poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








sábado, 17 de fevereiro de 2018

|Caderno das Cidades|
                                 










  







paris | 2017

jmts





sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

processos sumários

 

GRANDES ÁRVORES, PISCINAS

                                         para a Fátima, em memória



É um facto que já cá não estás
nem te veremos por entre folhas 
e sombras do verão que vier
ou nos braços húmidos do vento
em brilhos de água cercando-te 
enquanto respiras

Mas há vida entre todos os factos 
e foi em diferida inspiração
que a grande árvore caiu
conhecendo, discreta 
o teu caminho

Uns dias após a tempestade
quando inteira, em tronco
e ramos, e vidros partidos
imensamente nos desabou
em tua exacta memória

Uma vida entre todos os factos
quando nascias do fundo 
da piscina e os braços como folhas
suspendiam o corpo
tão preenchido de si 

nesse grande azul 
que agora mesmo  insiste
como se fosse teu 
e de cada vez
para todo o sempre


 jmts




David Hockney | Swimming Pool | 1978






domingo, 31 de dezembro de 2017

das palavras dos outros




john berger/ E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias 
 Quasi edições, 2008 | tradução Helder Moura Pereira


Depois foi um pequeno gato. Um gato completamente branco. Vivia numa cozinha de chão irregular e chaminé a céu aberto, com uma mesa desconjuntada e paredes rugosas, caiadas de branco. Quando estava encostado à parede, o gato tornava-se quase invisível, só se viam os olhos escuros. Quando virava a cabeça, desaparecia no interior da parede. E quando se punha aos saltos no chão ou em cima da mesa, parecia um ser que nascia da própria parede. O modo como aparecia e desaparecia dava-lhe a intimidade misteriosa de um deus do lar. Eu sempre achei que os deuses do lar foram animais. Por vezes visíveis, por vezes invisíveis, mas sempre presentes. Quando me sentava à mesa, o gato saltava-me para os joelhos. Tinha dentes aguçados e tão brancos como o seu pêlo. E língua cor-de-rosa. Como todos os gatos de pouca idade, passava a vida a brincar: com a cauda, nas costas das cadeiras, com o que ia encontrando no chão. Quando queria descansar, procurava um sítio confortável e aí ficava. Ao olhá-lo, fascinado, durante uma semana, notei que ele escolhia, sempre que podia, algo que tivesse cor branca- uma toalha, uma camisola, roupa interior. Então, de olhos cerrados e boca fechada, enrolava-se todo e tornava-se invisível no meio das paredes brancas.




Lauren Henkin
visto aqui





 

sábado, 25 de novembro de 2017

das palavras dos outros




gastão cruz/ Existência, Assírio & Alvim, 2017


SÓIS

Acabou fevereiro e a luz lisa
de março tomou conta do deixado
deserto do inverno; abro a camisa
ao trémulo calor que descuidado

entra na pele: uma ilusória brisa
igual à ilusão do adiado
verão geral que a memória exorciza
como se só pensá-lo fosse o lado

mais cruel de existir porque não há
como recuperar os verões findos
num único verão que contivesse

todos nem a memória poderá
na sua luz total ter os infindos
sóis dúbios de onde a luz desaparece

                                                                             1 de Março de 2017



 
AZUL-BILBAU

                               Azul-cantábrico, azul-bilbau
                               Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

Toda a noite sonhei com o mar de bilbau
que só rapidamente uma vez vi
de passagem em san sebastian
mar cantábrico duro azul e frio

Toda a noite? segundos? as imagens
do sonho têm tempo? azul-bilbau
imagem rediviva poesia
no sonho nítida

com a vertigem fixa de uma onda
que veio sobre mim como um castigo
porque a memória em sonho convertida

se ganha a nitidez clara da pedra
mata a imagem que verdadeiramente
não existe exercendo o seu assédio






Bruno Réquillart
Itália, 1977






livro comprado na apresentação na livraria Flâneur,
 no Porto, em 18 de Novembro de 2017 







 


sábado, 4 de novembro de 2017

processos sumários




um novo poema do ciclo na Enfermaria 6
 
"A Oitava Sinfonia de Jean Sibelius"
 




A música, o seu medido passo / e altos voos, é como se nem a ouvissem



 Josef Sudek



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

# Em Agenda #


Lançamento 
28 de Outubro | 17 h | Centro Mário Cláudio | Venade | Paredes de Coura | aqui





A Criança Eterna | antologia de contos 

 prefácio de Mário Cláudio

Nas Margens do Rio Gilão - Yvette Centeno | O Tempo e a Eternidade - Nuno de Figueiredo | O Búzio do meu Pai - Carla Pais | Infância: Estado Sólido do Tempo - Diogo Leite Castro |
Subir o Tempo à Procura da Infância - Maria Almira Soares | Uma Maçã por Dia - Inês Barata Raposo | Os Tamancos dos Outros - Francisco Resende | O Espelho - Márcia Balsas | Limbo - José Manuel Teixeira da Silva | Última cena. Primeiro Ato. - Conceição Pimenta | Neve Artificial - André Domingues
  

Centro Mário Cláudio 




terça-feira, 17 de outubro de 2017

processos sumários

 



JOÃO CABRAL NO CONSULADO DO PORTO


Há-de haver um poema sobre desatenções
e diversas faltas de amor, mas acreditem
sou alheio a esse facto

À falta de outra palavra
direi que nem sequer estou triste
porque apenas vejo o que vejo

Ergue-se, é certo, uma muralha e o nevoeiro
coroando as torres de imaginação
e poderia ao menos registar a poeira ferrujenta
e endurecida, súbitos vapores do lirismo

Desta vez de nada tomei posse
estão impecáveis os cadernos, as réguas
e os carimbos, cuido só das cortinas, dedicada
cegueira à luz que se perde no granito

Em pura verdade, volto o olhar
às extensões da Andaluzia, assaltam-me 
recados urgentes do Recife, e nem esqueço
a minha ausência, dia após dia
a iluminar uma casa do Rio de Janeiro
Tudo expliquei com o justo exemplo
da faca, dispenso os dois gumes
as armas brancas em demasia

Quase nunca abro a porta que fizeram
os artesãos desta cidade, muito agradeço
tão boa madeira, deixa-me à distância de
soluços, catarros, gritaria solta do lugar

quando, de hora a hora, ofereço
o que tenho de melhor, um tal silêncio 
e olhos que calhou estarem fechados


jmts





Construção Ponte Luiz I | Emílio Biel | 1885