poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 22 de agosto de 2017

sublinhados & notas



O Jogo das Comparações  | Inês Lourenço | col. azulcobalto 042 | Companhia das Ilhas | Lajes do Pico, 2016




DO FLÂNEUR AO INVENTOR DE JOGOS


Apresentar um livro de poesia como este (Inês Lourenço, O Jogo das Comparações, Companhia das Ilhas, 2016) deveria ser uma experiência tão vital como a própria poesia. Poderemos, nessa medida, começar a aproximação ao novo título da autora (que surge já após a recente antologia que abrange os 35 anos da sua escrita, intitulada O Segundo Olhar, na mesma editora, em 2015), a partir de um exemplo significativo disso mesmo:




IRMÃOS KARAMAZOV

Perguntava à menina da livraria
por estes irmãos, cujo nome
ela dedilhou no teclado
com óbvias letras erradas.
- É recente? – indagou
com uma prestável candura.
O eventual comprador parecia
não saber ao certo. Uma espécie
de desânimo atravessa-me os sentidos
na memória nostálgica
dos meus verãos adolescentes, falésias
de tardes febris com a pele
das páginas onde Aliocha e Ivan
ou Sónia e Raskolnikoff
iluminavam a culpa e o temor
que fatalmente já me pertenciam.

(p.52)


O poema traz-nos alguns dos temas que têm sido privilegiados pela autora e o seu tom inconfundível: impõe-se o elogio da leitura e dos livros enquanto lugares vitais, uma concepção não essencialista, idílica ou decorativa da escrita, um pendor narrativo, a ligação com o quotidiano e a memória. E também esse modo crítico e implacável perante alienações, ignorâncias e pretensiosismos humanos. Mas é um poema que funciona como contra-exemplo relativamente ao local que o livro escolhe para se apresentar, porque talvez não haja acasos: uma livraria do Porto que se chama, significativamente, Flâneur.


Flâneur é um dos pobres heróis modernos desapossados de epopeia, como nos dizem Poe, Baudelaire ou Walter Benjamin. Se, para o primeiro, é um sujeito suspeito que assume o espírito do crime, já para Baudelaire e Benjamin surge imerso na grande cidade, caminhando-a infatigavelmente, mas observando-a nessa distância crítica que o torna, feitas as contas, imune aos seus valores mercantis, bem ao contrário, por exemplo, do dandy, que se assume, nesse mesmo contexto, como uma mercadoria exótica e sofisticada (veja-se a propósito o interessante artigo “Duelo Poético na Cidade: as Peripécias do Herói Moderno”, de Ricardo Daunt, in Colóquio / Letras, nºs. 125/126, 1992). O sujeito da poesia de Inês Lourenço assume muitas vezes (e de novo nesta recolha) o ponto de vista do flâneur, até porque se trata, decididamente, de uma escrita urbana- relembre-se um título que reúne alguns dos seus livros: Um Quarto com Cidades ao Fundo. Mas adopta também a atitude de uma outra destas figuras da modernidade, o trapeiro, que se confunde com o poeta: recolher restos de sensações e de rimas como o trapeiro os despojos da cidade. É assim que a poesia de Inês Lourenço valoriza aparentes refugos da vida e do quotidiano, reabilitando-os, como se se tratasse de uma nova alquimia. Esses seres e lugares preenchem O Jogo das Comparações, seja uma galinha, uma teia de aranha ou outros seres em “desabrigo”, desta vez humanos, para invocar um título do livro. O flâneur e o trapeiro preferem “as pequenas pátrias” (conforme a sequência final), fazem questão de manter as suas distâncias relativamente a instituições, poderes e artefactos mais ou menos sublimes. 



O Jogo das Comparações é um excelente exemplo da poética de Inês Lourenço e chega-nos às mãos depois de viver a sua própria história: “habent sua fata libelli”, como se constata desde tempos remotos. Esteve para ser publicado com a chancela da “& etc.” (como alguns dos títulos imediatamente anteriores da autora), mas, já em fase final de produção, tal acabou por não acontecer, pela circunstância do desaparecimento do editor, Vítor Silva Tavares, e a extinção da sua, aliás insubstituível, actividade “subterrânea”. É agora muito bem acolhido pela Companhia das Ilhas (e envolvido, na contra-capa, por uma fotografia de Susana Paiva). Vejo-o como um exercício de apuro e estilização de muitos dos motivos desde sempre presentes nesta poesia, numa espécie de música de câmara, após alguns livros a que poderíamos associar uma certa ressonância sinfónica. Caracteriza-o um expressivo efeito musical de surdina, no mesmo gesto em que retoma muitos dos veios temáticos da escrita da autora, desta vez organizados em três sequências, que estabelecem uma espécie de tríptico.


A segunda, “Teia”, está muito próxima dos seus bestiários, da atenção aos seres frágeis e plenos, afirmando uma insinuante nostalgia relativamente à competência vital dos bichos: “abandono” e “soberbas coisas ínfimas”, para retomar a epígrafe de Manoel de Barros. Mas trata-se de unir esses motivos essenciais ao percurso biográfico e a “cenas primitivas” que se inscrevem na construção de uma identidade pessoal, como em “A Galinha” e “Teia”, ou, lembrando “Gatos e Camélias” e “Animal Verde”, balizam pequenas descobertas e sensibilidades do quotidiano do sujeito poético. Encontramos ainda uma subtil parábola política sobre a inteireza e integridade das existências (“No Tempo em Que os Gatos eram Inteiros”), bem como a mordacidade que caracteriza frequentemente uma escrita que vem prolongar a longuíssima tradição satírica da poesia portuguesa. Por sua vez, “Galgos”, “Equus”, “Taurus” ou “Serpens” transplantam o concreto biológico da vida mais vital, o mais chão fluir dos dias, para uma inteligibilidade mítica ou estética.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

# Em Agenda #



No númer0 7 da revista Três três, há um poema meu, "Niagara", em que se fala, nomeadamente, de uma fotografia de Marilyn, e muitíssimo mais para ler, ver e pensar. O tema deste número, que pode ser folheado na sua versão digital ou em papel, é "Sintoma".



Colaboradores | Bruno Afonso | Fausto Vicente | Felipe Pathé Duarte | Gonçalo Fonseca | Isabel Xavier | José Ricardo Nunes | Nuno Fragata | Pedro Xavier Mendonça | Ricardo Norte  | Rita Baptista

Convidados | António Tavares | As Bap | Dalila Garcia | Daniel Ferreira | Headitor | Hugo Pinto Santos | Irene Loureiro | Joana Tavares | Joana Zózimo | João B. Serra | Jorge Muchagato | José Manuel Teixeira da Silva | Júlio Mendes Rodrigo | Lichun Tseng | Michele C. Rocha | Patrícia Chaves | Paulo Constâncio | Paulo José Miranda | Raquel Serejo Martins | Sandra Roda | Tatiana Faia | Tiago Fontes | Xavier Rafael














quarta-feira, 10 de maio de 2017

das palavras dos outros




robin robertson / in Lacre, Língua Morta, 2017
 tradução de Vasco Gato


OUROPEL

Sintoniza a frequência do bosque e ouvirás
o veado a respirar; um músculo a retesar-se; o suspiro
de uma arganaz debaixo de uma coruja. Agora

escuta-te a ti mesmo - essa fricção - o investir e o arrastar,
a dupla pulsação, o tambor. Consegues ouvi-lo, nitidamente.
Consegues ouvir o som do teu corpo, a ir-se abaixo.

Se estiveres muito calado, talvez apanhes a derrota: ou antes
o magro ruído que a derrota produz - a perdição.
Se estiveres completamente calado.

E porém não consegues ouvir nada
senão o som do nada: essa voz
e o seu malbaratar-se, o ouropel da alma. Escuta... Escuta...




HIPOTERMIA

A chuva, disseste, é o silêncio com o volume levantado.
Está a chover há dias.
Mesmo quando pára
subsiste ainda o som
da água da chuva, tentando
encontrar a custo uma maneira de penetrar no solo.

Estamos deitados num abraço soturno:
duas metades a tentarem completar-se, empenhadas
nesta interrupção da estática,
do ruído branco
que foi a chuva a cair
o dia inteiro e toda a noite recoberta.

O silêncio é a chuva com o som baixinho,
e espio agora sem entraves
algo que ficou lá fora no estendal:
uma vida, para ali emaranhada -
ensopada, encolhida,
irreconhecivelmente minha.




INTERFERÊNCIAS

A tempestade desfralda os seus lençóis
contra a janela que escurece:
o vidro encolhe-se sob o granizo lançado.
Transtornado, o televisor perde o tino,
transmuda-se em preto e branco
e cala-se ao mesmo tempo que as linhas telefónicas.
Os postais dela estremecem na prateleira, tombam;
as luzes de Calais vão fritando uma por uma.

Ele não tem como lhe dizer
que os gansos regressam a nado ao crepúsculo,
que o farol passeia o seu feixe
sobre as trincheiras do mar.
Não tem como lhe dizer que a noite vasta
balouça como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela a chave.





Israel Ariño
(da série fotográfica "La Gravetat del LLoc")




imagens vistas aqui



terça-feira, 4 de abril de 2017

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

 outras teorias portáteis sobre poesia aqui


VESÚVIO

Viagem em Itália de Rossellini (1954). Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander (George Sanders) são o casal Joyce, ingleses de visita a Itália (uma vez mais, como em Um Quarto com Vista de Forster). Dão-nos uma conversa edificante sobre poesia ou talvez, lá no fundo,  sobre outras matérias: a natureza do gelo, o ciúme, a saudade, a paixão, ou todas essas coisas (e as outras) ao mesmo tempo, como é próprio, aliás, da poesia. Ela existe porque os diálogos avançam precisamente assim, entre surdos que insistem em ouvir-se.










Mas há um terceiro ponto de vista, o do promotor que lhes mostrou a casa: 

«Quero que vejam a varanda. Aquele é o Vesúvio. Desde a erupção de 1944 que está inactivo. Mas a temperatura começa a subir. Atrás daquela primeira montanha fica Pompeia.»

Não o sabe, mas é ele quem melhor nos apresenta a poesia: vistas para a quietude, iminentes erupções. Fóssil e fogo.








sexta-feira, 3 de março de 2017

das palavras dos outros






daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
 tradução de Júlio Henriques


CADERNO AZUL Nº. 10


     Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
     Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
     Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
    Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
     Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito. 






Susan Howe, That This



 

   imagem vista aqui
flop aqui 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





O mundo suspenso numa ponte


Roland Barthes, em A Câmara Clara (Edições 70, 1981):

É pelo studium que me interesso por muitas fotografias, quer as receba como testemunhos políticos quer as aprecie como breves quadros históricos, porque é culturalmente (...) que eu participo nas figuras, nas expressões, nos gestos, nos cenários, nas acções.  (p.46)

(...) o punctum: quer esteja cercado ou não, é um suplemento; é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já lá está. (p.82)
O punctum é (...) uma espécie de fora-do-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver (...). (pp. 85-86)

                                                                    -------------

Uma coisa é reconhecer, mais uma vez, a pertinência e imaginação teórica de um livro sobre fotografia, como é o caso deste, o seu jogo sedutor entre saber e desejo. Outra é perceber que é exactamente assim como ele diz, que se nos ajusta como perfeita luva. Por exemplo, numa fotografia de Bruno Barbey sinto essa ferida a que Barthes chama punctum, algo que encandeia, um campo cego: Porto, 1964.




Ponte Luiz I, Porto, 1964 . Bruno Barbey


O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois  nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.

jmts 



imagem vista aqui
outras parábolas ópticas aqui


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

sublinhados & notas



depoimento no dossier Eros e Literatura (revista digital Caliban: aqui)
- organização de Maria da Conceição Caleiro

eleger um autor e um livro 
ou uma passagem de um autor 
de língua portuguesa sentidos
como particularmente perturbantes







EROS e LITERATURA

Escolho o célebre conto “Missa do Galo” de Machado de Assis. Trata-se, na aparência, de uma simples conversa entre uma personagem feminina, Conceição, uma “balzaquiana”, e o narrador, um jovem de dezassete anos. Abordam-se temas anódinos e até com um pretexto da área do sagrado (a referida missa), mas é, na verdade, um texto onde perpassa uma insinuante tensão erótica. Nele aprendemos que o fundamental do erotismo talvez seja, afinal, conversa, minuciosos preliminares do impossível: o entredito, o interdito, o inaudito, o subentendido, numa coreografia de palavras e gestos marcada por aproximações e afastamentos, alguns avanços, muitos recuos. Apuradas as contas, o exercício de sedução tem como alvo o leitor, sendo a literatura o seu principal agente- só porque ela assim tão profundamente tem a ver com os humanos e a dança com que eles se repelem e logo atraem.

Também pensei no Amor de Perdição de Camilo, na relação Simão / Mariana, por contraste com o par Simão / Teresa. É o conhecido “triângulo amoroso”, mas a figura de Mariana impõe-se por si mesma. O romance vive de uma espécie de tensão entre o corpo da paixão e, com Mariana, a paixão como corpo. A perdição é também a desse encontro/ desencontro, Simão e Mariana enfim unidos na turbulência fatal das águas, tudo finalmente à deriva. Retenho ainda um diálogo entre Mariana e Simão, na sequência final do capítulo VIII, feito simultaneamente de inocência e ousadia, pudor e oferecimento.

Estive quase a escolher Os Maias de Eça de Queiroz. Poderíamos falar da perturbação erótica que perpassa no romance, reflectindo a partir de duas descrições paradigmáticas- do incesto inconsciente (capítulo XIV) e do incesto consciente (capítulo XVII), como se se tratasse de duas faces do erotismo (espiritualidade vs. carnalidade).
    
Lembrei-me de Aparição de Vergílio Ferreira e da relação Alberto / Sofia. Há nela uma dimensão erótica que não encontra lugar na tentativa, por parte do protagonista, de compreensão do “eu” e do “mundo”, na sua busca de um difícil apaziguamento. O erotismo é aí um sítio de absoluto desespero e desamparo.

Devo ainda confessar que pensei no Delfim de Cardoso Pires e na sua Maria das Mercês, na Judite de Nome de Guerra de Almada e em algumas passagens de Confissões de Narciso do brasileiro Autran Dourado.

jmts 

 

 Masao Yamamoto 
visto aqui