poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








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segunda-feira, 22 de abril de 2019




ela decide responder-lhe


Há uma mulher que espera, com as mãos cruzadas no ventre. Olha pela janela do enorme edifício, uma fábrica de silêncios e ecos, a manhã avança, é como se escutasse o rumor do mundo, os silvos da sua rotação. Ela vê as ramagens em sobressalto, está à espera em frente do vidro e decifra as gotas de chuva. Batem as portadas, aqui e acolá, pensa nos pescadores que estão longe e sofrem no mar, nos que se abrigam entre as torres antigas da sua cidade, nos que vão pelos arrabaldes lamacentos. Acaricia distraidamente o ventre, descobre na distância um vulto que está também à janela, um rapaz que olha a tempestade, o mundo inteiro que nasce para os seus olhos. Ele acena-lhe longamente, por entre os riscos do dia, ela decide responder-lhe.
J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007







Maria Mercedes Marques Ferreira (1930-2019)





segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

das palavras dos outros




inês lourenço / O Segundo Olhar, Companhia das Ilhas, 2015



 AS ASAS DO DESEJO

No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora…












     


                        Bruno Ganz . 1941 - 2019








quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

das palavras dos outros





ferreira gullar / in Em alguma parte alguma, Ulisseia, 2010


REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?





daniel moreira
"entre o território" (2014)



   imagem vista aqui




 

segunda-feira, 6 de abril de 2015

as súbitas permanências


MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia

E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






  Manoel de Oliveira 1908-2015





segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




Ramos Rosa: poesia, liberdade livre

Há em alguns um modo raro de escrever a vida e de viver a poesia. É um caminho muito estreito e assim deslumbrado. 



André Letria


O poeta moderno descobre e denuncia a alienação total de um mundo cruel e desumano. Não há lugar, não só para o poeta e para a poesia, "não há lugar" simplesmente: a possibilidade de uma respiração livre e fraterna , de uma harmonia viva, apenas se propõe no exercício da poesia, no grito que ela é. A poesia descobre-se com Rimbaud "liberté libre", mas infernal. 

Poesia, Liberdade Livre,  col. O Tempo e o Modo, Livraria Morais Editora, 1962




Onde estou aqui quisera estar
monotonamente ardente
serenamente vivo
animal da fábula doméstica
concreto sob a materna sombra
fiel ao fundo do tempo
e de mim mesmo

O livro da Ignorância, Signo, 1988







outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

das palavras dos outros






seamus heaney / in Death of a Naturalist
 [ Antologia Poética . Seamus Heaney. selecção e tradução de Vasco  Graça Moura , Campo das Letras, 1998]



HELICON PESSOAL
para Michael Longley

Em pequeno, ninguém me tirava da beira
de poços, velhas bombas com roldana e balde.
Amava o escuro gotejar, o céu cativo, onde cheira
a ervas, fungos, musgo, relentos de humidade.

Numa tijolaria, havia um de tampo podre. Como
sabia o rico choque de um balde que baixava
na ponta de uma corda assim a prumo!
Tão fundo que nem um só reflexo dava.

Um, menos alto, sob o rebordo, ia
frutificando como aquário. E a quem puxasse
longas raízes da rede húmida e macia,
sobre o fundo boiava a branca face.

Outros tinham ecos, a devolver a voz sem faltas
em limpo e novo som. E era um puro susto
porque lá, entre os fetos e as dedaleiras altas,
no meu reflexo um rato dava um sacão brusco.

Agora, espreitar entre raízes, dedilhar o limo,
olhar, Narciso de olhos grandes, uma nascente, não
é digno de um adulto. Eu rimo
para me ver, para dar eco à escuridão.




 george konig

"Two sewer workers examine the Fleet sewer, London, 
at low water level, 14 January, 1914"








segunda-feira, 24 de dezembro de 2012


passagens









para o dia 25.12.2012
 
visto aqui
(um sítio por onde gosto, muitas vezes, de fazer um atalho)




quarta-feira, 14 de novembro de 2012




depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade



Nesta história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio. Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar, uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça, brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também contar esta história.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita , Centro Atlântico, 2007











Manoel José Vital Teixeira da Silva (1921-2012)



sábado, 20 de outubro de 2012

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

passagens



Giotto | O frio em volta, as cores desbotadas. Talvez algo possa sempre acontecer muito perto de nós. Somos a gente que chega de fora e se vai habituando a respirar o dia que ali se condensou. Os animais esperam na sua infinita paciência, alheios às tempestades de luz e asas. Um homem fica também de costas, como se não fosse nada com ele, perdido dentro de si. São coisas, no fundo, muito simples, alguns gestos maternais e de aconchego, deixar que um olhar possa nascer com o mundo.





domingo, 27 de fevereiro de 2011

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia






Fotografia como cicatriz e palimpsesto

Diz-nos a japonesa Miyako Ishiuchi, a propósito das suas fotografias de cicatrizes (ver aqui e aqui):

I cannot stop [taking photographs of scars] because they are so much like a photograph. They are visible events, recorded in the past. Both the scars and the photographs are the manifestation of sorrow for the many things which cannot be retrieved and for love of life as a remembered present.


E Gérard Castello-Lopes nas Reflexões Sobre Fotografia (Assírio & Alvim, 2004, pp. 67,68) :

Estou persuadido de que, ao longo da nossa vida, e particularmente durante a infância, vamos retendo, memorizando formas, gostos, cheiros, sabores, que armazenamos algures numa memória de que só temos vaga consciência. E assim se gera em nós uma espécie de palimpsesto, uma escrita secreta, meio obliterada pela percepção racionalizável e superficial da realidade que nos cerca.
Mas aqueles arquétipos sobem à tona do consciente de vez em quando, sobretudo quando tentamos exprimir algo profundo e importante. Nas artes plásticas, de que a fotografia é parente menor, poder-se-ia definir esse surdir arquetípico como o alicerce do que comummente chamamos estilo, aquilo que nos leva a distinguir uma fotografia de Cartier-Bresson doutra de Alvarez Bravo. É o signo escondido, o vinco pessoal, a secreta assinatura do autor.

Em ambos os casos se revela a conhecida vocação da fotografia para lidar com o passado, ou melhor dizendo, com o presente em devir sempre iminente de passado. Recordemos o projecto de Atget, que percorre o Velho Paris exactamente um segundo antes do camartelo da modernidade.
Mas os dois fotógrafos fazem-no de modo paradigmaticamente diferente.
Em Miyako a cicatriz é a presença delicada e dolorosa de uma ausência e a fotografia vem suturar as feridas da vida. No vendaval do tempo, as imagens são o que resta de um traumatismo, uma espécie de inventário cruel e sensível dos despojos que uma existência largou, pequenas colecções que ecoam a violência do passado na beleza da sua quase extinção.
Em Gérard a fotografia é a madeleine proustiana, torna a encenar a inefável cena primitiva e pessoal. O tempo deixa-se ver na transparência eterna de si mesmo, jogo, ilusão e iluminação, como se fosse todos os dias descoberto na sua antiga novidade. É assim nessa fotografia (Algarve, 1957) em que uma mulher nos sorri pela primeira vez desde o mais dentro das eras.


(passagens: este texto é também uma homenagem a Gérard Castello-Lopes :1925-2011).



J.M.T.S.




sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

passagens

















































































Entremos, apressados, friorentos, / numa gruta, no bojo de um navio, / num presépio, num prédio, num presídio, / no prédio que amanhã for demolido... / Entremos, inseguros, mas entremos. / Entremos, e depressa, em qualquer sítio, / porque esta noite chama-se Dezembro, / porque sofremos, porque temos frio.

pieter brueghel . a adoração dos magos numa paisagem de inverno (1567) . david mourão-ferreira









segunda-feira, 25 de outubro de 2010

passagens


Súbito faz hoje um ano. Apenas um ponto no trânsito das passagens. Cruzamentos de vozes, luzes, escuridão e tempo. Presenças presentes, também sugeridas e multiplicadas. Apenas um ponto.


Podemos, por exemplo, celebrar assim: terei todo o gosto em oferecer um exemplar do meu livro de poemas As Súbitas Permanências ao primeiro leitor do blogue (tem de haver um critério qualquer...) que se me dirija nesse sentido, por e- mail, e não se esqueça de comunicar uma sua morada menos virtual: um lugar, uma rua, um número de porta.

post scriptum: o livrinho já encontrou o seu novo dono. Obrigado.





sábado, 19 de junho de 2010

passagens
(1922-18/6/2o10)


(...) A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar,a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar disso, estamos vivos, Blimunda(...). memorial do convento




segunda-feira, 1 de março de 2010

as súbitas permanências
passagens (1/3/1810)



FRÉDÉRIC CHOPIN, NO INVERNO DE MAIORCA
para o Domingos, em memória do tio António


1. A chegada à Ilha

Como se, olhando muito, fechasse enfim os olhos
e me embalasse, em contratempo, o ondular dos remos
o abraço dos últimos balanços que trazem a ilha
os palmares de brisa inebriante, dizem
enquanto tusso assim na tempestade
e ardem as fundas grutas do meu peito
os ecos da escassa música, o duro ataque


2.
No Luar de Palma

Onde estamos, se nos cerca a vibração da prata
o mar das baleares, o canto sacudido pelo vento?
Alheio bate-nos um coração do mundo noite fora
o contraponto, em silêncio, das ruas paralelas
ou as estrelas, a sua fuga, nos vagares da insónia
e ouço, do pátio exíguo, no fundo leito
o sopro inteiro do poço encantado do lugar


3.
A Arte da Composição

A estância da harmonia é esta casa dos ventos
o doce mecanismo dos tufões, um nocturno rumor improvisado
Chego-me ao fogo da cozinha, se o frio é assim a pele dos dedos
quando Aurora ilumina a perfeição, digamo-lo, de uma cebola
a aspereza nas pétalas delicadas sob a faca
Persigo os riscos das bátegas, o decisivo curso errático da vida
prelúdios para sempre inacabados, lágrimas apenas verdadeiras


4.
A Ocupação do Tempo

Procuramo-nos longe nesta rude estação
de costas um para o outro, como quem avalia uma distância
o estrondo do trovão no claustro abandonado, os relâmpagos
que o tempo ecoará no seu lento fulgor
Espera-se sempre um acorde e o silêncio
que ilumine o intervalo desta vida
a tua nudez anunciada, a sábia incompletude do amor


5.
Adeus

Entre vagas e vagas alternadas
partimos sempre da nossa vida inteira
como de uma ilha tão pouco visitada
À deriva das horas submersas
a neve sobre a neve, o rosto da amada
vida que corria com o rio
este último canto sobre as águas


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001


[Saber que o tempo não se acumula, vibra em cada momento. 
Recordo este poema no dia em que Chopin nasceu, há 200 anos, 
um de Março de mil oitocentos e dez.]







 
 










única fotografia conhecida de Chopin, 
atribuída a Louis-Auguste Bisson, 
de 1849, o ano da morte