poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 7 de julho de 2020

# Em Agenda #







Ana Dubac (trad. Sérgio Ninguém) | Eduardo Bettencourt Pinto | Eduardo Quina
 Kathy Xiong (trad. Sérgio Ninguém) | Maria Fernandes
Mila Vidal Paletti | Sérgio Nazar David
Sinéad Morrissey (trad. José Manuel Teixeira da Silva) 
Yvette K. Centeno (Poetas & Poetas) | Perejaume (trad. Yvette K. Centeno)
 Rui Tinoco (Khroniká)


encomendas | informações
Eufeme 16



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8 poemas de Sinéad Morrissey
- tradução de JMTS

 
  © Carcanet






quinta-feira, 11 de junho de 2020

quinta-feira, 4 de junho de 2020

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros
 


Casa e Jardim de SERRALVES, PORTO / Maria Velho da Costa


A estação está no seu brumoso começo.O ar tem gotículas de água da noite que se acumulam em bagas irisadas no musgo e na relva. Miss Laura pára ao embate incandescente da multiplicidade de sons, odores, manchas de cor. Vai visitar os seres e sons que brotam cada manhã nos jardins e orlas do bosque, aves e girinos,as lâminas verdes dos narcisos, das túlipas, dos lírios e peónias que despontam dos bolbos por debaixo das japoneiras, com os pés cobertos de pétalas branco e rosa. As roseiras sangram hastes novas para o lado do ar e brotam folhas cor de água nas árvores caducas. Não faz vento e uma humidade fresca arrepia a pele ainda morna de Miss Laura que corre pelas áleas de gravilha com o seu grande chapéu de abas mortas na mão, as fitas a esvoaçar. Sob a abóbada dos altos olmos trançados pára e olha a casa que brilha lá no alto como um claro navio suspenso na linha de mar. O mundo desmorona-se para lá dela, lá fora na cidade fermentam detritos, óleos, corpos, o rio opaco galga armazéns e escadas lúgubres, ruge na foz e encapela-se na base das pontes, mas para cá da casa, da muralha amena e rósea que a casa faz, com as suas altas janelas incendiadas a prata, o mundo pára,esvai-se na fantasia de Miss Laura. Semicerram-se os olhos e a casa é uma grande nave mestra que paira na unção da luz branca cortada pelo voo dos melros e das claras pombas. Uma gaivota grasna tresmalhada até ali e vem outra que deriva com ela até à maresia do bosque, para lá dos últimos socalcos dos grandes canteiros e lagos bordejados de feteiras que descem da casa. "É aqui o lugar de onde não sairei mais, nem morta", pensa Miss Laura no seu arrebatamento.








fotografias de arquivo. fundação de serralves







Maria Velho da Costa, "A Ponte de Serralves" in O Amante do Cravo, Edições Asa, 2002 





sexta-feira, 8 de maio de 2020

# Em Agenda #







ANIMA I

música - Miguel Pestana de Vasconcelos
 poema - José Manuel Teixeira da Silva

Duo Rubrum  |   Carolina Andrade e Romeu Curto

vídeo e áudio - João Nunes Silva



domingo, 26 de abril de 2020

das fotografias dos outros











visto aqui 






É uma série com imagens de grande intensidade. Instala-se num território de fronteira, numa terra de ninguém que desampara o espectador. Há uma escala monumental, poses para a eternidade, mas a partir do mais frágil, algures entre o instinto de defesa (a máscara sanitária) e a postura da marginalidade (a máscara do bandido). A identidade pessoal ferida, que se denuncia em estranhos apontamentos estilísticos, protege-se numa armadura social que se pretende inexpugnável. Actores numa espécie de filme com guião incerto e guarda-roupa inesperado, numa cidade que se entrevê como sequência de telões que alguém abandonou.





 

sábado, 11 de abril de 2020

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros
 


BERLIM / Tiago Novaes / Walter Ruttmann 


Sou um homem metódico e acolhi a maturidade com alegria.Cresci numa cidade em ruínas. Todos que cresceram em certa época por aqui foram testemunhas do renascimento de uma cidade. A reconstrução de Berlim. A chegada dos estrangeiros. Enxergamos o presente como uma coisa frágil, porque todas as crianças brincavam nas ruínas e nos baldios, todas já colheram os gerânios que brotavam das rachaduras e fizeram bangue-bangue entre os muros incompletos. Nos anos sessenta, o mundo estava todo voltado para Berlim. E nascíamos compreendendo como era uma parede por dentro, e que pode chover no interior de uma catedral. Os parques desta cidade não são planos porque foram construídos sobre monturos de ruínas, você sabia? A grama cresceu sobre os destroços que a administração amontoou em certas quadras da cidade. Nossa mãe nos levava para passear, e encontrávamos pedaços de papel na grama. Farpas de madeira nobre. Cacos de espelho ou bijuterias. E muitas pedras. Pedras de todos os tamanhos, pedaços de concreto, alguns que pareciam pó de marfim, gesso, um ou outro metal retorcido. - pp. 9-10- capítulo "Emin"

Os olhos de uma cega só enxergam o que não se mostra:o contrapeso da alegria, o blecaute ao meio-dia, os fusíveis queimados do teatro enquanto os atores ensaiam e fumam, confusos entre a leitura e a função. Sou cega mas tenho olhos. Sim, fiquei. Com treze anos. Na última noite em que vi, chovia. A chuva foi minha imagem mais íntima, queimada na retina. Saí de casa porque já não havia casa. Estou em Berlim há dois anos e nunca vi a torre da televisão comunista ou as barbas dos turcos em Kreuzberg. Tenho para mim um mapa das ruas, o meu desenho delas é o som que me fazem. Quando os faróis estão abertos em Glasgower  Strasse, a pista reta rasga como uma lâmina, acuando os homens. Já sei como soa um arranha-céus, mas a rua é de pequenos edifícios, como o do Fight Club. As mães cochicham em iídiche com os filhos. É outra coisa em Brusseler Strasse ou em Ostender Strasse, quando se escuta os passos e os pesos, as conversas pairam na calçada, as janelas abrem e fecham e se pode ouvir o regar das plantas nas sacadas. Esta é a minha cidade. O mapa não dá referências e assim fica fácil, porque aqui dá para morar numa casa que não existe. Aqui eu trago todas as casas desfeitas e fica cômodo. Perder tudo é uma regra. Nenhuma humilhação, nenhuma mesmo. - pp. 40-41- capítulo "Mercedes"

Tudo era novo e quando tudo é novo, ficamos naquela atenção flutuante da qual os psicanalistas tanto falam, uma disposição concentrada onde tudo nos chama e quase nada fica registrado. Descemos em Haselhorst e, no ponto de ônibus em Spandau, a Mio abraçou o corpo, alongou-se para o lado, distraída, e fez um comentário. Já era noite e ela disse "veja quantos coelhos". Voltei-me para a grama verde, imóvel, um tapete plácido. Já estava escuro. Você não vê?, ela repetiu. Eu não via nada. Deu dois segundos, ela saiu correndo pelo gramado, e foi quando aconteceu: passei a ver os coelhos, uma multidão deles, saltitando, afastando-se das pernas leves de Mio, mergulhando em buraquinhos no chão, alongando as patas divertidas em diagonal, como eu de fato imaginava que faziam os coelhos, porque de coelhos eu não sabia nada, jamais havia dedicado um pensamento muito sério, ou muito longo, ou testemunhara um coelho fugir de um predador.Na televisão, quem sabe, e quem sabe onde guardamos esssas memórias, esses registros mínimos. - pp. 138-139 - capítulo "Agave"








 walter ruttman
berlin, die symphonie der grosstadt, 1927



   

Tiago Novaes, Dionísio em Berlim, Editora Quelônio, São Paulo, 2019  
Walter Ruttmann, Berlin, die Symphonie der Grosstadt, 1927


quarta-feira, 8 de abril de 2020

processos sumários





na Gazeta de Poesia Inédita
 
"In The Mood For Love"
 


  Podes continuar a chamar-me Mrs. Chan / se apenas assim, ao escolher um vestido / de alto a baixo para ti me desnudo





a partir de

In The Mood For Love 
de Wong Kar-Wai, 2000



sábado, 21 de março de 2020

das fotografias dos outros




céu guarda
série the world is a hotel

aqui 




[ O mundo enquanto hotel: uma certa arte do confinamento e da imaginação, do luxo e da escassez.]

terça-feira, 17 de março de 2020

# Em Agenda #
 






Gazeta Literária, nº.6
 Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto


inclui entrevista a Inês Lourenço

por Paulo Moreira Lopes e José Manuel Teixeira da Siva
com fotografias de João Paulo Coutinho