# Em Agenda #
poesia . fotografia . & etc.
Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil
sábado, 26 de maio de 2018
sexta-feira, 4 de maio de 2018
OTERCEIROTEXTO
A tradução de um poema de Sinéad Morrissey de novo na Enfermaria 6. "Through the square window" pertence ao livro com o mesmo nome, de 2009, e é um dos mais conhecidos e enigmáticos poemas de Sinéad.
A infância, a maternidade, a geografia mítica de Belfast, coisas deste mundo e do outro separadas por vidraças dificilmente transparentes, e muitos e diversos ecos: o azul de Delft, Derek Mahon ("Courtyards in Delft"), E E Cummings ("how do you like your blue-eyed boy / Mister Death") ou Larkin, a quem a autora já dedicara um texto do seu primeiro livro ("To Look Out Once from High Windows").
A infância, a maternidade, a geografia mítica de Belfast, coisas deste mundo e do outro separadas por vidraças dificilmente transparentes, e muitos e diversos ecos: o azul de Delft, Derek Mahon ("Courtyards in Delft"), E E Cummings ("how do you like your blue-eyed boy / Mister Death") ou Larkin, a quem a autora já dedicara um texto do seu primeiro livro ("To Look Out Once from High Windows").
sábado, 7 de abril de 2018
quarta-feira, 28 de março de 2018
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
processos sumários
GRANDES ÁRVORES, PISCINAS
para a Fátima, em memória
jmts
GRANDES ÁRVORES, PISCINAS
para a Fátima, em memória
É um facto que já cá não estás
nem te veremos por entre luzes
e sombras do verão que vier
ou nos braços húmidos do vento
em brilhos de água cercando-te
enquanto respiras
Mas há vida entre todos os factos
e foi em diferida inspiração
que a grande árvore caiu
conhecendo, discreta
o teu caminho
Uns dias após a tempestade
quando inteira, em tronco
e ramos, e vidros partidos
imensamente nos desabou
em tua exacta memória
Uma vida entre todos os factos
quando nascias do fundo
da piscina e os braços como folhas
suspendiam o corpo
tão preenchido de si
nesse grande azul
que agora mesmo insiste
como se fosse teu
e de cada vez
para todo o sempre
nem te veremos por entre luzes
e sombras do verão que vier
ou nos braços húmidos do vento
em brilhos de água cercando-te
enquanto respiras
Mas há vida entre todos os factos
e foi em diferida inspiração
que a grande árvore caiu
conhecendo, discreta
o teu caminho
Uns dias após a tempestade
quando inteira, em tronco
e ramos, e vidros partidos
imensamente nos desabou
em tua exacta memória
Uma vida entre todos os factos
quando nascias do fundo
da piscina e os braços como folhas
suspendiam o corpo
tão preenchido de si
nesse grande azul
que agora mesmo insiste
como se fosse teu
e de cada vez
para todo o sempre
jmts
David Hockney | Swimming Pool | 1978
domingo, 31 de dezembro de 2017
das palavras dos outros
john berger/ E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias
Quasi edições, 2008 | tradução Helder Moura Pereira
Quasi edições, 2008 | tradução Helder Moura Pereira
Depois foi um pequeno gato. Um gato completamente branco. Vivia numa cozinha de chão irregular e chaminé a céu aberto, com uma mesa desconjuntada e paredes rugosas, caiadas de branco. Quando estava encostado à parede, o gato tornava-se quase invisível, só se viam os olhos escuros. Quando virava a cabeça, desaparecia no interior da parede. E quando se punha aos saltos no chão ou em cima da mesa, parecia um ser que nascia da própria parede. O modo como aparecia e desaparecia dava-lhe a intimidade misteriosa de um deus do lar. Eu sempre achei que os deuses do lar foram animais. Por vezes visíveis, por vezes invisíveis, mas sempre presentes. Quando me sentava à mesa, o gato saltava-me para os joelhos. Tinha dentes aguçados e tão brancos como o seu pêlo. E língua cor-de-rosa. Como todos os gatos de pouca idade, passava a vida a brincar: com a cauda, nas costas das cadeiras, com o que ia encontrando no chão. Quando queria descansar, procurava um sítio confortável e aí ficava. Ao olhá-lo, fascinado, durante uma semana, notei que ele escolhia, sempre que podia, algo que tivesse cor branca- uma toalha, uma camisola, roupa interior. Então, de olhos cerrados e boca fechada, enrolava-se todo e tornava-se invisível no meio das paredes brancas.
Lauren Henkin
visto aqui
sábado, 25 de novembro de 2017
das palavras dos outros
SÓIS
Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado
entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado
mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse
todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece
1 de Março de 2017
AZUL-BILBAU
Azul-cantábrico, azul-bilbau
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro
Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio
Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida
com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida
se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio
gastão cruz/ Existência, Assírio & Alvim, 2017
SÓIS
Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado
entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado
mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse
todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece
1 de Março de 2017
AZUL-BILBAU
Azul-cantábrico, azul-bilbau
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro
Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio
Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida
com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida
se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio
Bruno Réquillart
Itália, 1977
livro comprado na apresentação na livraria Flâneur,
no Porto, em 18 de Novembro de 2017
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
# Em Agenda #
Lançamento
28 de Outubro | 17 h | Centro Mário Cláudio | Venade | Paredes de Coura | aqui
A Criança Eterna | antologia de contos
prefácio de Mário Cláudio
Nas Margens do Rio Gilão - Yvette Centeno | O Tempo e a Eternidade - Nuno de Figueiredo | O Búzio do meu Pai - Carla Pais | Infância: Estado Sólido do Tempo - Diogo Leite Castro |
Subir o Tempo à Procura da Infância - Maria Almira Soares | Uma Maçã por Dia - Inês Barata Raposo | Os Tamancos dos Outros - Francisco Resende | O Espelho - Márcia Balsas | Limbo - José Manuel Teixeira da Silva | Última cena. Primeiro Ato. - Conceição Pimenta | Neve Artificial - André Domingues
Centro Mário Cláudio
terça-feira, 17 de outubro de 2017
processos sumários
Há-de haver um poema sobre desatenções
À falta de outra palavra
jmts
JOÃO CABRAL
NO CONSULADO DO PORTO
Há-de haver um poema sobre desatenções
e diversas faltas
de amor, mas acreditem
sou alheio a
esse facto
À falta de outra palavra
direi que
nem sequer estou triste
porque
apenas vejo o que vejo
Ergue-se, é
certo, uma muralha e o nevoeiro
coroando as
torres de imaginação
e poderia ao menos registar a poeira ferrujenta
e
endurecida, súbitos vapores do lirismo
Desta vez de
nada tomei posse
estão
impecáveis os cadernos, as réguas
e os
carimbos, cuido só das cortinas, dedicada
cegueira à luz que se perde no granito
cegueira à luz que se perde no granito
Em pura
verdade, volto o olhar
às extensões
da Andaluzia, assaltam-me
recados
urgentes do Recife, e nem esqueço
a minha
ausência, dia após dia
a iluminar
uma casa do Rio de Janeiro
Tudo expliquei
com o justo exemplo
da faca, dispenso
os dois gumes
as armas
brancas em demasia
Quase nunca abro
a porta que fizeram
os artesãos
desta cidade, muito agradeço
tão boa
madeira, deixa-me à distância de
soluços,
catarros, gritaria solta do lugar
quando, de hora a hora, ofereço
o que tenho de melhor, um tal silêncio
e olhos que calhou estarem fechados
o que tenho de melhor, um tal silêncio
e olhos que calhou estarem fechados
jmts
Construção Ponte Luiz I | Emílio Biel | 1885
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