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Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GEOgrafias 
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PORTO / Agustina Bessa-Luís
/ António Cruz




Q
uem desce de Gaia,
com os olhos ainda presos à bonomia sólida e às vezes idílica dos subúrbios, ao seu mau-gosto urbano e à sua vida comercial em que se nota uma familiaridade de província com o seu sabor de horta com glicínias e água do poço, quem traz ainda consigo essa indiferença que as coisas felizes nos provocam, suspende-se de repente ao encontrar a face da cidade. Está ela como que inclinada numa cordilheira, com o ar cativo, as faixas das ruas parecendo pendentes do casario desigual. A luz é doce sobre os telhados dum vermelho estagnado; paredes de folha ferrugenta, cores de cimentos sujos e os verdes húmidos dos socalcos onde outrora se talhavam talvez as vinhas, compõem uma expressão de profunda simpatia moral. Há naquela velhice de bairros cruzados e lôbregos, naqueles edifícios presidiais, uma paixão e um selo de resistência. Os casaréus ribeirinhos cobrem-se de trapos que flutuam, há sobre a margem grandes lonas de cargueiros estendidas a secar; uma canhoeira prateada está ancorada como que à sombra das árvores da marginal, um grande casco dum escarlate denegrido move-se lentamente nas águas trémulas. E logo a partir do rio sobem as congostas, os caminhos altos e rebeldes, as avenidas com as imobilíssimas tílias, os calços e tapumes, túneis sobre uma terrosa ladeira, um trecho de linha onde corre, expelindo fumaças contínuas, um comboio de tejadilho arcaico e que se adianta como um cão que farejasse o terreno. Restos da muralha fernandina encravam-se ainda no próprio rosto da cidade; ela aparece com o seu perfil negro, insignificante quase entre cartazes de propaganda, diante do trânsito da ponte que, visto do alto, parece levezinho e cauteloso. Esses muros denteados, paliçada de pedra curvando-se sobre a escarpa, não têm hoje qualquer imponência; a sugestão de ruína que sempre nos adormece na exploração do passado, reduz-se muito naquele incaracterístico crescer de casas, com as pracetas de estacionamento onde as grandes carroçarias são como desperdícios e o branco parquezinho do marmorista reflecte uma civilização imolada.
Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto pendurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha. Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera reflectem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas. O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos.



antónio cruz
aguarela (pormenor), 1957





Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Guimarães Editores, 1957
António Cruz, sem título, aguarela, colecção particular, 1957






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