poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quarta-feira, 28 de junho de 2017

# Em Agenda #



No númer0 7 da revista Três três, há um poema meu, "Niagara", em que se fala, nomeadamente, de uma fotografia de Marilyn, e muitíssimo mais para ler, ver e pensar. O tema deste número, que pode ser folheado na sua versão digital ou em papel, é "Sintoma".



Colaboradores | Bruno Afonso | Fausto Vicente | Felipe Pathé Duarte | Gonçalo Fonseca | Isabel Xavier | José Ricardo Nunes | Nuno Fragata | Pedro Xavier Mendonça | Ricardo Norte  | Rita Baptista

Convidados | António Tavares | As Bap | Dalila Garcia | Daniel Ferreira | Headitor | Hugo Pinto Santos | Irene Loureiro | Joana Tavares | Joana Zózimo | João B. Serra | Jorge Muchagato | José Manuel Teixeira da Silva | Júlio Mendes Rodrigo | Lichun Tseng | Michele C. Rocha | Patrícia Chaves | Paulo Constâncio | Paulo José Miranda | Raquel Serejo Martins | Sandra Roda | Tatiana Faia | Tiago Fontes | Xavier Rafael














quarta-feira, 10 de maio de 2017

das palavras dos outros




robin robertson / in Lacre, Língua Morta, 2017
 tradução de Vasco Gato


OUROPEL

Sintoniza a frequência do bosque e ouvirás
o veado a respirar; um músculo a retesar-se; o suspiro
de uma arganaz debaixo de uma coruja. Agora

escuta-te a ti mesmo - essa fricção - o investir e o arrastar,
a dupla pulsação, o tambor. Consegues ouvi-lo, nitidamente.
Consegues ouvir o som do teu corpo, a ir-se abaixo.

Se estiveres muito calado, talvez apanhes a derrota: ou antes
o magro ruído que a derrota produz - a perdição.
Se estiveres completamente calado.

E porém não consegues ouvir nada
senão o som do nada: essa voz
e o seu malbaratar-se, o ouropel da alma. Escuta... Escuta...




HIPOTERMIA

A chuva, disseste, é o silêncio com o volume levantado.
Está a chover há dias.
Mesmo quando pára
subsiste ainda o som
da água da chuva, tentando
encontrar a custo uma maneira de penetrar no solo.

Estamos deitados num abraço soturno:
duas metades a tentarem completar-se, empenhadas
nesta interrupção da estática,
do ruído branco
que foi a chuva a cair
o dia inteiro e toda a noite recoberta.

O silêncio é a chuva com o som baixinho,
e espio agora sem entraves
algo que ficou lá fora no estendal:
uma vida, para ali emaranhada -
ensopada, encolhida,
irreconhecivelmente minha.




INTERFERÊNCIAS

A tempestade desfralda os seus lençóis
contra a janela que escurece:
o vidro encolhe-se sob o granizo lançado.
Transtornado, o televisor perde o tino,
transmuda-se em preto e branco
e cala-se ao mesmo tempo que as linhas telefónicas.
Os postais dela estremecem na prateleira, tombam;
as luzes de Calais vão fritando uma por uma.

Ele não tem como lhe dizer
que os gansos regressam a nado ao crepúsculo,
que o farol passeia o seu feixe
sobre as trincheiras do mar.
Não tem como lhe dizer que a noite vasta
balouça como uma porta sem ela,
que ele é a fechadura
e ela a chave.





Israel Ariño
(da série fotográfica "La Gravetat del LLoc")




imagens vistas aqui



terça-feira, 4 de abril de 2017

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

 outras teorias portáteis sobre poesia aqui


VESÚVIO

Viagem em Itália de Rossellini (1954). Katherine (Ingrid Bergman) e Alexander (George Sanders) são o casal Joyce, ingleses de visita a Itália (uma vez mais, como em Um Quarto com Vista de Forster). Dão-nos uma conversa edificante sobre poesia ou talvez, lá no fundo,  sobre outras matérias: a natureza do gelo, o ciúme, a saudade, a paixão, ou todas essas coisas (e as outras) ao mesmo tempo, como é próprio, aliás, da poesia. Ela existe porque os diálogos avançam precisamente assim, entre surdos que insistem em ouvir-se.










Mas há um terceiro ponto de vista, o do promotor que lhes mostrou a casa: 

«Quero que vejam a varanda. Aquele é o Vesúvio. Desde a erupção de 1944 que está inactivo. Mas a temperatura começa a subir. Atrás daquela primeira montanha fica Pompeia.»

Não o sabe, mas é ele quem melhor nos apresenta a poesia: vistas para a quietude, iminentes erupções. Fóssil e fogo.








sexta-feira, 3 de março de 2017

das palavras dos outros






daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
 tradução de Júlio Henriques


CADERNO AZUL Nº. 10


     Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
     Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
     Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
    Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
     Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito. 






Susan Howe, That This



 

   imagem vista aqui
flop aqui 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





O mundo suspenso numa ponte


Roland Barthes, em A Câmara Clara (Edições 70, 1981):

É pelo studium que me interesso por muitas fotografias, quer as receba como testemunhos políticos quer as aprecie como breves quadros históricos, porque é culturalmente (...) que eu participo nas figuras, nas expressões, nos gestos, nos cenários, nas acções.  (p.46)

(...) o punctum: quer esteja cercado ou não, é um suplemento; é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já lá está. (p.82)
O punctum é (...) uma espécie de fora-do-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver (...). (pp. 85-86)

                                                                    -------------

Uma coisa é reconhecer, mais uma vez, a pertinência e imaginação teórica de um livro sobre fotografia, como é o caso deste, o seu jogo sedutor entre saber e desejo. Outra é perceber que é exactamente assim como ele diz, que se nos ajusta como perfeita luva. Por exemplo, numa fotografia de Bruno Barbey sinto essa ferida a que Barthes chama punctum, algo que encandeia, um campo cego: Porto, 1964.




Ponte Luiz I, Porto, 1964 . Bruno Barbey


O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois  nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.

jmts 



imagem vista aqui
outras parábolas ópticas aqui


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

sublinhados & notas



depoimento no dossier Eros e Literatura (revista digital Caliban: aqui)
- organização de Maria da Conceição Caleiro

eleger um autor e um livro 
ou uma passagem de um autor 
de língua portuguesa sentidos
como particularmente perturbantes







EROS e LITERATURA

Escolho o célebre conto “Missa do Galo” de Machado de Assis. Trata-se, na aparência, de uma simples conversa entre uma personagem feminina, Conceição, uma “balzaquiana”, e o narrador, um jovem de dezassete anos. Abordam-se temas anódinos e até com um pretexto da área do sagrado (a referida missa), mas é, na verdade, um texto onde perpassa uma insinuante tensão erótica. Nele aprendemos que o fundamental do erotismo talvez seja, afinal, conversa, minuciosos preliminares do impossível: o entredito, o interdito, o inaudito, o subentendido, numa coreografia de palavras e gestos marcada por aproximações e afastamentos, alguns avanços, muitos recuos. Apuradas as contas, o exercício de sedução tem como alvo o leitor, sendo a literatura o seu principal agente- só porque ela assim tão profundamente tem a ver com os humanos e a dança com que eles se repelem e logo atraem.

Também pensei no Amor de Perdição de Camilo, na relação Simão / Mariana, por contraste com o par Simão / Teresa. É o conhecido “triângulo amoroso”, mas a figura de Mariana impõe-se por si mesma. O romance vive de uma espécie de tensão entre o corpo da paixão e, com Mariana, a paixão como corpo. A perdição é também a desse encontro/ desencontro, Simão e Mariana enfim unidos na turbulência fatal das águas, tudo finalmente à deriva. Retenho ainda um diálogo entre Mariana e Simão, na sequência final do capítulo VIII, feito simultaneamente de inocência e ousadia, pudor e oferecimento.

Estive quase a escolher Os Maias de Eça de Queiroz. Poderíamos falar da perturbação erótica que perpassa no romance, reflectindo a partir de duas descrições paradigmáticas- do incesto inconsciente (capítulo XIV) e do incesto consciente (capítulo XVII), como se se tratasse de duas faces do erotismo (espiritualidade vs. carnalidade).
    
Lembrei-me de Aparição de Vergílio Ferreira e da relação Alberto / Sofia. Há nela uma dimensão erótica que não encontra lugar na tentativa, por parte do protagonista, de compreensão do “eu” e do “mundo”, na sua busca de um difícil apaziguamento. O erotismo é aí um sítio de absoluto desespero e desamparo.

Devo ainda confessar que pensei no Delfim de Cardoso Pires e na sua Maria das Mercês, na Judite de Nome de Guerra de Almada e em algumas passagens de Confissões de Narciso do brasileiro Autran Dourado.

jmts 

 

 Masao Yamamoto 
visto aqui