poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020


processos sumários






ESPLENDOR NA RELVA: SOBRESSALTO, COM ALUSÃO
A WORDSWORTH E RUY BELO


É quando o filme, na velha cassete
a uma hora e vinte e quatro minutos
salta de repente, ferido dos riscos
da fricção do mundo, e treme o céu
as paisagens se desfocam

Não estava previsto no ardor
da ode primitiva, nem no guião
reescrito em noites de fumo e insónia
de onde saiu tão acabado o enredo

Deanie Loomis, na consagrada
flor da sua glória, por entre os cenários
devastados do Kansas, o olhar poderoso
e frágil, os seios intensamente breves

hesita agora nos sobressaltos da matéria
e num  tempo medido para cá
de todo o drama, da redenção
e do mais sublime, como se afinal
de facto se afogasse, mas tão distante
do imenso fragor das cataratas

Que fazer para continuarmos
demasiadamente felizes, jubilosamente
em desespero, nos intervalos
da insuspeita suspensão da vida

e ter depois de sair para a rua
e para as luzes assim descompassadas
quando os gestos retomam o seu peso
adormecido na escuridão que fica
por dentro de todo o esplendor

e seria preciso que Deanie nos viesse explicar
como nos apaixonarmos, como nos perdermos
e nos reencontrarmos, mas é nosso o temor
de que ela, no seu caminho por entre as mais
se afaste em demasia para longe
e a possam abrigar poemas e relvados
muito mais do que perfeitos

jmts









Stéphane Louis
Abandoned Drive-in . Oklahoma

The Desert by the Sea- Une traversée américaine, 2008

visto aqui







domingo, 16 de fevereiro de 2020



das palavras dos outros





vítor teves / in Lamarim, Fresca . Poetria, 2019


ACENDE

Aperta esta mão em sangue
dá-lhe pérolas e sossegado
leito terno amanhecer.
Corre com o vento frio
sobre a película do olho.
Escorre entre a natureza e a
morte. Acende a vela velha.

Sê a terra fresca que
recebe a pura água entanto
ao teu redor tudo cai no
desesperante e seco vazio.























COMO CORTAR UMA LARANJA?

A vida exige desenvoltura
ter mãos sobre a mesa
olhos e pele à mercê da admiração
O ponto e a vírgula na exata pausa
mas nunca a Pausa Absoluta na
linha interrupta da grande planície

Sonhos perdas risos e medos
núcleo sem arestas ou espinhas
onde a minha mão estende sempre
para a tua mão

Quando pensares no intervalo frio duro
ferve o desejo da morte junto daqueles
que deseperadamente amas e a
Pausa nunca será possível























A 7ª ÁRVORE

                              a Urbano

Na fantasmagórica árvore,
os rebentos de ouro são
esses tiros entre o nosso olhar
e o intocável jardim.
A porta fechada, com
dobradiças de cartão
mostra-nos as queimaduras

das mãos dos que, em vão,
tentaram roubar os frutos,
nessas vinte e sete manhãs.





                                                                                                                  



fotografias: JMTS






segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

processos sumários

 
DESENCONTRO NA CAPELA SISTINA, A PROPÓSITO
DO PROFETA ISAÍAS


Desencontrei-me de ti e é certo
que não anunciaste a minha chegada

Talvez problemas de paralaxe e lotação
se estamos todos à mesma hora
à espera dos milagres, e é difícil
um trânsito assim transfigurado
pelos sopros divinos, como as estrelas
que outros astros depressa vêm apagar
nos vários riscos do céu de Roma

Esqueces o jogo dos ínfimos
espelhos invertendo as melhores
epifanias, e também as dores de costas
um ou outro empurrão, tropeções
nos paralelos que o tempo comum
ornamenta de súbitas saliências

Quem sabe, mais logo
se cruzem os caminhos
quando for à sua vida a gente
que, em fila, desespera
por entre os séculos dos séculos

e os gatos então ocupem as colinas da cidade
e as fontes se respondam no silêncio
e te reserve Deus, ó profeta muito amado
discretas luzes de guardas solitários 

jmts





Miguel Ângelo | Isaías | Capela Sistina, Roma






 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

oCorpodasLetras




Federico García Lorca 
Cielo Vivo|Poeta en Nueva York

leitura|Keila Vall




Cielo vivo



   Yo no podré quejarme


si no encontré lo que buscaba.


Cerca de las piedras sin jugo y los insectos vacíos


no veré el duelo del sol con las criaturas en carne viva.



   Pero me iré al primer paisaje


de choques, líquidos y rumores


que trasmina a niño recién nacido


y donde toda superficie es evitada,


para entender que lo que busco tendrá su blanco de alegría


cuando yo vuele mezclado con el amor y las arenas.



   Allí no llega la escarcha de los ojos apagados


ni el mugido del árbol asesinado por la oruga.


Allí todas las formas guardan entrelazadas


una sola expresión frenética de avance.



   No puedes avanzar por los enjambres de corolas


porque el aire disuelve tus dientes de azúcar,


ni puedes acariciar la fugaz hoja del helecho


sin sentir el asombro definitivo del marfil.



   Allí bajo las raíces y en la médula del aire


se comprende la verdad de las cosas equivocadas,


el nadador de níquel que acecha la onda más fina


y el rebaño de vacas nocturnas con rojas patitas de mujer.



   Yo no podré quejarme


si no encontré lo que buscaba;


pero me iré al primer paisaje de humedades y latidos


para entender que lo que busco tendrá su blanco de alegría


cuando yo vuele mezclado con el amor y las arenas.



   Vuelo fresco de siempre sobre lechos vacíos,


sobre grupos de brisas y barcos encallados.


Tropiezo vacilante por la dura eternidad fija


y amor al fin sin alba. Amor. ¡Amor visible!



Eden Mills, Vermont, 24 de agosto de 1929.






quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

# Em Agenda #

 



Alfredo Ferreiro Salgueiro | Catarina  da Costa | Eduardo Quina
 Fady Joudah (trad. Sérgio Ninguém) | José Manuel Teixeira da Silva
Lena Khalaf Tuffaha (trad. Sérgio Ninguém) | Maria Quintans
Silva Trstenjak (trad. Sérgio Ninguém) | Vítor Pais
Yvette k. Centeno (Poetas & Poetas) | Rui Tinoco (Khroniká)




encomendas | informações






domingo, 24 de novembro de 2019

 # Em Agenda #
 



Sombramar

José Manuel Teixeira da Silva | texto
Ana Abreu | ilustrações 



Companhia das Ilhas   aqui
colecção azulcobalto | 076
ISBN 978-989-8828-92-7
Páginas 76 | PVP 12




Sombramar. Um diário de férias cruzado, um puzzle narrativo. 31 dias de Agosto numa vila de nome impossível, à beira mar. O levantamento topográfico acerca-se de materiais caprichosos, memórias resistentes, estratos de imaginação. Temas graves, ocorrências ao pé de nós. Visibilidade deste mundo e do outro, momentos decisivos, gentrificação, outras palavras que dizemos ou calamos. Se houver sorte, uma história de amor, passeios às grutas e chuvas de estrelas. Irrompe, enfim, uma outra narrativa, por fora e muito por dentro, os desenhos de Ana Abreu. Sombramar.







lançamento e apresentação
convite aqui





sábado, 2 de novembro de 2019

 # Em Agenda #
 



A Arte de Música de Jorge de Sena
Palácio da Justiça, Porto, 07/11/2019, 17h30


Sofia Lourenço | piano
António Durães | leituras
conversa com Arnaldo Saraiva e Inês Lourenço
moderação de Isaque Ferreira







fotografia: JMTS






sábado, 26 de outubro de 2019



das palavras dos outros






josé manuel morão / in Terra do Esquecimento
               poemas da aldeia do Peso- Covilhã, Sítio do Livro, 2019




O CUIDADO DOS CAMPOS

Dantes os campos brilhavam de labor.
Eram as águas meditadas, as presas
de verdes líquenes, os regos orientados.
Entrávamos, entendíamos  a ordem,

jamais morríamos. A morte
era só uma imperceptível mudança de sorte.























ANOS DE TREZENTOS

Neve na serra, alta. Longe.
As gentes sofrem os padecimentos
e refugiam-se nesta sua primeira igreja,
antes de tombarem no leito da doença mortal.

Vou pelos casebres de xisto,
de maceradas portas onde vai marcada a cruz.
É noite. Ardem as pequenas lucernas de azeite
lá dentro. Passo atrás da pequena abside.

Eram os anos de trezentos. Ninguém
sabia deste recôndito do reino.
Os homens dos pinheirais ansiaram um lugar
onde venerar. - O mais era cultivar e morrer.























A VISÃO DO MORTO

Criança, entrei no velório.
O caixão, o morto grande e encasacado,
o copo de água com o raminho de oliveira
com o qual os que chegavam aspergiam o morto.

As gentes à volta, mau grado os brados, morriam.
E o morto vivia, iluminado pela luz que, da porta,
varria o centro do quarto, até ao roxo do pano, ao crucifixo
na mesa ornada, aos castiçais dos lados. 

Parado aos pés do morto. O corpo grande. A cara grande,
aflita. Nos olhos semicerrados, brilhava-lhe segura a pupila,
alumiava ainda, pequena, lenta, alumiava.






















  Georges Dussaud
                 aqui









domingo, 13 de outubro de 2019

# Em Agenda #




Gazeta Literária, nº. 5
Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto

número dedicado a Daniel Faria 



(neste número colaboro com um poema e uma nota crítica
sobre o último livro de Fernando Guimarães, Junto à Pedra)

aqui





quarta-feira, 18 de setembro de 2019

 # Em Agenda #









Tutano
revista de poesia, teatro e todas as artes . poetria

lançamento do número zero
feira do livro do porto | pavilhão POETRIA | 21/09/2019, 18 h 30

Ana Bessa Carvalho, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Inácio,
André Domingues, André Tecedeiro, Francisca Camelo,
José Carlos Soares, José Manuel Teixeira da Silva, Kallie Falandays,
Paulo Rema, Pedro Craveiro, Rui Azevedo Ribeiro, Samsara,
Renata Portas, Ana Rocha, Jorge Palinhos, Daniel Flores,
Gonçalo Sério Limpo, Marco Dias, Vera Oliveira,
Graça Martins e Isabel de Sá.