de ser frequentemente lírico e (não tenhamos medo
da palavra) apaixonado. Ainda assim “cool”, predominando uma espécie de
contínuo “legato” que, aliás, a regularidade da própria mancha gráfica
confirma.
O que imediatamente toca o leitor neste
livro é a conhecida coexistência na poesia de Rosa Alice Branco de um vector
que ligaríamos ao pensamento racional, técnico, científico ou filosófico e de
um discurso propriamente lírico (basta recordar títulos da autora como Monadologia Breve ou A Mão Feliz- Poemas D(e)ícticos). Poemas
como os que aqui encontramos accionam múltiplos saberes e há, no caso
particular deste ciclo, a proposta de uma espécie de catálogo de modalidades e
objectos de design (num sentido amplo
do termo), que vai das peças de autor aos objectos mais comuns, passando também
por termos científicos ou referência a marcas comerciais e a um conjunto de
termos que associamos ao mundo moderno e globalizado. No entanto, tais
referências entram numa deriva poética que dá a um universo que seríamos
tentados a considerar tecnocrático novas e inesperadas ressonâncias. Mas não se
trata, naturalmente, de uma exibição gratuita de extravagância nem do gosto da provocação
pela provocação, embora haja aqui um muito evidente sentido lúdico. Somos,
antes, conduzidos a uma travessia de saberes que pressupõe um alargamento do
campo de experiência da vida que a melhor poesia sempre nos propõe. Como diz
Barthes em Leçon, trata-se apenas de
seguir o exemplo da pedra de Bolonha:
«A
literatura [e por maioria de razão a poesia] ocupa-se de muitos saberes (…)
[mas] desvaira os saberes, não estabelece ou fetichiza nenhum deles;
concede-lhes um lugar dissimulado e essa dissimulação é preciosa. (…) permite
designar saberes possíveis- insuspeitos, inacabados: a literatura trabalha nos
insterstícios da ciência: está sempre para além ou aquém dela, tal como a pedra
de Bolonha que irradia à noite o brilho que acumulou durante o dia e com esse
luar ténue ilumina o novo dia que desperta. A ciência é grosseira, a vida é
subtil, e a literatura interessa-nos na medida em que tende a corrigir essa
distância, essa diferença.» (Lição,
ed. 70, 1979, trad. Ana Malfada Leite)
sábado, 9 de junho de 2018
# Em Agenda #
Caderno 5
Caderno 5
os pastéis de nata ali não valem uma beata
[antologia de 2017]
Enfermaria 6, Lisboa, Maio de 2018, 220 pp.
Capa de Gustavo Domingues
aqui
os pastéis de nata ali não valem uma beata
[antologia de 2017]
Enfermaria 6, Lisboa, Maio de 2018, 220 pp.
Capa de Gustavo Domingues
aqui
sexta-feira, 4 de maio de 2018
OTERCEIROTEXTO
A tradução de um poema de Sinéad Morrissey de novo na Enfermaria 6. "Through the square window" pertence ao livro com o mesmo nome, de 2009, e é um dos mais conhecidos e enigmáticos poemas de Sinéad.
A infância, a maternidade, a geografia mítica de Belfast, coisas deste mundo e do outro separadas por vidraças dificilmente transparentes, e muitos e diversos ecos: o azul de Delft, Derek Mahon ("Courtyards in Delft"), E E Cummings ("how do you like your blue-eyed boy / Mister Death") ou Larkin, a quem a autora já dedicara um texto do seu primeiro livro ("To Look Out Once from High Windows").
A infância, a maternidade, a geografia mítica de Belfast, coisas deste mundo e do outro separadas por vidraças dificilmente transparentes, e muitos e diversos ecos: o azul de Delft, Derek Mahon ("Courtyards in Delft"), E E Cummings ("how do you like your blue-eyed boy / Mister Death") ou Larkin, a quem a autora já dedicara um texto do seu primeiro livro ("To Look Out Once from High Windows").
sábado, 7 de abril de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
processos sumários
GRANDES ÁRVORES, PISCINAS
para a Fátima, em memória
jmts
GRANDES ÁRVORES, PISCINAS
para a Fátima, em memória
É um facto que já cá não estás
nem te veremos por entre luzes
e sombras do verão que vier
ou nos braços húmidos do vento
em brilhos de água cercando-te
enquanto respiras
Mas há vida entre todos os factos
e foi em diferida inspiração
que a grande árvore caiu
conhecendo, discreta
o teu caminho
Uns dias após a tempestade
quando inteira, em tronco
e ramos, e vidros partidos
imensamente nos desabou
em tua exacta memória
Uma vida entre todos os factos
quando nascias do fundo
da piscina e os braços como folhas
suspendiam o corpo
tão preenchido de si
nesse grande azul
que agora mesmo insiste
como se fosse teu
e de cada vez
para todo o sempre
nem te veremos por entre luzes
e sombras do verão que vier
ou nos braços húmidos do vento
em brilhos de água cercando-te
enquanto respiras
Mas há vida entre todos os factos
e foi em diferida inspiração
que a grande árvore caiu
conhecendo, discreta
o teu caminho
Uns dias após a tempestade
quando inteira, em tronco
e ramos, e vidros partidos
imensamente nos desabou
em tua exacta memória
Uma vida entre todos os factos
quando nascias do fundo
da piscina e os braços como folhas
suspendiam o corpo
tão preenchido de si
nesse grande azul
que agora mesmo insiste
como se fosse teu
e de cada vez
para todo o sempre
jmts
David Hockney | Swimming Pool | 1978
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