jmts
poesia . fotografia . & etc.
Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil
domingo, 17 de dezembro de 2017
sábado, 25 de novembro de 2017
das palavras dos outros
SÓIS
Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado
entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado
mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse
todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece
1 de Março de 2017
AZUL-BILBAU
Azul-cantábrico, azul-bilbau
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro
Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio
Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida
com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida
se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio
gastão cruz/ Existência, Assírio & Alvim, 2017
SÓIS
Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado
entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado
mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse
todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece
1 de Março de 2017
AZUL-BILBAU
Azul-cantábrico, azul-bilbau
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro
Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio
Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida
com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida
se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio
Bruno Réquillart
Itália, 1977
livro comprado na apresentação na livraria Flâneur,
no Porto, em 18 de Novembro de 2017
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
# Em Agenda #
Lançamento
28 de Outubro | 17 h | Centro Mário Cláudio | Venade | Paredes de Coura | aqui
A Criança Eterna | antologia de contos
prefácio de Mário Cláudio
Nas Margens do Rio Gilão - Yvette Centeno | O Tempo e a Eternidade - Nuno de Figueiredo | O Búzio do meu Pai - Carla Pais | Infância: Estado Sólido do Tempo - Diogo Leite Castro |
Subir o Tempo à Procura da Infância - Maria Almira Soares | Uma Maçã por Dia - Inês Barata Raposo | Os Tamancos dos Outros - Francisco Resende | O Espelho - Márcia Balsas | Limbo - José Manuel Teixeira da Silva | Última cena. Primeiro Ato. - Conceição Pimenta | Neve Artificial - André Domingues
Centro Mário Cláudio
terça-feira, 17 de outubro de 2017
processos sumários
Há-de haver um poema sobre desatenções
À falta de outra palavra
jmts
JOÃO CABRAL
NO CONSULADO DO PORTO
Há-de haver um poema sobre desatenções
e diversas faltas
de amor, mas acreditem
sou alheio a
esse facto
À falta de outra palavra
direi que
nem sequer estou triste
porque
apenas vejo o que vejo
Ergue-se, é
certo, uma muralha e o nevoeiro
coroando as
torres de imaginação
e poderia ao menos registar a poeira ferrujenta
e
endurecida, súbitos vapores do lirismo
Desta vez de
nada tomei posse
estão
impecáveis os cadernos, as réguas
e os
carimbos, cuido só das cortinas, dedicada
cegueira à luz que se perde no granito
cegueira à luz que se perde no granito
Em pura
verdade, volto o olhar
às extensões
da Andaluzia, assaltam-me
recados
urgentes do Recife, e nem esqueço
a minha
ausência, dia após dia
a iluminar
uma casa do Rio de Janeiro
Tudo expliquei
com o justo exemplo
da faca, dispenso
os dois gumes
as armas
brancas em demasia
Quase nunca abro
a porta que fizeram
os artesãos
desta cidade, muito agradeço
tão boa
madeira, deixa-me à distância de
soluços,
catarros, gritaria solta do lugar
quando, de hora a hora, ofereço
o que tenho de melhor, um tal silêncio
e olhos que calhou estarem fechados
o que tenho de melhor, um tal silêncio
e olhos que calhou estarem fechados
jmts
Construção Ponte Luiz I | Emílio Biel | 1885
quinta-feira, 24 de agosto de 2017
sublinhados & notas
depoimento na revista Time Out Porto (Agosto 2017)
COMO EU ESCREVO
Antes
de mais, seguir o conselho de um grego antigo: falar e escrever, mas só se for
mais intenso do que o respectivo silêncio. Ainda assim, arriscar, porque o
céptico Bartleby não existiria sem o diligente Melville. Partimos, como se vê,
do que os outros fizeram e acrescentamos gestos muito nossos. Aceito a energia
de gatafunhos e manchas de tinta, pode ser num café barulhento ou em rascunhos
mentais pelo caminho, em discreta homenagem aos peripatéticos. Seguem-se
tentativas de depuração, em que o computador ajuda muito, se possível no
silêncio, num lugar simplificado, sem esquecer a prova dos nove da leitura em
voz alta. Os textos merecem depois algum repouso, entre os trabalhos e os dias.
Como na arte das compotas, só então se avalia o sabor inteiro, se algum
persistiu. A insinuação do que escrevo surge-me de um fundo de vivências
indistinto e forte, que procuro esclarecer em meia dúzia de fórmulas
abstractas. Mas o projecto é alcançar uma espécie de música de sílabas e
ideias, de lugares, tempos e pessoas. Podemos verificar se tudo correu bem: as
palavras aumentaram a vida?; a vida aumenta as palavras? Isto tudo sou eu a
dizer, mas temos acesso a muito pouco. “Como eu escrevo” é só mais uma ficção, um
pouco inconsciente de si própria. Em todas elas e nos poemas sigo o antigo
acordo ortográfico. O outro só em relatórios, e não é disso que se trata aqui.
jmts
terça-feira, 22 de agosto de 2017
sublinhados & notas
O Jogo das Comparações | Inês Lourenço | col. azulcobalto 042 | Companhia das Ilhas | Lajes do Pico, 2016
DO FLÂNEUR AO INVENTOR DE JOGOS
Apresentar
um livro de poesia como este (Inês Lourenço, O Jogo das Comparações, Companhia das Ilhas, 2016) deveria ser uma experiência tão vital
como a própria poesia. Poderemos, nessa medida, começar a aproximação ao novo
título da autora (que surge já após a recente antologia que abrange os 35 anos
da sua escrita, intitulada O Segundo
Olhar, na mesma editora, em 2015), a partir de um exemplo significativo
disso mesmo:
IRMÃOS KARAMAZOV
Perguntava
à menina da livraria
por
estes irmãos, cujo nome
ela
dedilhou no teclado
com
óbvias letras erradas.
-
É recente? – indagou
com
uma prestável candura.
O
eventual comprador parecia
não
saber ao certo. Uma espécie
de
desânimo atravessa-me os sentidos
na
memória nostálgica
dos
meus verãos adolescentes, falésias
de
tardes febris com a pele
das
páginas onde Aliocha e Ivan
ou
Sónia e Raskolnikoff
iluminavam
a culpa e o temor
que
fatalmente já me pertenciam.
(p.52)
O
poema traz-nos alguns dos temas que têm sido privilegiados pela autora e o seu
tom inconfundível: impõe-se o elogio da leitura e dos livros enquanto lugares
vitais, uma concepção não essencialista, idílica ou decorativa da escrita, um
pendor narrativo, a ligação com o quotidiano e a memória. E também esse modo
crítico e implacável perante alienações, ignorâncias e pretensiosismos humanos.
Mas é um poema que funciona como contra-exemplo relativamente ao local que o
livro escolhe para se apresentar, porque talvez não haja acasos: uma livraria
do Porto que se chama, significativamente, Flâneur.
Flâneur é um dos pobres heróis modernos desapossados de
epopeia, como nos dizem Poe, Baudelaire ou Walter Benjamin. Se, para o
primeiro, é um sujeito suspeito que assume o espírito do crime, já para
Baudelaire e Benjamin surge imerso na grande cidade, caminhando-a
infatigavelmente, mas observando-a nessa distância crítica que o torna, feitas
as contas, imune aos seus valores mercantis, bem ao contrário, por exemplo, do dandy, que se assume, nesse mesmo
contexto, como uma mercadoria exótica e sofisticada (veja-se a propósito o
interessante artigo “Duelo Poético na Cidade: as Peripécias do Herói Moderno”,
de Ricardo Daunt, in Colóquio / Letras,
nºs. 125/126, 1992). O sujeito da poesia de Inês Lourenço assume muitas vezes
(e de novo nesta recolha) o ponto de vista do flâneur, até porque se trata, decididamente, de uma escrita urbana-
relembre-se um título que reúne alguns dos seus livros: Um Quarto com Cidades ao Fundo. Mas adopta também a atitude de uma
outra destas figuras da modernidade, o trapeiro,
que se confunde com o poeta: recolher restos de sensações e de rimas como o
trapeiro os despojos da cidade. É assim que a poesia de Inês Lourenço valoriza
aparentes refugos da vida e do quotidiano, reabilitando-os, como se se tratasse
de uma nova alquimia. Esses seres e lugares preenchem O Jogo das Comparações, seja uma galinha, uma teia de aranha ou
outros seres em “desabrigo”, desta vez humanos, para invocar um título do
livro. O flâneur e o trapeiro preferem “as pequenas pátrias”
(conforme a sequência final), fazem questão de manter as suas distâncias
relativamente a instituições, poderes e artefactos mais ou menos sublimes.
O Jogo das Comparações é um excelente exemplo da poética de Inês Lourenço e
chega-nos às mãos depois de viver a sua própria história: “habent sua fata libelli”, como se constata desde tempos remotos. Esteve para
ser publicado com a chancela da “& etc.” (como alguns dos títulos imediatamente
anteriores da autora), mas, já em fase final de produção, tal acabou por não
acontecer, pela circunstância do desaparecimento do editor, Vítor Silva
Tavares, e a extinção da sua, aliás insubstituível, actividade “subterrânea”. É agora muito bem acolhido pela Companhia
das Ilhas (e envolvido, na contra-capa, por uma fotografia de Susana
Paiva). Vejo-o como um exercício de apuro
e estilização de muitos dos motivos desde sempre presentes nesta poesia, numa
espécie de música de câmara, após alguns livros a que poderíamos associar uma
certa ressonância sinfónica. Caracteriza-o um expressivo efeito musical de
surdina, no mesmo gesto em que retoma muitos dos veios temáticos da escrita da
autora, desta vez organizados em três sequências, que estabelecem uma espécie
de tríptico.
A
segunda, “Teia”, está muito próxima dos seus bestiários, da atenção aos seres
frágeis e plenos, afirmando uma insinuante nostalgia relativamente à
competência vital dos bichos: “abandono” e “soberbas coisas ínfimas”, para
retomar a epígrafe de Manoel de Barros. Mas trata-se de unir esses motivos
essenciais ao percurso biográfico e a “cenas primitivas” que se inscrevem na
construção de uma identidade pessoal, como em “A Galinha” e “Teia”, ou,
lembrando “Gatos e Camélias” e “Animal Verde”, balizam pequenas descobertas e
sensibilidades do quotidiano do sujeito poético. Encontramos ainda uma subtil
parábola política sobre a inteireza e integridade das existências (“No Tempo em
Que os Gatos eram Inteiros”), bem como a mordacidade que caracteriza
frequentemente uma escrita que vem prolongar a longuíssima tradição satírica da
poesia portuguesa. Por sua vez, “Galgos”, “Equus”, “Taurus” ou “Serpens”
transplantam o concreto biológico da vida mais vital, o mais chão fluir dos
dias, para uma inteligibilidade mítica ou estética.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






