jmts
poesia . fotografia . & etc.
Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil
sábado, 30 de setembro de 2017
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
sublinhados & notas
depoimento na revista Time Out Porto (Agosto 2017)
COMO EU ESCREVO
Antes
de mais, seguir o conselho de um grego antigo: falar e escrever, mas só se for
mais intenso do que o respectivo silêncio. Ainda assim, arriscar, porque o
céptico Bartleby não existiria sem o diligente Melville. Partimos, como se vê,
do que os outros fizeram e acrescentamos gestos muito nossos. Aceito a energia
de gatafunhos e manchas de tinta, pode ser num café barulhento ou em rascunhos
mentais pelo caminho, em discreta homenagem aos peripatéticos. Seguem-se
tentativas de depuração, em que o computador ajuda muito, se possível no
silêncio, num lugar simplificado, sem esquecer a prova dos nove da leitura em
voz alta. Os textos merecem depois algum repouso, entre os trabalhos e os dias.
Como na arte das compotas, só então se avalia o sabor inteiro, se algum
persistiu. A insinuação do que escrevo surge-me de um fundo de vivências
indistinto e forte, que procuro esclarecer em meia dúzia de fórmulas
abstractas. Mas o projecto é alcançar uma espécie de música de sílabas e
ideias, de lugares, tempos e pessoas. Podemos verificar se tudo correu bem: as
palavras aumentaram a vida?; a vida aumenta as palavras? Isto tudo sou eu a
dizer, mas temos acesso a muito pouco. “Como eu escrevo” é só mais uma ficção, um
pouco inconsciente de si própria. Em todas elas e nos poemas sigo o antigo
acordo ortográfico. O outro só em relatórios, e não é disso que se trata aqui.
jmts
terça-feira, 22 de agosto de 2017
sublinhados & notas
O Jogo das Comparações | Inês Lourenço | col. azulcobalto 042 | Companhia das Ilhas | Lajes do Pico, 2016
DO FLÂNEUR AO INVENTOR DE JOGOS
Apresentar
um livro de poesia como este (Inês Lourenço, O Jogo das Comparações, Companhia das Ilhas, 2016) deveria ser uma experiência tão vital
como a própria poesia. Poderemos, nessa medida, começar a aproximação ao novo
título da autora (que surge já após a recente antologia que abrange os 35 anos
da sua escrita, intitulada O Segundo
Olhar, na mesma editora, em 2015), a partir de um exemplo significativo
disso mesmo:
IRMÃOS KARAMAZOV
Perguntava
à menina da livraria
por
estes irmãos, cujo nome
ela
dedilhou no teclado
com
óbvias letras erradas.
-
É recente? – indagou
com
uma prestável candura.
O
eventual comprador parecia
não
saber ao certo. Uma espécie
de
desânimo atravessa-me os sentidos
na
memória nostálgica
dos
meus verãos adolescentes, falésias
de
tardes febris com a pele
das
páginas onde Aliocha e Ivan
ou
Sónia e Raskolnikoff
iluminavam
a culpa e o temor
que
fatalmente já me pertenciam.
(p.52)
O
poema traz-nos alguns dos temas que têm sido privilegiados pela autora e o seu
tom inconfundível: impõe-se o elogio da leitura e dos livros enquanto lugares
vitais, uma concepção não essencialista, idílica ou decorativa da escrita, um
pendor narrativo, a ligação com o quotidiano e a memória. E também esse modo
crítico e implacável perante alienações, ignorâncias e pretensiosismos humanos.
Mas é um poema que funciona como contra-exemplo relativamente ao local que o
livro escolhe para se apresentar, porque talvez não haja acasos: uma livraria
do Porto que se chama, significativamente, Flâneur.
Flâneur é um dos pobres heróis modernos desapossados de
epopeia, como nos dizem Poe, Baudelaire ou Walter Benjamin. Se, para o
primeiro, é um sujeito suspeito que assume o espírito do crime, já para
Baudelaire e Benjamin surge imerso na grande cidade, caminhando-a
infatigavelmente, mas observando-a nessa distância crítica que o torna, feitas
as contas, imune aos seus valores mercantis, bem ao contrário, por exemplo, do dandy, que se assume, nesse mesmo
contexto, como uma mercadoria exótica e sofisticada (veja-se a propósito o
interessante artigo “Duelo Poético na Cidade: as Peripécias do Herói Moderno”,
de Ricardo Daunt, in Colóquio / Letras,
nºs. 125/126, 1992). O sujeito da poesia de Inês Lourenço assume muitas vezes
(e de novo nesta recolha) o ponto de vista do flâneur, até porque se trata, decididamente, de uma escrita urbana-
relembre-se um título que reúne alguns dos seus livros: Um Quarto com Cidades ao Fundo. Mas adopta também a atitude de uma
outra destas figuras da modernidade, o trapeiro,
que se confunde com o poeta: recolher restos de sensações e de rimas como o
trapeiro os despojos da cidade. É assim que a poesia de Inês Lourenço valoriza
aparentes refugos da vida e do quotidiano, reabilitando-os, como se se tratasse
de uma nova alquimia. Esses seres e lugares preenchem O Jogo das Comparações, seja uma galinha, uma teia de aranha ou
outros seres em “desabrigo”, desta vez humanos, para invocar um título do
livro. O flâneur e o trapeiro preferem “as pequenas pátrias”
(conforme a sequência final), fazem questão de manter as suas distâncias
relativamente a instituições, poderes e artefactos mais ou menos sublimes.
O Jogo das Comparações é um excelente exemplo da poética de Inês Lourenço e
chega-nos às mãos depois de viver a sua própria história: “habent sua fata libelli”, como se constata desde tempos remotos. Esteve para
ser publicado com a chancela da “& etc.” (como alguns dos títulos imediatamente
anteriores da autora), mas, já em fase final de produção, tal acabou por não
acontecer, pela circunstância do desaparecimento do editor, Vítor Silva
Tavares, e a extinção da sua, aliás insubstituível, actividade “subterrânea”. É agora muito bem acolhido pela Companhia
das Ilhas (e envolvido, na contra-capa, por uma fotografia de Susana
Paiva). Vejo-o como um exercício de apuro
e estilização de muitos dos motivos desde sempre presentes nesta poesia, numa
espécie de música de câmara, após alguns livros a que poderíamos associar uma
certa ressonância sinfónica. Caracteriza-o um expressivo efeito musical de
surdina, no mesmo gesto em que retoma muitos dos veios temáticos da escrita da
autora, desta vez organizados em três sequências, que estabelecem uma espécie
de tríptico.
A
segunda, “Teia”, está muito próxima dos seus bestiários, da atenção aos seres
frágeis e plenos, afirmando uma insinuante nostalgia relativamente à
competência vital dos bichos: “abandono” e “soberbas coisas ínfimas”, para
retomar a epígrafe de Manoel de Barros. Mas trata-se de unir esses motivos
essenciais ao percurso biográfico e a “cenas primitivas” que se inscrevem na
construção de uma identidade pessoal, como em “A Galinha” e “Teia”, ou,
lembrando “Gatos e Camélias” e “Animal Verde”, balizam pequenas descobertas e
sensibilidades do quotidiano do sujeito poético. Encontramos ainda uma subtil
parábola política sobre a inteireza e integridade das existências (“No Tempo em
Que os Gatos eram Inteiros”), bem como a mordacidade que caracteriza
frequentemente uma escrita que vem prolongar a longuíssima tradição satírica da
poesia portuguesa. Por sua vez, “Galgos”, “Equus”, “Taurus” ou “Serpens”
transplantam o concreto biológico da vida mais vital, o mais chão fluir dos
dias, para uma inteligibilidade mítica ou estética.
quarta-feira, 28 de junho de 2017
# Em Agenda #
No númer0 7 da revista Três três, há um poema meu, "Niagara", em que se fala, nomeadamente, de uma fotografia de Marilyn, e muitíssimo mais para ler, ver e pensar. O tema deste número, que pode ser folheado na sua versão digital ou em papel, é "Sintoma".
Colaboradores | Bruno Afonso | Fausto Vicente | Felipe Pathé Duarte | Gonçalo Fonseca | Isabel Xavier | José Ricardo Nunes | Nuno Fragata | Pedro Xavier Mendonça | Ricardo Norte | Rita Baptista
Convidados | António Tavares | As Bap | Dalila Garcia | Daniel Ferreira | Headitor | Hugo Pinto Santos | Irene Loureiro | Joana Tavares | Joana Zózimo | João B. Serra | Jorge Muchagato | José Manuel Teixeira da Silva | Júlio Mendes Rodrigo | Lichun Tseng | Michele C. Rocha | Patrícia Chaves | Paulo Constâncio | Paulo José Miranda | Raquel Serejo Martins | Sandra Roda | Tatiana Faia | Tiago Fontes | Xavier Rafael
Colaboradores | Bruno Afonso | Fausto Vicente | Felipe Pathé Duarte | Gonçalo Fonseca | Isabel Xavier | José Ricardo Nunes | Nuno Fragata | Pedro Xavier Mendonça | Ricardo Norte | Rita Baptista
Convidados | António Tavares | As Bap | Dalila Garcia | Daniel Ferreira | Headitor | Hugo Pinto Santos | Irene Loureiro | Joana Tavares | Joana Zózimo | João B. Serra | Jorge Muchagato | José Manuel Teixeira da Silva | Júlio Mendes Rodrigo | Lichun Tseng | Michele C. Rocha | Patrícia Chaves | Paulo Constâncio | Paulo José Miranda | Raquel Serejo Martins | Sandra Roda | Tatiana Faia | Tiago Fontes | Xavier Rafael
quarta-feira, 10 de maio de 2017
das palavras dos outros
OUROPEL
Sintoniza a frequência do bosque e ouvirás
o veado a respirar; um músculo a retesar-se; o suspiro
de uma arganaz debaixo de uma coruja. Agora
escuta-te a ti mesmo - essa fricção - o investir e o arrastar,
a dupla pulsação, o tambor. Consegues ouvi-lo, nitidamente.
Consegues ouvir o som do teu corpo, a ir-se abaixo.
Se estiveres muito calado, talvez apanhes a derrota: ou antes
o magro ruído que a derrota produz - a perdição.
Se estiveres completamente calado.
E porém não consegues ouvir nada
senão o som do nada: essa voz
e o seu malbaratar-se, o ouropel da alma. Escuta... Escuta...
HIPOTERMIA
A chuva, disseste, é o silêncio com o volume levantado.
Está a chover há dias.
Mesmo quando pára
subsiste ainda o som
da água da chuva, tentando
encontrar a custo uma maneira de penetrar no solo.
Estamos deitados num abraço soturno:
duas metades a tentarem completar-se, empenhadas
nesta interrupção da estática,
do ruído branco
que foi a chuva a cair
o dia inteiro e toda a noite recoberta.
O silêncio é a chuva com o som baixinho,
e espio agora sem entraves
algo que ficou lá fora no estendal:
uma vida, para ali emaranhada -
ensopada, encolhida,
irreconhecivelmente minha.
INTERFERÊNCIAS
A tempestade desfralda os seus lençóis
contra a janela que escurece:
o vidro encolhe-se sob o granizo lançado.
Transtornado, o televisor perde o tino,
transmuda-se em preto e branco
e cala-se ao mesmo tempo que as linhas telefónicas.
Os postais dela estremecem na prateleira, tombam;
as luzes de Calais vão fritando uma por uma.
Ele não tem como lhe dizer
que os gansos regressam a nado ao crepúsculo,
que o farol passeia o seu feixe
sobre as trincheiras do mar.
Não tem como lhe dizer que a noite vasta
balouça como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela a chave.
robin robertson / in Lacre, Língua Morta, 2017
tradução de Vasco Gato
OUROPEL
Sintoniza a frequência do bosque e ouvirás
o veado a respirar; um músculo a retesar-se; o suspiro
de uma arganaz debaixo de uma coruja. Agora
escuta-te a ti mesmo - essa fricção - o investir e o arrastar,
a dupla pulsação, o tambor. Consegues ouvi-lo, nitidamente.
Consegues ouvir o som do teu corpo, a ir-se abaixo.
Se estiveres muito calado, talvez apanhes a derrota: ou antes
o magro ruído que a derrota produz - a perdição.
Se estiveres completamente calado.
E porém não consegues ouvir nada
senão o som do nada: essa voz
e o seu malbaratar-se, o ouropel da alma. Escuta... Escuta...
HIPOTERMIA
A chuva, disseste, é o silêncio com o volume levantado.
Está a chover há dias.
Mesmo quando pára
subsiste ainda o som
da água da chuva, tentando
encontrar a custo uma maneira de penetrar no solo.
Estamos deitados num abraço soturno:
duas metades a tentarem completar-se, empenhadas
nesta interrupção da estática,
do ruído branco
que foi a chuva a cair
o dia inteiro e toda a noite recoberta.
O silêncio é a chuva com o som baixinho,
e espio agora sem entraves
algo que ficou lá fora no estendal:
uma vida, para ali emaranhada -
ensopada, encolhida,
irreconhecivelmente minha.
INTERFERÊNCIAS
A tempestade desfralda os seus lençóis
contra a janela que escurece:
o vidro encolhe-se sob o granizo lançado.
Transtornado, o televisor perde o tino,
transmuda-se em preto e branco
e cala-se ao mesmo tempo que as linhas telefónicas.
Os postais dela estremecem na prateleira, tombam;
as luzes de Calais vão fritando uma por uma.
Ele não tem como lhe dizer
que os gansos regressam a nado ao crepúsculo,
que o farol passeia o seu feixe
sobre as trincheiras do mar.
Não tem como lhe dizer que a noite vasta
balouça como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela a chave.
terça-feira, 4 de abril de 2017
O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia
teorias portáteis sobre poesia
outras teorias portáteis sobre poesia aqui
VESÚVIO
Viagem em Itália de Rossellini
(1954). Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander (George Sanders) são o casal Joyce, ingleses de visita a Itália (uma vez mais, como em Um Quarto com Vista de Forster). Dão-nos uma conversa edificante sobre poesia ou talvez, lá no fundo, sobre outras matérias: a natureza do gelo, o ciúme, a saudade, a paixão, ou todas essas coisas (e as outras) ao mesmo tempo, como é próprio, aliás, da poesia. Ela existe porque os diálogos avançam precisamente assim, entre surdos que insistem em ouvir-se.
Mas há um terceiro ponto de vista, o do responsável que
lhes mostrou a casa:
«Quero que vejam a varanda. Aquele é o Vesúvio.
Desde a erupção de 1944 que está inactivo. Mas a temperatura começa a
subir. Atrás daquela primeira montanha fica Pompeia.»
Não o sabe, mas é ele quem melhor nos apresenta a poesia: vistas para a quietude, iminentes erupções. Fóssil e fogo.
sexta-feira, 3 de março de 2017
das palavras dos outros
Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
tradução de Júlio Henriques
tradução de Júlio Henriques
CADERNO AZUL Nº. 10
Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito.
Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito.
Susan Howe, That This
imagem vista aqui
flop aqui
domingo, 5 de fevereiro de 2017
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.
jmts
teorias portáteis sobre fotografia
O mundo suspenso numa ponte
Roland Barthes, em A Câmara Clara (Edições
70, 1981):
É pelo studium que me interesso por muitas fotografias, quer as receba como testemunhos políticos quer as aprecie como breves quadros históricos, porque é culturalmente (...) que eu participo nas figuras, nas expressões, nos gestos, nos cenários, nas acções. (p.46)
(...) o punctum: quer esteja cercado ou não, é um suplemento; é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já lá está. (p.82)
O punctum é (...) uma espécie de fora-do-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver (...). (pp. 85-86)
-------------
Uma coisa é reconhecer, mais uma vez, a pertinência e imaginação teórica de um livro sobre fotografia, como é o caso deste, o seu jogo sedutor entre saber e desejo. Outra é perceber que é exactamente assim como ele diz, que se nos ajusta como perfeita luva. Por exemplo, numa fotografia de Bruno Barbey sinto essa ferida a que Barthes chama punctum, algo que encandeia, um campo cego: Porto, 1964.
Ponte Luiz I, Porto, 1964 . Bruno Barbey
O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.
jmts
bruno barbey aqui
outras parábolas ópticas aqui
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
sublinhados & notas
depoimento no dossier Eros e Literatura (revista digital Caliban: aqui)
- organização de Maria da Conceição Caleiro
eleger um autor e um livro
ou uma passagem de um autor
ou uma passagem de um autor
de língua portuguesa sentidos
como particularmente perturbantes
como particularmente perturbantes
EROS e LITERATURA
Escolho o célebre conto “Missa do Galo” de Machado de Assis. Trata-se, na
aparência, de uma simples conversa entre uma personagem feminina, Conceição,
uma “balzaquiana”, e o narrador, um jovem de dezassete anos. Abordam-se temas
anódinos e até com um pretexto da área do sagrado (a referida missa), mas é, na
verdade, um texto onde perpassa uma insinuante tensão erótica. Nele aprendemos
que o fundamental do erotismo talvez seja, afinal, conversa, minuciosos
preliminares do impossível: o entredito, o interdito, o inaudito, o
subentendido, numa coreografia de palavras e gestos marcada por aproximações e
afastamentos, alguns avanços, muitos recuos. Apuradas as contas, o exercício de
sedução tem como alvo o leitor, sendo a literatura o seu principal agente- só porque
ela assim tão profundamente tem a ver com os humanos e a dança com que eles se
repelem e logo atraem.
Também pensei no Amor de Perdição de Camilo, na relação Simão / Mariana,
por contraste com o par Simão / Teresa. É o conhecido “triângulo amoroso”, mas
a figura de Mariana impõe-se por si mesma. O romance vive de uma espécie de
tensão entre o corpo da paixão e, com Mariana, a paixão como corpo.
A perdição é também a desse encontro/ desencontro, Simão e Mariana enfim unidos
na turbulência fatal das águas, tudo finalmente à deriva. Retenho ainda um
diálogo entre Mariana e Simão, na sequência final do capítulo VIII, feito
simultaneamente de inocência e ousadia, pudor e oferecimento.
Estive quase a escolher Os Maias de Eça de Queiroz. Poderíamos falar da
perturbação erótica que perpassa no romance, reflectindo a partir de duas
descrições paradigmáticas- do incesto inconsciente (capítulo XIV) e do incesto
consciente (capítulo XVII), como se se tratasse de duas faces do erotismo
(espiritualidade vs. carnalidade).
Lembrei-me de Aparição de Vergílio Ferreira e da relação Alberto /
Sofia. Há nela uma dimensão erótica que não encontra lugar na tentativa, por
parte do protagonista, de compreensão do “eu” e do “mundo”, na sua busca de um
difícil apaziguamento. O erotismo é aí um sítio de absoluto desespero e
desamparo.
Devo ainda confessar que pensei no Delfim de Cardoso Pires e na sua
Maria das Mercês, na Judite de Nome de Guerra de Almada e em algumas
passagens de Confissões de Narciso do brasileiro Autran Dourado.
jmts
Masao Yamamoto
visto aqui
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