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Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








domingo, 27 de fevereiro de 2011

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia






Fotografia como cicatriz e palimpsesto

Diz-nos a japonesa Miyako Ishiuchi, a propósito das suas fotografias de cicatrizes (ver aqui e aqui):

I cannot stop [taking photographs of scars] because they are so much like a photograph. They are visible events, recorded in the past. Both the scars and the photographs are the manifestation of sorrow for the many things which cannot be retrieved and for love of life as a remembered present.


E Gérard Castello-Lopes nas Reflexões Sobre Fotografia (Assírio & Alvim, 2004, pp. 67,68) :

Estou persuadido de que, ao longo da nossa vida, e particularmente durante a infância, vamos retendo, memorizando formas, gostos, cheiros, sabores, que armazenamos algures numa memória de que só temos vaga consciência. E assim se gera em nós uma espécie de palimpsesto, uma escrita secreta, meio obliterada pela percepção racionalizável e superficial da realidade que nos cerca.
Mas aqueles arquétipos sobem à tona do consciente de vez em quando, sobretudo quando tentamos exprimir algo profundo e importante. Nas artes plásticas, de que a fotografia é parente menor, poder-se-ia definir esse surdir arquetípico como o alicerce do que comummente chamamos estilo, aquilo que nos leva a distinguir uma fotografia de Cartier-Bresson doutra de Alvarez Bravo. É o signo escondido, o vinco pessoal, a secreta assinatura do autor.

Em ambos os casos se revela a conhecida vocação da fotografia para lidar com o passado, ou melhor dizendo, com o presente em devir sempre iminente de passado. Recordemos o projecto de Atget, que percorre o Velho Paris exactamente um segundo antes do camartelo da modernidade.
Mas os dois fotógrafos fazem-no de modo paradigmaticamente diferente.
Em Miyako a cicatriz é a presença delicada e dolorosa de uma ausência e a fotografia vem suturar as feridas da vida. No vendaval do tempo, as imagens são o que resta de um traumatismo, uma espécie de inventário cruel e sensível dos despojos que uma existência largou, pequenas colecções que ecoam a violência do passado na beleza da sua quase extinção.
Em Gérard a fotografia é a madeleine proustiana, torna a encenar a inefável cena primitiva e pessoal. O tempo deixa-se ver na transparência eterna de si mesmo, jogo, ilusão e iluminação, como se fosse todos os dias descoberto na sua antiga novidade. É assim nessa fotografia (Algarve, 1957) em que uma mulher nos sorri pela primeira vez desde o mais dentro das eras.


(passagens: este texto é também uma homenagem a Gérard Castello-Lopes :1925-2011).



J.M.T.S.




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