poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








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sábado, 26 de outubro de 2019

das palavras dos outros




josé manuel morão / in Terra do Esquecimento
poemas da aldeia do Peso- Covilhã, Sítio do Livro, 2019




O CUIDADO DOS CAMPOS

Dantes os campos brilhavam de labor.
Eram as águas meditadas, as presas
de verdes líquenes, os regos orientados.
Entrávamos, entendíamos  a ordem,

jamais morríamos. A morte
era só uma imperceptível mudança de sorte.







ANOS DE TREZENTOS

Neve na serra, alta. Longe.
As gentes sofrem os padecimentos
e refugiam-se nesta sua primeira igreja,
antes de tombarem no leito da doença mortal.

Vou pelos casebres de xisto,
de maceradas portas onde vai marcada a cruz.
É noite. Ardem as pequenas lucernas de azeite
lá dentro. Passo atrás da pequena abside.

Eram os anos de trezentos. Ninguém
sabia deste recôndito do reino.
Os homens dos pinheirais ansiaram um lugar
onde venerar. - O mais era cultivar e morrer.







A VISÃO DO MORTO

Criança, entrei no velório.
O caixão, o morto grande e encasacado,
o copo de água com o raminho de oliveira
com o qual os que chegavam aspergiam o morto.

As gentes à volta, mau grado os brados, morriam.
E o morto vivia, iluminado pela luz que, da porta,
varria o centro do quarto, até ao roxo do pano, ao crucifixo
na mesa ornada, aos castiçais dos lados. 

Parado aos pés do morto. O corpo grande. A cara grande,
aflita. Nos olhos semicerrados, brilhava-lhe segura a pupila,
alumiava ainda, pequena, lenta, alumiava.





Georges Dussaud


imagens vistas aqui









quarta-feira, 24 de abril de 2019

das palavras dos outros




carlos poças falcão / Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018


Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?





Carlos Cánovas
Maria Fugit, London, 1995

visto aqui



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

das palavras dos outros




inês lourenço / O Segundo Olhar, Companhia das Ilhas, 2015



 AS ASAS DO DESEJO

No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora…












     


                        Bruno Ganz . 1941 - 2019








segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

das palavras dos outros




josé pascoal / Sob Este Título, Editorial Minerva, 2017




IMAGEM E SEMELHANÇA

Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.




VISITA DOMICILIÁRIA

Não reparem.
A casa foi desarrumada pelo vento.
Os bichos não têm de que comer.
O sol já brilhou nos ladrilhos da cozinha.

Não façam caso
Do pó de estricnina
Que cobre os retratos de família
E os recados deixados ao pé do telefone.

Esqueçam
As manchas de humidade no tecto,
Os sapatos gastos à beira da cama,
O silêncio ameaçador do fogão a gás.

Não reparem na minha pobre nudez.




A FELICIDADE É UM NOME

Devo ter sido concebido
No dia de Fiéis Defuntos.

Nasci numa aldeia à beira-mar.
As falésias elevam-se a 53 m.

A praia é um poço de caranguejos
E cargueiros naufragados.

Havia uma anciã chamada Felicidade.
Apareceu enforcada numa figueira.

Ninguém sabe quais serão as últimas palavras.




fotografias de André Kertész
vistas aqui







quinta-feira, 13 de setembro de 2018

das palavras dos outros




josé pedro moreira / Gatos no Quintal, Enfermaria 6, 2018



O TERRENO 2

pedras a fazer de postes
o terreno de jogo
estava minado
de trampa canina
havia que fintar
os calhaus e os dejectos
evitar os carros estacionados
fugir quando um alarme tocava
o pior
era quando a bola
ia parar à vivenda
era preciso saltar a cerca
era preciso ser rápido
por causa do cão
no verão
os rapazes jogavam à bola
pela noite adentro
até deixarem
de ver as balizas




Carlos Cánovas
Paisaje Anónimo, Zarautz, 2017
visto aqui


outrora havia os mestres obreiros
erguiam catedrais de beleza a partir da pedra
dos anos para admiração de todos
tanto do vulgo como do senhor
quando calhava fechavam-nos numa caixa
e eles apodreciam no chão

nós os seus netos arrepiámos caminho
sabemos que entre nós e a morte
só há isto
erguer muros e sebes
para que os possamos derrubar
sabemos que esta é uma fórmula tão válida
como outra qualquer
de medir o tempo




Paul den Hollander
Les Pyramides du Nord
visto aqui







domingo, 31 de dezembro de 2017

das palavras dos outros




john berger/ E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias 
 Quasi edições, 2008 | tradução Helder Moura Pereira


Depois foi um pequeno gato. Um gato completamente branco. Vivia numa cozinha de chão irregular e chaminé a céu aberto, com uma mesa desconjuntada e paredes rugosas, caiadas de branco. Quando estava encostado à parede, o gato tornava-se quase invisível, só se viam os olhos escuros. Quando virava a cabeça, desaparecia no interior da parede. E quando se punha aos saltos no chão ou em cima da mesa, parecia um ser que nascia da própria parede. O modo como aparecia e desaparecia dava-lhe a intimidade misteriosa de um deus do lar. Eu sempre achei que os deuses do lar foram animais. Por vezes visíveis, por vezes invisíveis, mas sempre presentes. Quando me sentava à mesa, o gato saltava-me para os joelhos. Tinha dentes aguçados e tão brancos como o seu pêlo. E língua cor-de-rosa. Como todos os gatos de pouca idade, passava a vida a brincar: com a cauda, nas costas das cadeiras, com o que ia encontrando no chão. Quando queria descansar, procurava um sítio confortável e aí ficava. Ao olhá-lo, fascinado, durante uma semana, notei que ele escolhia, sempre que podia, algo que tivesse cor branca- uma toalha, uma camisola, roupa interior. Então, de olhos cerrados e boca fechada, enrolava-se todo e tornava-se invisível no meio das paredes brancas.




Lauren Henkin
visto aqui





 

sábado, 25 de novembro de 2017

das palavras dos outros




gastão cruz/ Existência, Assírio & Alvim, 2017


SÓIS

Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado

entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado

mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse

todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece

                                                                             1 de Março de 2017



 
AZUL-BILBAU

                               Azul-cantábrico, azul-bilbau
                               Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio

Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida

com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida

se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio






Bruno Réquillart
Itália, 1977






livro comprado na apresentação na livraria Flâneur,
 no Porto, em 18 de Novembro de 2017 







 


quarta-feira, 10 de maio de 2017

das palavras dos outros




robin robertson / in Lacre, Língua Morta, 2017
 tradução de Vasco Gato


OUROPEL

Sintoniza a frequência do bosque e ouvirás
o veado a respirar; um músculo a retesar-se; o suspiro
de uma arganaz debaixo de uma coruja. Agora

escuta-te a ti mesmo - essa fricção - o investir e o arrastar,
a dupla pulsação, o tambor. Consegues ouvi-lo, nitidamente.
Consegues ouvir o som do teu corpo, a ir-se abaixo.

Se estiveres muito calado, talvez apanhes a derrota: ou antes
o magro ruído que a derrota produz - a perdição.
Se estiveres completamente calado.

E porém não consegues ouvir nada
senão o som do nada: essa voz
e o seu malbaratar-se, o ouropel da alma. Escuta... Escuta...




HIPOTERMIA

A chuva, disseste, é o silêncio com o volume levantado.
Está a chover há dias.
Mesmo quando pára
subsiste ainda o som
da água da chuva, tentando
encontrar a custo uma maneira de penetrar no solo.

Estamos deitados num abraço soturno:
duas metades a tentarem completar-se, empenhadas
nesta interrupção da estática,
do ruído branco
que foi a chuva a cair
o dia inteiro e toda a noite recoberta.

O silêncio é a chuva com o som baixinho,
e espio agora sem entraves
algo que ficou lá fora no estendal:
uma vida, para ali emaranhada -
ensopada, encolhida,
irreconhecivelmente minha.




INTERFERÊNCIAS

A tempestade desfralda os seus lençóis
contra a janela que escurece:
o vidro encolhe-se sob o granizo lançado.
Transtornado, o televisor perde o tino,
transmuda-se em preto e branco
e cala-se ao mesmo tempo que as linhas telefónicas.
Os postais dela estremecem na prateleira, tombam;
as luzes de Calais vão fritando uma por uma.

Ele não tem como lhe dizer
que os gansos regressam a nado ao crepúsculo,
que o farol passeia o seu feixe
sobre as trincheiras do mar.
Não tem como lhe dizer que a noite vasta
balouça como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela a chave.





Israel Ariño
(da série fotográfica "La Gravetat del LLoc")




imagens vistas aqui



sexta-feira, 3 de março de 2017

das palavras dos outros






daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
 tradução de Júlio Henriques


CADERNO AZUL Nº. 10


     Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
     Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
     Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
    Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
     Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito. 






Susan Howe, That This



 

   imagem vista aqui
flop aqui 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

das palavras dos outros





ferreira gullar / in Em alguma parte alguma, Ulisseia, 2010


REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?





daniel moreira
"entre o território" (2014)



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sábado, 29 de outubro de 2016

das palavras dos outros




judith wright / in Animal Animal, Assírio & Alvim, 2005
 tradução de José Alberto Oliveira



CATATUAS NEGRAS

Cada género específico de tempo ou de luz
tem as suas criaturas. Elas esperam algures,
com se habitassem apenas o calor ou o frio,
o crepúsculo ou a madrugada e não conhecessem outro estado.
Depois, no tempo certo chegam, tímidas ou determinadas.

Assim, quando os grandes ventos áridos, ásperos como lixa,
se acalmaram, e o tempo mudou e vieram as nuvens
e outras aves se calaram em oração ou medo,
estas conheceram a sua hora. Antes que o primeiro clarão longínquo
se acendesse, ou o primeiro trovão pronunciasse o nome,
chegaram em voo cerrado, até que eu pude ouvir
as catatuas negras selvagens, sacudidas no cimo
das suas altas árvores, gritando o desassossego do mundo.





Kunihiro Amano
(xilogravura)




imagem vista aqui




 


domingo, 31 de julho de 2016

das palavras dos outros







sam shepard / in Crónicas Americanas, Difel, s.d.
(Tradução de José Vieira de Lima)




Vejo o meu filho mexer-se, enquanto sonha
Enquanto dorme, de lado, numa cama de motel

No quarto ao lado, um casal discute
Ele repete: «Então, Lorraina, não faças isso!»
Ela repete: «Porquê?»

Nadadores mergulham na piscina, lá fora
Nadando na noite
Nem uma só voz

Os braços que batem a água

Enquanto
O miúdo estremece
Dá voltas com a cabeça na almofada
Há um sonho que passa dentro dele
A sua voz
Sem palavras

Os Grandes Montes Tetons assomam, de fora, à nossa janela
Sem neve
Azuis

O Rio Snake serpenteia à volta da nossa cama
Sibila para dentro de si mesmo

O tipo com o cinturão de cartucheira chega à janela e berra
«Mais cuidado com essa linguagem» para o casal que se trava de razões

O casal cala-se
Solta risinhos abafados

O rodeo acaba
Ouvem-se os camiões

O Café Elk Horn enche-se de montadores de touros
A águia voa no encalço de uma truta

Alguém deixa cair uma moeda na máquina do gelo
A máquina cumpre com um baque seco

Os nadadores deixam a piscina
Agora estão a falar
Mas não consigo entender as palavras

Os alces seguem para norte
(Quase que podemos ouvi-los)

O urso pardo segue para onde lhe apetece
(Ontem comeu três caminhantes)

O meu miúdo anda aos saltos, enquanto sonha

Uma espingarda dispara

O casal grita

O miúdo acorda


5/8/80
Jackson, Wyoming






Edward Hopper
Gas, 1940







domingo, 3 de janeiro de 2016

das palavras dos outros







fernando guimarães / in Na Voz de Um Nome, Roma Editora, 2006



JARDINS DE UPSALA

Não chegou ainda a noite. Tudo se torna mais sereno. Ele vem aí;
trata-se certamente de Lineu. Olha para os lados e assim caminha
por entre os canteiros. Os seus olhos conhecem as plantas adormecidas,
o grande leito feito de terra, o murmúrio que há-de vir
através do sono. Ele sabe que tem de estar atento. Toca com uma das mãos
os estames, algumas pétalas. O vento faz o mesmo. O pólen solta-se
e acaba por se espalhar no chão. Há um perfume mais intenso. Continua
sem parar o seu caminho. Olha à sua volta. Limita-se a registar as semelhnaças
ou as diferenças. O jardim existe no seu espírito. A pouco e pouco, as espécies
e os géneros recebem nomes desconhecidos. Os caules oscilam. Pousa uma ave
no ramo de uma árvore. Mesmo em baixo, talvez venham mais tarde colocar
uma lápide: "Cupressus L." Reconhece-a agora e principia a sentir a verdura
ainda leve, primaveril. Anota qualquer coisa, apenas um pormenor. A seiva
atravessa devagar as páginas desse caderno e chega até às suas mãos.





daniel moreira
"quando a noite cai sobre a floresta" (2014)
grafite sobre papel 29,7x21 cm



   imagem vista aqui 




quinta-feira, 5 de novembro de 2015

das palavras dos outros




  daniel francoy  / in blogue O Céu Vazio (aqui)


 MADRUGADA

Na cozinha adormecida  
há um peixe reduzido apenas
à cabeça e à espinha.
Ao lado, por lavar, duas taças
com um resto de vinho
cristalizado no fundo.
O demônio, quando passa,
deixa um reflexo de luar
refletido no brilho dos talheres.
O tempo, na sua ânsia
de ampulheta, deposita
um punhado mínimo de areia
no fundo das taças limpas.






Oscar Rabin
Natureza Morta com peixe
 e Pravda





quarta-feira, 1 de julho de 2015

das palavras dos outros




joão miguel fernandes jorge / in Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores,1989


Era um dia, pelo fim da tarde
o sol descia sobre
o sentimento da vida.
    
         #
Ficaram, por mais tempo, os lábios
erradios do corpo. Ia
pelos algares das torrentes
junto de selvas bravias e escuras.

          #
A noite descia. Arco que
fere a tua carta.
P'los lábios, as sílabas repetidas.

          #
Guardem, também, silêncio as
flores do limoeiro, a laranjeira.
Não sou uma única voz
na manhã do dia que findara.

          #
Estendeu a mão sobre
a hora, alta noite. Sob
o repouso encostou o rosto.

          #
Nos lábios, um sorriso
revelava o arcano do seu coração.

          #
Havia de dizer o íris de maio,
o muro branqueado
a harmonia.







Josef Sudek






quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

das palavras dos outros




fiama hasse pais brandão / in As Fábulas, Quasi Edições, 2002


DA PORTA DE UM POBRE PARAÍSO

A porta entre o jardim e a casa
geme como uma ave insólita
no meu tão parco ouvido.

Mas se uma ave a si mesmo a compara,
sim, ela canta, aviltando ou louvando,
e com a a alegria nas pupilas vivas *.

*Dante, Paraíso, II, 144




DA VERDADE

Eu levava nos braços o meu filho,
nascido há pouco, desconhecido.
Havia uma luz forte nas ruas,
havia risos, vozes chamavam nomes.

Então, além da esquina veio a mulher,
com o vestido preto, com o seu nada:
desconhecido filho, na casa mortuária.

(Acontecido em Maio de 1969)




MADRESSILVAS E TÍLIAS

A uma janela assoma
a clara madressilva;
a outra, as leves, verdes
folhas da tília.

Disputam o meu olhar.
Numa hora lutam
com varas de penumbra.
Noutra, ferem-se em tudo
o que cintila. E no fulgor
nocturno entram nos quartos,
vencendo a negra luz
que avança para os meus olhos.




Ines Seidel, in between
 
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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

das palavras dos outros






e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
 tradução de manuel a. domingos



POSTAIS


Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.







Doug Beube, série Vector
(2007)





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