poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








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segunda-feira, 6 de abril de 2015

as súbitas permanências


MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia

E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






  Manoel de Oliveira 1908-2015





sábado, 6 de abril de 2013

as súbitas permanências



ARRABALDE

Sabes do destino das ruas mais distantes
e aí persistem plenas as ausências
moradas de um abandono iluminado
Seguimos as pisadas que se perdem
o canto rouco das torrentes da poeira
demolidos portões, a ferrugem das passagens
Nos teus olhos outros olhos que se afastam
ao longe noutro arrabalde
e tudo disposto para sempre sem lugar


 
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






 Edward Heim, New York, 1920's








sexta-feira, 22 de março de 2013

as súbitas permanências



A MULHER NUA

Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?




A MULHER ESTRÁBICA

Enfrenta-nos como se olhasse o mundo
e com intensa distracção beijasse
a mais tocante distância dos lábios
Dedicamos-lhe toda a vasta ausência
que inspira os seus caminhos transviados
e mantém assim forte o nosso abraço
Com olhos que nos trazem tão de longe
como viver o tempo em que se vive
o infinito de um frontal olhar?


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






 modigliani







sábado, 24 de março de 2012

as súbitas permanências



FILATELIA

Fica serena a vida e toda a luz imensa
pelas paredes de papel delido
na felicidade de uma estampa antiga
o tigre de Bengala e a flor dos Alpes

São belas as cores que o dia, deposto, vinga
sépia, carmins, azul ultramarino
um espectro do mundo brilhando denso
a transparente saturação do momento

Mas o vento que assalta sempre as folhas?
E os carimbos, as colas e as dedadas
que fazer das imagens repetidas?

E se, nua, percorres esta casa
por entre os aguaceiros mais intensos
acende-se um relâmpago dos tempos


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)













quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

as súbitas permanências



PRECIPITAÇÃO, CÁLCULOS
lendo Carlos de Oliveira

No apuro de tantas luzes
os cálculos iridescentes
riscos frios no astro petrificado
da mão, lavas, breves águas
batem intensamente os olhos fixos
medindo concentrados
sobre o lado esquerdo
o clarão, o ar precipitado
a bátega súbita do real


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







Star Diary II . Paula Catão
filme de Pedro Teixeira






sábado, 26 de novembro de 2011

as súbitas permanências



ESTRELA CADENTE SOBRE O MAR


Na noite das estrelas cravejadas
rasga o vazio a improvável luz
de enorme negro afinal intenso
o fundo atento a ondas espelhadas

Olho-te os olhos lentos de surpresa
o trânsito da chama tão visível
que do abismo dos peixes cintilantes
se anuncia fatal e assim aéreo

Se esta queda fulgura inteiramente
detém-se no atrito de um olhar
em que demora o pó remanescente

Então o mar iluminando os tempos
de estrelas longamente fixadas
deixa arder ao passar esse desejo



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)




Star Diary I . Paula Catão
filme de Pedro Teixeira






.

domingo, 6 de novembro de 2011

as súbitas permanências



JOHN KEATS, RECOSTADO A UMA COLUNA ROMANA


Adormece o alheio esplendor no leito
das pedras, quando, tão brutais, suspendem
as nuvens altas, o rosto de Roma
luminoso e volátil sob os olhos

Esqueço os céus remotos, a terra mágica
e declino, na urna do silêncio
as volúveis canções primaveris
entre cacos, ossos, imensos versos

Como dizer o peso e a doçura
desse mundo que já repousa em mim
depois de mim, ausente esta alegria
que agora se respira para sempre?




J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)












segunda-feira, 17 de outubro de 2011

as súbitas permanências



ROMA, CEMITÉRIO PROTESTANTE


Ali fica o lugar dos estrangeiros
o inverso jardim anunciado
pelo sopro dos ciprestes, o baque repetido
das folhas dispostas sobre o musgo
Recolhe-se um murmúrio, o nome
do poeta escrito para sempre pela água
Eis a selva delicada, violetas
lírios violentos, um império dos gatos
Retomam o salto primitivo, soltam uma vida
por entre a tepidez terrífica das asas
Como se afundam donzelas em relvados
todo o tempo para as tranças de pedra
as mãos em abandono sobre os seios
pomos lentamente congelados

Chegaram pelo claro vapor da manhã
vaguearam as tardes estiradas pelas praças
pressentem nocturno o suspiro das fontes
o cerco de colunas derrubadas
sabiamente dispersas pelas colinas

e ali alcançam uma vida atrás da outra
as cúpulas mais distantes da cidade



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







jmts










segunda-feira, 10 de outubro de 2011

as súbitas permanências



A MULHER NUA


Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








jmts













quarta-feira, 28 de setembro de 2011

as súbitas permanências



LONDRES, DEDICATÓRIAS NOS BANCOS DOS JARDINS
para a Inês

Por aqui outro alguém muito passava, deixou poucas palavras
Sentava-se nestas sombras, exactamente como
Mrs. Dalloway, que foi ficando, folha após folha?
Abandonar assim a memória mais suave
cada instante de vida em debandada
inocente oscilação de galhos sobre galhos
Que só com alheia distracção
atentem nas palavras que ficaram
e se perdem assobiando para os pássaros
Um desejo eternamente confundido
no enleio sussurrante do jardim
A vida ou o salto infindo dos esquilos
apenas o modo brusco como toda a árvore
cai para sempre em cada folha
Iam e vinham das torres sobre torres
cruzavam-se no nevoeiro, brilhantes de memória
Iluminem agora outros as suas mágoas
na transparência obscura dos nenúfares
respirem a íntima vastidão dos relvados
feridos de estrelas um dia pressentidas

Como um livro, veloz memória
que o esquecimento variamente desfolhasse
numa história de chuvas entranhadas
e perfumes sabiamente evanescentes


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts







sábado, 10 de setembro de 2011

as súbitas permanências





PORTO, TRASEIRAS DA SÉ

para os meus pais

São nossos, tão de longe, esses olhos
Por aqui sempre ficaram

no esplendor reverso das traseiras

Longamente inscrevem, na luz que os enruga
a mais aérea e límpida gravura

Tudo o que da água sabe o filho de um peixe
assim nos ensinam, distraídos
a inclinar a cabeça, como evitar
a demorada disposição da terra
um tempo que em relances se acumula

Encontramo-nos todos nestes pátios
inocentes das nuvens que nos sabem
Há luzes que se acendem a espaços
pelo granito, caliça, ferros, aquela torre
Alguém de novo as vê uma primeira vez


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







jmts







segunda-feira, 22 de agosto de 2011

as súbitas permanências



ILHA DE MALTA, O ESPAÇO


O exposto segredo das ilhas, os seus caminhos
Um prenúncio de lábios chama-o de perto

mas é do outro lado e vem pelas ondas

Perseguir o laborioso recorte dos peixes
avanços de pedra em pedra, a luz em pó

descansar na parede quente, respirando
Assim sonhamos de costas que se voltam para o mar

Como quem esquece

inspiram-te as ruas transversais
alguém te perde em corredores de sombra e tempo
e depressa se chega, ei-lo, é o esplendor da baía
O modo denso como a água nos ilumina os olhos
trabalhos da alegria, profundidade

a que chega toda a transparência


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








jmts










terça-feira, 26 de julho de 2011

as súbitas permanências




AURÉLIA DE SOUSA, NA VARANDA SOBRE O DOURO


É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente

Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa

mas enfrenta-me, acabou de nascer

e abre imensamente os olhos
A névoa abraça-nos até ao osso

respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis

não sabem como visto

numa sombra perfeitamente de mim
a cidade de que parti e não conheço

e nem sequer posso esquecer
Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde

entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa

mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando
Estranham-me a roupa escura e os olhos claros

o camafeu que disfarça os dois seios
sim, eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios


Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos

certa jardinagem, grades sobre rendas

Algo sopra dos fundos dos quartos

fecha as janelas, murmura versos que não possas viver

Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça

atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts








quarta-feira, 30 de junho de 2010

as súbitas permanências



MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia

E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)




























































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema "Montagem"








sexta-feira, 23 de abril de 2010

as súbitas permanências



O JOVEM BACH, IMPROVISANDO EM OHRDRUF


Aqui estou de improviso
rapaz solitário no gelo do tempo
Talvez se chame destino, é uma cifra inspirada
água que de longe corresse nos dedos mais vivos
Ficam rígidos se paro
e a música brilha, então, silenciosa no ar da neve
Horas e horas a fio
abre-se-me a vida, imparável, submissa
como se houvesse uma glória das coisas
que assim nos fosse sensível
Voos que de voos se engendrassem
do mais surdo rumor dos dias
velórios sucessivos, a lenha conquistada
tantas outras fugas
O vento destas frinchas enregela os ossos
oxida a floresta dos tubos
musa de um desarmado fervor cósmico
Assim se aprende
no acaso decidido dos meus dedos
que tudo pode afinal acontecer
aqui tão só, mal chegando aos pedais
que movem o mundo


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






























































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema
"O Jovem Bach, improvisando em Ohrdruf"








sexta-feira, 2 de abril de 2010

as súbitas permanências


PRENÚNCIO
para a Maria José

Se repetes o sopro luminoso
dos rios das estrelas do lugar
estremecem no tecido do silêncio
os fios do trovão assim suspenso
e as folhas sussurrando entre linhas
inscrevem agora espelhadas
um arrepio teu na minha pele


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema "Prenúncio"









segunda-feira, 1 de março de 2010

as súbitas permanências
passagens (1/3/1810)



FRÉDÉRIC CHOPIN, NO INVERNO DE MAIORCA
para o Domingos, em memória do tio António


1. A chegada à Ilha

Como se, olhando muito, fechasse enfim os olhos
e me embalasse, em contratempo, o ondular dos remos
o abraço dos últimos balanços que trazem a ilha
os palmares de brisa inebriante, dizem
enquanto tusso assim na tempestade
e ardem as fundas grutas do meu peito
os ecos da escassa música, o duro ataque


2.
No Luar de Palma

Onde estamos, se nos cerca a vibração da prata
o mar das baleares, o canto sacudido pelo vento?
Alheio bate-nos um coração do mundo noite fora
o contraponto, em silêncio, das ruas paralelas
ou as estrelas, a sua fuga, nos vagares da insónia
e ouço, do pátio exíguo, no fundo leito
o sopro inteiro do poço encantado do lugar


3.
A Arte da Composição

A estância da harmonia é esta casa dos ventos
o doce mecanismo dos tufões, um nocturno rumor improvisado
Chego-me ao fogo da cozinha, se o frio é assim a pele dos dedos
quando Aurora ilumina a perfeição, digamo-lo, de uma cebola
a aspereza nas pétalas delicadas sob a faca
Persigo os riscos das bátegas, o decisivo curso errático da vida
prelúdios para sempre inacabados, lágrimas apenas verdadeiras


4.
A Ocupação do Tempo

Procuramo-nos longe nesta rude estação
de costas um para o outro, como quem avalia uma distância
o estrondo do trovão no claustro abandonado, os relâmpagos
que o tempo ecoará no seu lento fulgor
Espera-se sempre um acorde e o silêncio
que ilumine o intervalo desta vida
a tua nudez anunciada, a sábia incompletude do amor


5.
Adeus

Entre vagas e vagas alternadas
partimos sempre da nossa vida inteira
como de uma ilha tão pouco visitada
À deriva das horas submersas
a neve sobre a neve, o rosto da amada
vida que corria com o rio
este último canto sobre as águas


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001


[Saber que o tempo não se acumula, vibra em cada momento. 
Recordo este poema no dia em que Chopin nasceu, há 200 anos, 
um de Março de mil oitocentos e dez.]







 
 










única fotografia conhecida de Chopin, 
atribuída a Louis-Auguste Bisson, 
de 1849, o ano da morte






segunda-feira, 26 de outubro de 2009




as súbitas permanências 

As Súbitas Permanências
V. N. Famalicão, Quasi Edições, Novembro de 2001.

Capa: Mimesis sobre fotografia de J.M.T.S. Ver aqui, incluindo excerto de crítica de Fernando Guimarães.

Epígrafe: "os voos são regressos"- Carlos de Oliveira.



ACABAR, COMEÇAR

Da antiguidade da vida
O arco aberto da primeira maré
a chuva concêntica no musgo dos lagos
o fio incerto dos pássaros no trânsito das nuvens
os olhos que se olham nas cidades aquáticas
Como se ainda voltasses dizendo
no espelho das janelas mergulham para sempre
os peixes sombrios das constelações
Súbitas permanências

J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001









Amélia Piedade
trabalho original para o poema
"Acabar, Começar"