poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








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domingo, 11 de julho de 2010















J.M.T.S.


súbito
Súbito, nem se sabe porquê, irrompem algumas pré-histórias.Na primeira é uma história que invento, precisamente uma história, a primeira história. Recomeço-a eternamente. Escrevo e torno a escrever a sequência inicial, a única que existirá. Um homem parte, a noite vem antes do tempo, cai mais de repente, descrevem-se minuciosamente os mecanismos da tempestade, o momento de suspensão, o bater interior do espaço parado. Grandes nuvens correm nos seus olhos. Está preso ao passado que lhe escorre com a chuva, mas sente o apelo da viagem, um coração que insiste. Surge o comboio fulgurante, trovões e relâmpagos, é a hora. No fim da linha, um dia, chegará à cidade que abandonou, o ar tão fácil de respirar.
J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007












quarta-feira, 5 de maio de 2010




















J.M.T.S.


súbito
Agora o menino fixa os brilhos do Sol numa poça de água. O labirinto de ruas, esquinas, montras, espelhos, tabuletas que dizem «moda», «médico», «filatelia», «retrosaria», trouxe-o até ali, àquela praça de luz mediterrânica. Vão partir para África tios e primos, fica pequenino à sombra do vapor, um imenso paquiderme, aquele movimento do cais chora-lhe nos olhos. Ele antecipa a sirene dramática, o barco que vai desencostando, os sabidos lenços brancos. Fixa os brilhos de Sol numa poça de água, a intensidade que ofusca, e pensa, surpreendendo-se de o pensar: «Vou olhar esta luz. Daqui a muitos anos volto a pensar nela, ela existirá ainda talvez, talvez tudo exista ainda um pouco e nada tenha acabado e eu fique aqui para sempre a olhar o brilho desta água para não chorar, talvez partam mas tudo fique ainda um pouco, para sempre».


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

segunda-feira, 22 de março de 2010













J.M.T.S.



súbito
Desta vez é conduzido pela mão antiga do avô. Ele mostra-lhe as obras na cidade, leva-o nas ruas invadidas pela noite. Os operários aparecem das valas, lançam para as bermas uma terra que vem muito do fundo, os torrões rolam até aos nossos sapatos profanos. Outros avançam, quase sinistros, empunhando bicos de gás, vivem nas máscaras onde se reflecte, bruxuleante, a torre da cidade, a mesma que vê do seu quarto, entre os lençóis e as cortinas. É preciso ter cuidado nas esquinas apertadas, por entre os agudos afloramentos de granito, que são casas cegas no meio das casas com gente lá dentro, é preciso ter cuidado com os eléctricos, diz o avô, cortam de repente as curvas e as plataformas avançam sobre os passeios, mas ele leva-o pelo lado de dentro. É então que sente, como se fosse uma presença escondida, a atmosfera dos portais, um ar laboriosamente edificado, pica nos olhos e no nariz, húmido e denso.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007




domingo, 14 de fevereiro de 2010




















J.M.T.S.


súbito
Nesta história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio. Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar, uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça, brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também contar esta história.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita , Centro Atlântico, 2007






quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


J.M.T.S.



súbito
Na segunda [história] não nasci, mas há uma mulher que espera, com as mãos cruzadas no ventre. Olha pela janela do enorme edifício, uma fábrica de silêncios e ecos, a manhã avança, é como se escutasse o rumor do mundo, os silvos da sua rotação. Ela vê as ramagens em sobressalto, está à espera em frente do vidro e decifra as gotas de chuva. Batem as portadas, aqui e acolá, pensa nos pescadores que estão longe e sofrem no mar, nos que se abrigam entre as torres antigas da sua cidade, nos que vão pelos arrabaldes lamacentos. Acaricia distraidamente o ventre, descobre na distância um vulto que está também à janela, um rapaz que olha a tempestade, o mundo inteiro que nasce para os seus olhos. Ele acena-lhe longamente, por entre os riscos do dia, ela decide responder-lhe.

J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

sábado, 14 de novembro de 2009




alvão. pormenores de uma panorâmica. o douro no porto

súbito
E eis que retenho uma imagem da perfeição. Uma mulher canta na varanda, está lá desde sempre, encostada ao pano de pedra da parede, defende-se da vertigem. O braço leve acompanha a cal, o estuque esboroado. Está encostada e respira sob o tecido do vestido, canta, e é então que todo o ar da cidade a empurra mais um pouco contra o muro, a mão sobre os dois seios, o ar da cidade agora tão apurado, maresia, ferrugens, pó húmido de nuvens e ervas distantes, o penetrante cheiro do lodo do rio, a poeira dourada da ascensão do dia. Uma mulher canta, o ar espesso da cidade respira, suave e antigo, no longuíssimo momento.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007




domingo, 25 de outubro de 2009





súbito

Não existia nada. Aqui estamos. E depois da frase anterior também.
Subitamente uma palavra- súbito, só melhor do que as outras porque mais súbita, nem se sabe porquê.     (...)
Escrevi alguns poemas, fiz algumas fotografias precisamente para que a palavra súbito não existisse, existisse simplesmente o mais súbito que dos súbitos persistisse.
Além do mais, não sei se repararam, à transparência desta folha está escrita, subitamente, a palavra sempre.
Então, desta vez, um texto sobre a palavra sempre. E à transparência, escrita para sempre, a palavra súbito.

jmts
in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007







jmts
da série A casa do Inverno