poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








domingo, 26 de abril de 2020

das fotografias dos outros











visto aqui 






É uma série com imagens de grande intensidade. Instala-se num território de fronteira, numa terra de ninguém que desampara o espectador. Há uma escala monumental, poses para a eternidade, mas a partir do mais frágil, algures entre o instinto de defesa (a máscara sanitária) e a postura da marginalidade (a máscara do bandido). A identidade pessoal ferida, que se denuncia em estranhos apontamentos estilísticos, protege-se numa armadura social que se pretende inexpugnável. Actores numa espécie de filme com guião incerto e guarda-roupa inesperado, numa cidade que se entrevê como sequência de telões que alguém abandonou.





 

sábado, 11 de abril de 2020

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros
 


BERLIM / Tiago Novaes / Walter Ruttmann 


Sou um homem metódico e acolhi a maturidade com alegria.Cresci numa cidade em ruínas. Todos que cresceram em certa época por aqui foram testemunhas do renascimento de uma cidade. A reconstrução de Berlim. A chegada dos estrangeiros. Enxergamos o presente como uma coisa frágil, porque todas as crianças brincavam nas ruínas e nos baldios, todas já colheram os gerânios que brotavam das rachaduras e fizeram bangue-bangue entre os muros incompletos. Nos anos sessenta, o mundo estava todo voltado para Berlim. E nascíamos compreendendo como era uma parede por dentro, e que pode chover no interior de uma catedral. Os parques desta cidade não são planos porque foram construídos sobre monturos de ruínas, você sabia? A grama cresceu sobre os destroços que a administração amontoou em certas quadras da cidade. Nossa mãe nos levava para passear, e encontrávamos pedaços de papel na grama. Farpas de madeira nobre. Cacos de espelho ou bijuterias. E muitas pedras. Pedras de todos os tamanhos, pedaços de concreto, alguns que pareciam pó de marfim, gesso, um ou outro metal retorcido. - pp. 9-10- capítulo "Emin"

Os olhos de uma cega só enxergam o que não se mostra:o contrapeso da alegria, o blecaute ao meio-dia, os fusíveis queimados do teatro enquanto os atores ensaiam e fumam, confusos entre a leitura e a função. Sou cega mas tenho olhos. Sim, fiquei. Com treze anos. Na última noite em que vi, chovia. A chuva foi minha imagem mais íntima, queimada na retina. Saí de casa porque já não havia casa. Estou em Berlim há dois anos e nunca vi a torre da televisão comunista ou as barbas dos turcos em Kreuzberg. Tenho para mim um mapa das ruas, o meu desenho delas é o som que me fazem. Quando os faróis estão abertos em Glasgower  Strasse, a pista reta rasga como uma lâmina, acuando os homens. Já sei como soa um arranha-céus, mas a rua é de pequenos edifícios, como o do Fight Club. As mães cochicham em iídiche com os filhos. É outra coisa em Brusseler Strasse ou em Ostender Strasse, quando se escuta os passos e os pesos, as conversas pairam na calçada, as janelas abrem e fecham e se pode ouvir o regar das plantas nas sacadas. Esta é a minha cidade. O mapa não dá referências e assim fica fácil, porque aqui dá para morar numa casa que não existe. Aqui eu trago todas as casas desfeitas e fica cômodo. Perder tudo é uma regra. Nenhuma humilhação, nenhuma mesmo. - pp. 40-41- capítulo "Mercedes"

Tudo era novo e quando tudo é novo, ficamos naquela atenção flutuante da qual os psicanalistas tanto falam, uma disposição concentrada onde tudo nos chama e quase nada fica registrado. Descemos em Haselhorst e, no ponto de ônibus em Spandau, a Mio abraçou o corpo, alongou-se para o lado, distraída, e fez um comentário. Já era noite e ela disse "veja quantos coelhos". Voltei-me para a grama verde, imóvel, um tapete plácido. Já estava escuro. Você não vê?, ela repetiu. Eu não via nada. Deu dois segundos, ela saiu correndo pelo gramado, e foi quando aconteceu: passei a ver os coelhos, uma multidão deles, saltitando, afastando-se das pernas leves de Mio, mergulhando em buraquinhos no chão, alongando as patas divertidas em diagonal, como eu de fato imaginava que faziam os coelhos, porque de coelhos eu não sabia nada, jamais havia dedicado um pensamento muito sério, ou muito longo, ou testemunhara um coelho fugir de um predador.Na televisão, quem sabe, e quem sabe onde guardamos esssas memórias, esses registros mínimos. - pp. 138-139 - capítulo "Agave"








 walter ruttman
berlin, die symphonie der grosstadt, 1927



   

Tiago Novaes, Dionísio em Berlim, Editora Quelônio, São Paulo, 2019  
Walter Ruttmann, Berlin, die Symphonie der Grosstadt, 1927


quarta-feira, 8 de abril de 2020

processos sumários





na Gazeta de Poesia Inédita
 
"In The Mood For Love"
 


  Podes continuar a chamar-me Mrs. Chan / se apenas assim, ao escolher um vestido / de alto a baixo para ti me desnudo





a partir de

In The Mood For Love 
de Wong Kar-Wai, 2000



sábado, 21 de março de 2020

das fotografias dos outros




céu guarda
série the world is a hotel

aqui 




[ O mundo enquanto hotel: uma certa arte do confinamento e da imaginação, do luxo e da escassez.]

terça-feira, 17 de março de 2020

# Em Agenda #
 






Gazeta Literária, nº.6
 Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto


inclui entrevista a Inês Lourenço

por Paulo Moreira Lopes e José Manuel Teixeira da Siva
com fotografias de João Paulo Coutinho 





quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020


processos sumários






ESPLENDOR NA RELVA: SOBRESSALTO, COM ALUSÃO
A WORDSWORTH E RUY BELO


É quando o filme, na velha cassete
a uma hora e vinte e quatro minutos
salta de repente, ferido dos riscos
da fricção do mundo, e treme o céu
as paisagens se desfocam

Não estava previsto no ardor
da ode primitiva, nem no guião
reescrito em noites de fumo e insónia
de onde saiu tão acabado o enredo

Deanie Loomis, na consagrada
flor da sua glória, por entre os cenários
devastados do Kansas, o olhar poderoso
e frágil, os seios intensamente breves

hesita agora nos sobressaltos da matéria
e num  tempo medido para cá
de todo o drama, da redenção
e do mais sublime, como se afinal
de facto se afogasse, mas tão distante
do imenso fragor das cataratas

Que fazer para continuarmos
demasiadamente felizes, jubilosamente
em desespero, nos intervalos
da insuspeita suspensão da vida

e ter depois de sair para a rua
e para as luzes assim descompassadas
quando os gestos retomam o seu peso
adormecido na escuridão que fica
por dentro de todo o esplendor

e seria preciso que Deanie nos viesse explicar
como nos apaixonarmos, como nos perdermos
e nos reencontrarmos, mas é nosso o temor
de que ela, no seu caminho por entre as mais
se afaste em demasia para longe
e a possam abrigar poemas e relvados
muito mais do que perfeitos

jmts









Stéphane Louis
Abandoned Drive-in . Oklahoma

The Desert by the Sea- Une traversée américaine, 2008

visto aqui







domingo, 16 de fevereiro de 2020



das palavras dos outros





vítor teves / in Lamarim, Fresca . Poetria, 2019


ACENDE

Aperta esta mão em sangue
dá-lhe pérolas e sossegado
leito terno amanhecer.
Corre com o vento frio
sobre a película do olho.
Escorre entre a natureza e a
morte. Acende a vela velha.

Sê a terra fresca que
recebe a pura água entanto
ao teu redor tudo cai no
desesperante e seco vazio.























COMO CORTAR UMA LARANJA?

A vida exige desenvoltura
ter mãos sobre a mesa
olhos e pele à mercê da admiração
O ponto e a vírgula na exata pausa
mas nunca a Pausa Absoluta na
linha interrupta da grande planície

Sonhos perdas risos e medos
núcleo sem arestas ou espinhas
onde a minha mão estende sempre
para a tua mão

Quando pensares no intervalo frio duro
ferve o desejo da morte junto daqueles
que deseperadamente amas e a
Pausa nunca será possível























A 7ª ÁRVORE

                              a Urbano

Na fantasmagórica árvore,
os rebentos de ouro são
esses tiros entre o nosso olhar
e o intocável jardim.
A porta fechada, com
dobradiças de cartão
mostra-nos as queimaduras

das mãos dos que, em vão,
tentaram roubar os frutos,
nessas vinte e sete manhãs.





                                                                                                                  



fotografias: JMTS






segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

processos sumários

 
DESENCONTRO NA CAPELA SISTINA, A PROPÓSITO
DO PROFETA ISAÍAS


Desencontrei-me de ti e é certo
que não anunciaste a minha chegada

Talvez problemas de paralaxe e lotação
se estamos todos à mesma hora
à espera dos milagres, e é difícil
um trânsito assim transfigurado
pelos sopros divinos, como as estrelas
que outros astros depressa vêm apagar
nos vários riscos do céu de Roma

Esqueces o jogo dos ínfimos
espelhos invertendo as melhores
epifanias, e também as dores de costas
um ou outro empurrão, tropeções
nos paralelos que o tempo comum
ornamenta de súbitas saliências

Quem sabe, mais logo
se cruzem os caminhos
quando for à sua vida a gente
que, em fila, desespera
por entre os séculos dos séculos

e os gatos então ocupem as colinas da cidade
e as fontes se respondam no silêncio
e te reserve Deus, ó profeta muito amado
discretas luzes de guardas solitários 

jmts





Miguel Ângelo | Isaías | Capela Sistina, Roma