poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








Mostrar mensagens com a etiqueta GEOgrafias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta GEOgrafias. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 4 de junho de 2020

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros
 


Casa e Jardim de SERRALVES, PORTO / Maria Velho da Costa


A estação está no seu brumoso começo.O ar tem gotículas de água da noite que se acumulam em bagas irisadas no musgo e na relva. Miss Laura pára ao embate incandescente da multiplicidade de sons, odores, manchas de cor. Vai visitar os seres e sons que brotam cada manhã nos jardins e orlas do bosque, aves e girinos,as lâminas verdes dos narcisos, das túlipas, dos lírios e peónias que despontam dos bolbos por debaixo das japoneiras, com os pés cobertos de pétalas branco e rosa. As roseiras sangram hastes novas para o lado do ar e brotam folhas cor de água nas árvores caducas. Não faz vento e uma humidade fresca arrepia a pele ainda morna de Miss Laura que corre pelas áleas de gravilha com o seu grande chapéu de abas mortas na mão, as fitas a esvoaçar. Sob a abóbada dos altos olmos trançados pára e olha a casa que brilha lá no alto como um claro navio suspenso na linha de mar. O mundo desmorona-se para lá dela, lá fora na cidade fermentam detritos, óleos, corpos, o rio opaco galga armazéns e escadas lúgubres, ruge na foz e encapela-se na base das pontes, mas para cá da casa, da muralha amena e rósea que a casa faz, com as suas altas janelas incendiadas a prata, o mundo pára,esvai-se na fantasia de Miss Laura. Semicerram-se os olhos e a casa é uma grande nave mestra que paira na unção da luz branca cortada pelo voo dos melros e das claras pombas. Uma gaivota grasna tresmalhada até ali e vem outra que deriva com ela até à maresia do bosque, para lá dos últimos socalcos dos grandes canteiros e lagos bordejados de feteiras que descem da casa. "É aqui o lugar de onde não sairei mais, nem morta", pensa Miss Laura no seu arrebatamento.








fotografias de arquivo. fundação de serralves







Maria Velho da Costa, "A Ponte de Serralves" in O Amante do Cravo, Edições Asa, 2002 





sábado, 11 de abril de 2020

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros
 


BERLIM / Tiago Novaes / Walter Ruttmann 


Sou um homem metódico e acolhi a maturidade com alegria.Cresci numa cidade em ruínas. Todos que cresceram em certa época por aqui foram testemunhas do renascimento de uma cidade. A reconstrução de Berlim. A chegada dos estrangeiros. Enxergamos o presente como uma coisa frágil, porque todas as crianças brincavam nas ruínas e nos baldios, todas já colheram os gerânios que brotavam das rachaduras e fizeram bangue-bangue entre os muros incompletos. Nos anos sessenta, o mundo estava todo voltado para Berlim. E nascíamos compreendendo como era uma parede por dentro, e que pode chover no interior de uma catedral. Os parques desta cidade não são planos porque foram construídos sobre monturos de ruínas, você sabia? A grama cresceu sobre os destroços que a administração amontoou em certas quadras da cidade. Nossa mãe nos levava para passear, e encontrávamos pedaços de papel na grama. Farpas de madeira nobre. Cacos de espelho ou bijuterias. E muitas pedras. Pedras de todos os tamanhos, pedaços de concreto, alguns que pareciam pó de marfim, gesso, um ou outro metal retorcido. - pp. 9-10- capítulo "Emin"

Os olhos de uma cega só enxergam o que não se mostra:o contrapeso da alegria, o blecaute ao meio-dia, os fusíveis queimados do teatro enquanto os atores ensaiam e fumam, confusos entre a leitura e a função. Sou cega mas tenho olhos. Sim, fiquei. Com treze anos. Na última noite em que vi, chovia. A chuva foi minha imagem mais íntima, queimada na retina. Saí de casa porque já não havia casa. Estou em Berlim há dois anos e nunca vi a torre da televisão comunista ou as barbas dos turcos em Kreuzberg. Tenho para mim um mapa das ruas, o meu desenho delas é o som que me fazem. Quando os faróis estão abertos em Glasgower  Strasse, a pista reta rasga como uma lâmina, acuando os homens. Já sei como soa um arranha-céus, mas a rua é de pequenos edifícios, como o do Fight Club. As mães cochicham em iídiche com os filhos. É outra coisa em Brusseler Strasse ou em Ostender Strasse, quando se escuta os passos e os pesos, as conversas pairam na calçada, as janelas abrem e fecham e se pode ouvir o regar das plantas nas sacadas. Esta é a minha cidade. O mapa não dá referências e assim fica fácil, porque aqui dá para morar numa casa que não existe. Aqui eu trago todas as casas desfeitas e fica cômodo. Perder tudo é uma regra. Nenhuma humilhação, nenhuma mesmo. - pp. 40-41- capítulo "Mercedes"

Tudo era novo e quando tudo é novo, ficamos naquela atenção flutuante da qual os psicanalistas tanto falam, uma disposição concentrada onde tudo nos chama e quase nada fica registrado. Descemos em Haselhorst e, no ponto de ônibus em Spandau, a Mio abraçou o corpo, alongou-se para o lado, distraída, e fez um comentário. Já era noite e ela disse "veja quantos coelhos". Voltei-me para a grama verde, imóvel, um tapete plácido. Já estava escuro. Você não vê?, ela repetiu. Eu não via nada. Deu dois segundos, ela saiu correndo pelo gramado, e foi quando aconteceu: passei a ver os coelhos, uma multidão deles, saltitando, afastando-se das pernas leves de Mio, mergulhando em buraquinhos no chão, alongando as patas divertidas em diagonal, como eu de fato imaginava que faziam os coelhos, porque de coelhos eu não sabia nada, jamais havia dedicado um pensamento muito sério, ou muito longo, ou testemunhara um coelho fugir de um predador.Na televisão, quem sabe, e quem sabe onde guardamos esssas memórias, esses registros mínimos. - pp. 138-139 - capítulo "Agave"








 walter ruttman
berlin, die symphonie der grosstadt, 1927



   

Tiago Novaes, Dionísio em Berlim, Editora Quelônio, São Paulo, 2019  
Walter Ruttmann, Berlin, die Symphonie der Grosstadt, 1927


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros


PORTO / Agustina Bessa-Luís
/ António Cruz




Q
uem desce de Gaia,
com os olhos ainda presos à bonomia sólida e às vezes idílica dos subúrbios, ao seu mau-gosto urbano e à sua vida comercial em que se nota uma familiaridade de província com o seu sabor de horta com glicínias e água do poço, quem traz ainda consigo essa indiferença que as coisas felizes nos provocam, suspende-se de repente ao encontrar a face da cidade. Está ela como que inclinada numa cordilheira, com o ar cativo, as faixas das ruas parecendo pendentes do casario desigual. A luz é doce sobre os telhados dum vermelho estagnado; paredes de folha ferrugenta, cores de cimentos sujos e os verdes húmidos dos socalcos onde outrora se talhavam talvez as vinhas, compõem uma expressão de profunda simpatia moral. Há naquela velhice de bairros cruzados e lôbregos, naqueles edifícios presidiais, uma paixão e um selo de resistência. Os casaréus ribeirinhos cobrem-se de trapos que flutuam, há sobre a margem grandes lonas de cargueiros estendidas a secar; uma canhoeira prateada está ancorada como que à sombra das árvores da marginal, um grande casco dum escarlate denegrido move-se lentamente nas águas trémulas. E logo a partir do rio sobem as congostas, os caminhos altos e rebeldes, as avenidas com as imobilíssimas tílias, os calços e tapumes, túneis sobre uma terrosa ladeira, um trecho de linha onde corre, expelindo fumaças contínuas, um comboio de tejadilho arcaico e que se adianta como um cão que farejasse o terreno. Restos da muralha fernandina encravam-se ainda no próprio rosto da cidade; ela aparece com o seu perfil negro, insignificante quase entre cartazes de propaganda, diante do trânsito da ponte que, visto do alto, parece levezinho e cauteloso. Esses muros denteados, paliçada de pedra curvando-se sobre a escarpa, não têm hoje qualquer imponência; a sugestão de ruína que sempre nos adormece na exploração do passado, reduz-se muito naquele incaracterístico crescer de casas, com as pracetas de estacionamento onde as grandes carroçarias são como desperdícios e o branco parquezinho do marmorista reflecte uma civilização imolada.
Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto pendurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha. Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera reflectem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas. O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos.



antónio cruz
aguarela (pormenor), 1957





Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Guimarães Editores, 1957
António Cruz, sem título, aguarela, colecção particular, 1957






sexta-feira, 12 de agosto de 2011

GEOgrafias
lugares & viagens & livros





LAGOS / Sophia de Mello Breyner Andresen / Paul Klee


Caminho da Manhã
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.
 






paul klee
miraculous landing, 1920



Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992
Paul Klee, Miraculous Landing, "112", 1920


sábado, 25 de junho de 2011

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros




Nesta etiqueta ficarão lugares, viagens e livros.
Também pormenores de desenhos, pinturas, fotografias e filmes,como quem escolhe um miradouro ou então se aproxima por instinto para ver melhor e nessa operação tudo se desfoca, para logo se desdobrar num mundo novo.



WANDERNBURGO
/ Andrés Neumann / Ana Hatherly


Wandernburgo: cidade móvel sit. aprox. entre os ant. est. da Saxónia e da Prússia. Cap. do ant. principado com o m. nome. Lat. N e long. E indefinidas por deslocação (...) Hidrogr.: n. Nulte, não navegável. Activ. econ.: cult. de trigo e ind. têxtil (...) Apesar dos testem. de cronistas e viajantes, jamais foi det. a sua loc. exacta.

Após um novo passeio sobre a geada, Hans teve a impressão absurda de que a planta da cidade se desarrumava enquanto todos dormiam. Como podia perder-se tanto? Não conseguia explicá-lo: a taberna onde tinha almoçado aparecia na esquina oposta à que a sua memória lhe indicava, a ferraria que deveria estar ao virar à direita sobressaltava-o com os seus golpes pela esquerda, aquela ladeira que sem dúvida descia oferecia-se subitamente empinada, certa paisagem que ele recordava ter atravessado e que deveria desembocar numa avenida via-se interrompida numa taipa cega. Desafiado no seu orgulho de viajante, após negociar com um cocheiro um assento na próxima carruagem para Dassau, Hans manteve o seu empenho em identificar as ruelas que percorria. Porém, tal como acertava duas ou três vezes e cantava vitória, desalentava-se ao comprovar que se perdera novamente. O único lugar que se mostrava invariavelmente acessível era a Praça do Mercado, à qual regressava incessantemente para se orientar. Aí estava de novo Hans, a fazer tempo para a saída da carruagem, procurando fixar na sua mente os pontos cardeais, transformado em relógio de sol a projectar uma lança de sombra sobre o empedrado, quando viu chegar o tocador de realejo.








ana hatherly
in a reinvenção da leitura (pormenor)







Andrés Neuman, O Viajante do Século, Alfaguara, 2010 (trad. Vasco Gato)
Ana Hatherly, A Reinvenção da Leitura, Editorial Futura, 1975