poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








sexta-feira, 3 de março de 2017

das palavras dos outros






daniil kharms / in Três Horas Esquerdas, Flop, 2017
 tradução de Júlio Henriques


CADERNO AZUL Nº. 10


     Era uma vez um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas.
     Também não tinha cabelo, chamavam-lhe ruivo por mera convenção.
     Não falava porque não tinha boca. Também não tinha nariz.
    Nem sequer tinha braços ou pernas. Não tinha estômago, não tinha costas, não tinha coluna, e também não tinha vísceras. Não tinha mesmo nada! Por isso não podemos saber de quem estamos a falar.
     Diria mesmo que é melhor não acrescentarmos mais nada a seu respeito. 






Susan Howe, That This



 

   imagem vista aqui
flop aqui 

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





O mundo suspenso numa ponte


Roland Barthes, em A Câmara Clara (Edições 70, 1981):

É pelo studium que me interesso por muitas fotografias, quer as receba como testemunhos políticos quer as aprecie como breves quadros históricos, porque é culturalmente (...) que eu participo nas figuras, nas expressões, nos gestos, nos cenários, nas acções.  (p.46)

(...) o punctum: quer esteja cercado ou não, é um suplemento; é aquilo que eu acrescento à foto e que, no entanto, já lá está. (p.82)
O punctum é (...) uma espécie de fora-do-campo subtil, como se a imagem lançasse o desejo para além daquilo que dá a ver (...). (pp. 85-86)

                                                                    -------------

Uma coisa é reconhecer, mais uma vez, a pertinência e imaginação teórica de um livro sobre fotografia, como é o caso deste, o seu jogo sedutor entre saber e desejo. Outra é perceber que é exactamente assim como ele diz, que se nos ajusta como perfeita luva. Por exemplo, numa fotografia de Bruno Barbey sinto essa ferida a que Barthes chama punctum, algo que encandeia, um campo cego: Porto, 1964.




Ponte Luiz I, Porto, 1964 . Bruno Barbey


O que nos faz o encanto de certas fotografias? O que nos prende nelas, não nos deixa desviar os olhos, parar de olhar? O que depois  nos leva a fechá-los intensamente, prolongando-as muito, sonhando o resto?
Há, de facto, questões da estética, das regras fotográficas e da sua transgressão, incidências da Sociologia e da História. Sim, tempos difíceis, o "magala" e a "sopeira", uma tipologia a traço muito grosso que é o contrário do que sinto por esta imagem e os seres nela representados; há um país pobre e cinzento sem opção, alguma coisa de “novo cinema português"; há até uma extraordinária simbólica visual, a que aproxima o homem e a mulher nos seus cinzentos afins, unidos e perdidos na poeira etérea do mundo em volta, elevação e risco, levitação por sortilégio do amor, a mão que insiste em se prender às grades. Ainda assim, tratando-se de fotografia, pode haver outras intensidades. Punctum. Eu andava por ali, criança, naquelas ruas lá em baixo, o mundo estava suspenso numa ponte, tão leve, tão pesado, algo estava a começar naquele dia, e só sabemos que já não existe e hoje o reencontramos. Esse mundo suspenso numa ponte.

jmts 



imagem vista aqui
outras parábolas ópticas aqui


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

sublinhados & notas



depoimento no dossier Eros e Literatura (revista digital Caliban: aqui)
- organização de Maria da Conceição Caleiro

eleger um autor e um livro 
ou uma passagem de um autor 
de língua portuguesa sentidos
como particularmente perturbantes







EROS e LITERATURA

Escolho o célebre conto “Missa do Galo” de Machado de Assis. Trata-se, na aparência, de uma simples conversa entre uma personagem feminina, Conceição, uma “balzaquiana”, e o narrador, um jovem de dezassete anos. Abordam-se temas anódinos e até com um pretexto da área do sagrado (a referida missa), mas é, na verdade, um texto onde perpassa uma insinuante tensão erótica. Nele aprendemos que o fundamental do erotismo talvez seja, afinal, conversa, minuciosos preliminares do impossível: o entredito, o interdito, o inaudito, o subentendido, numa coreografia de palavras e gestos marcada por aproximações e afastamentos, alguns avanços, muitos recuos. Apuradas as contas, o exercício de sedução tem como alvo o leitor, sendo a literatura o seu principal agente- só porque ela assim tão profundamente tem a ver com os humanos e a dança com que eles se repelem e logo atraem.

Também pensei no Amor de Perdição de Camilo, na relação Simão / Mariana, por contraste com o par Simão / Teresa. É o conhecido “triângulo amoroso”, mas a figura de Mariana impõe-se por si mesma. O romance vive de uma espécie de tensão entre o corpo da paixão e, com Mariana, a paixão como corpo. A perdição é também a desse encontro/ desencontro, Simão e Mariana enfim unidos na turbulência fatal das águas, tudo finalmente à deriva. Retenho ainda um diálogo entre Mariana e Simão, na sequência final do capítulo VIII, feito simultaneamente de inocência e ousadia, pudor e oferecimento.

Estive quase a escolher Os Maias de Eça de Queiroz. Poderíamos falar da perturbação erótica que perpassa no romance, reflectindo a partir de duas descrições paradigmáticas- do incesto inconsciente (capítulo XIV) e do incesto consciente (capítulo XVII), como se se tratasse de duas faces do erotismo (espiritualidade vs. carnalidade).
    
Lembrei-me de Aparição de Vergílio Ferreira e da relação Alberto / Sofia. Há nela uma dimensão erótica que não encontra lugar na tentativa, por parte do protagonista, de compreensão do “eu” e do “mundo”, na sua busca de um difícil apaziguamento. O erotismo é aí um sítio de absoluto desespero e desamparo.

Devo ainda confessar que pensei no Delfim de Cardoso Pires e na sua Maria das Mercês, na Judite de Nome de Guerra de Almada e em algumas passagens de Confissões de Narciso do brasileiro Autran Dourado.

jmts 

 

 Masao Yamamoto 
visto aqui 



 



quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

das palavras dos outros





ferreira gullar / in Em alguma parte alguma, Ulisseia, 2010


REFLEXÃO SOBRE O OSSO DA MINHA PERNA

A parte mais durável de mim
são os ossos
e a mais dura também

como, por exemplo, este osso
da perna
que apalpo
sob a macia cobertura

ativa
de carne e pele
que o veste e inteiro
me reveste
dos pés à cabeça
esta vestimenta
fugaz e viva

sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio

é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
já que à pele
e à carne
irrigam-nas o sonho e a loucura

têm, creio eu,
algo de transparente
e dócil
tendem a solver-se
a esvanecer-se
para deixar no pó da terra

o osso
o fóssil

futura
peça de museu

o osso
este osso
(a parte de mim
mais dura
e a que mais dura)
é a que menos sou eu?





daniel moreira
"entre o território" (2014)



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sábado, 29 de outubro de 2016

das palavras dos outros




judith wright / in Animal Animal, Assírio & Alvim, 2005
 tradução de José Alberto Oliveira



CATATUAS NEGRAS

Cada género específico de tempo ou de luz
tem as suas criaturas. Elas esperam algures,
com se habitassem apenas o calor ou o frio,
o crepúsculo ou a madrugada e não conhecessem outro estado.
Depois, no tempo certo chegam, tímidas ou determinadas.

Assim, quando os grandes ventos áridos, ásperos como lixa,
se acalmaram, e o tempo mudou e vieram as nuvens
e outras aves se calaram em oração ou medo,
estas conheceram a sua hora. Antes que o primeiro clarão longínquo
se acendesse, ou o primeiro trovão pronunciasse o nome,
chegaram em voo cerrado, até que eu pude ouvir
as catatuas negras selvagens, sacudidas no cimo
das suas altas árvores, gritando o desassossego do mundo.





Kunihiro Amano
(xilogravura)




imagem vista aqui




 


sábado, 15 de outubro de 2016

 # Em Agenda #


No número 6 de SUROESTE (revista de literaturas ibéricas - Badajoz, 2016), um texto de Miguel Filipe Mochila sobre O Segundo Olhar de Inês Lourenço (Companhia das Ilhas, 2015)







 (para ler, clicar nas imagens)






 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

oCorpodasLetras




 

vídeo e som: Hong Huo
poema: Su Shi (1037-1101|dinastia Song)
com Jiaxin Zeng


visto aqui 





 

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

OTERCEIROTEXTO


A tradução de um poema de Sinéad Morrissey de novo na Enfermaria 6 "An Anatomy of Smell" pertence a Between Here and There, de 2002. É um livro em duas partes, uma espécie de díptico difícil: a primeira focada na Irlanda natal a que a autora regressa, depois de viver em paragens distantes, e a segunda significativamente intitulada "Japan". Trata-se de um poema que interroga as origens e a sua deriva, numa intensa e aguda sondagem do banal significativo. Como é também característico da autora, interessam-lhe os mecanismos da percepção e o amor, esse velho tema.















 aqui







domingo, 31 de julho de 2016

das palavras dos outros







sam shepard / in Crónicas Americanas, Difel, s.d.
(Tradução de José Vieira de Lima)




Vejo o meu filho mexer-se, enquanto sonha
Enquanto dorme, de lado, numa cama de motel

No quarto ao lado, um casal discute
Ele repete: «Então, Lorraina, não faças isso!»
Ela repete: «Porquê?»

Nadadores mergulham na piscina, lá fora
Nadando na noite
Nem uma só voz

Os braços que batem a água

Enquanto
O miúdo estremece
Dá voltas com a cabeça na almofada
Há um sonho que passa dentro dele
A sua voz
Sem palavras

Os Grandes Montes Tetons assomam, de fora, à nossa janela
Sem neve
Azuis

O Rio Snake serpenteia à volta da nossa cama
Sibila para dentro de si mesmo

O tipo com o cinturão de cartucheira chega à janela e berra
«Mais cuidado com essa linguagem» para o casal que se trava de razões

O casal cala-se
Solta risinhos abafados

O rodeo acaba
Ouvem-se os camiões

O Café Elk Horn enche-se de montadores de touros
A águia voa no encalço de uma truta

Alguém deixa cair uma moeda na máquina do gelo
A máquina cumpre com um baque seco

Os nadadores deixam a piscina
Agora estão a falar
Mas não consigo entender as palavras

Os alces seguem para norte
(Quase que podemos ouvi-los)

O urso pardo segue para onde lhe apetece
(Ontem comeu três caminhantes)

O meu miúdo anda aos saltos, enquanto sonha

Uma espingarda dispara

O casal grita

O miúdo acorda


5/8/80
Jackson, Wyoming






Edward Hopper
Gas, 1940







sábado, 23 de julho de 2016

sublinhados & notas



Dramas de Companhia  | André Domingues | col. azulcobalto 037 | Companhia das Ilhas | Lajes do Pico, 2016



O JOGO DO SÉRIO


As ficções deste livro instalam uma verdadeira armadilha a apresentadores incautos, porque, pela sua complexidade e efeito de surpresa, estabelecem um jogo, não isento de perigos, com o leitor. Não é que não estivéssemos avisados pela epígrafe de Machado de Assis: “O melhor drama está no espectador e não no palco”. Uma após outra, as narrativas avançam por entre fronteiras do sentir e do pensar - para nos cingirmos a categorias convencionais. Expulsos de territórios de conforto literário e existencial, somos, então, conduzidos a zonas-limite, terras de ninguém, lugares que não são fáceis de habitar. Provocação e desafio, exactamente como no Jogo do Sério.
O Jogo do Sério - conhecem? Alguém olha alguém nos olhos, numa quase perfeita simetria, como num espelho vivo e inquieto. E nesse jogo a seriedade desemboca no riso e o riso (a hipótese do riso, o seu esforçado adiamento) é levado a sério, como se fosse um caso de vida ou de morte. Mas é só um jogo, e depois tudo sempre recomeça. Lembrei-me deste exercício a propósito das ficções de André Domingues, como se fosse a ponta de um fio, estratagema para começar a deslindar o objecto inquietante. Olhos nos olhos com o leitor, um jogo sério, com a velha virtude da “gravitas” e, profundamente embrenhado nisso, um imenso sentido lúdico. Fica a dúvida: jogamos a sério (porque jogar é um caso sério, como acontece com as crianças) ou é a seriedade apenas uma brincadeira, algo afinal descartável e necessariamente relativo? Adiar o nosso riso, a descompostura que desmancha a pose de estátua - é o que aqui se faz com virtuosismo e, entretanto, somos alvo, nesse jogo, de um percurso de reflexão e sensibilidade que nos transforma. “Dramas de Companhia”- já no título o sério e o lúdico, a brincadeira fonética que aproxima angústia existencial e sentido de irrisão. Poderíamos recordar um  jogo semelhante que dá o título a uma obra de um autor que (suponho) terá algo a ver com a família literária destes textos: Rayuela de Julio Cortázar. “Rayuela” - o nosso “jogo da macaca”, que é também, simbolicamente, como aqui, um jogo do mundo entre a terra e o céu, em percursos de habilidade e risco. 



Uma outra forma de me aproximar do livro passa por um poema do espanhol Blas de Otero (1916-1979), que me lembra uma das razões por que gosto destes textos: “Tu seno izquierdo”, incluído em Hojas de Madrid con La Galerna:

TU SENO IZQUIERDO

Cuántos problemas tiene el mundo, el hombre, el espíritu santo.
Si no hubiera problemas habría que inventarlos a fin de  resolverlos.                                                       
Es el problema por el problema -algo así como el arte por el arte.
Imagínese un mundo liso, alisado, superficial, sin problemas.
Tan aburrido como el cielo.
Como una mujer junto a una estufa.
Yo amo los problemas como a tu seno izquierdo.
Sólo para acariciarlo.
 

Impõe-se o valor do problema pelo problema, superando um mundo liso, aborrecido e normalizado, na busca do mais essencial (o seio), mas também do único, do irredutível - precisamente o seio esquerdo, não o outro, por capricho e apego ao singular, uma precisão que é também muito frequente no livro que nos ocupa. O esquerdo, que é, pela sua simbologia, o controverso, o provocatório, o desalinhado, o que se afasta do consensual caminho do bem.
Este livro cumpre uma função extraordinária da literatura (no preciso sentido do termo) - colocar questões, deslocar o olhar, experimentar diferentes pontos de vista, baralhar linguagens, dar de novo o jogo, mudar os trunfos. Resistir às versões correntes e normalizadas do mundo, à chamada “vida real”, às narrativas dominantes, ao senso mais comum. Isso implica, de algum modo, retomando a epígrafe de Clarice Lispector, uma “verdade inventada”. Trata-se, ao contrário do que se pretende na vida útil (digamos assim), de ligar o “complicador”- nada de “simplex”. Porque a vida é subtil. Como encontramos numa canção de Chico Buarque, em parceria com Gilberto Gil: “Talvez o mundo não seja pequeno / nem seja a vida um fato consumado”. 

terça-feira, 12 de julho de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

processos sumários




um novo poema do ciclo na Enfermaria 6

"György e Martá Kurtág Tocam 
uma Transcrição de Bach a Quatro Mãos





Parece que só quatro, as nossas mãos/ mas não é por isso que/ as pomos no fogo




mãos de Sergei Rachmaninoff 
arquivo Life Magazine
imagem vista aqui