poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 21 de junho de 2022

 |Caderno das Cidades|

 


 

 

 

 

 

 

 

 

barcelona | 2022
jmts 

 

                                                         série aqui




quarta-feira, 27 de abril de 2022

 das palavras dos outros



 

maria virgínia monteiro / Precário Registo, Universitária Editora, 2003

 
 
 
QUANDO
 
                               (..)  quando os bosques
                                        e os espaços se fundirem (...) 
                                                António Carlos Cheinho 

quando eu não for
nem voz nem sombra
nem rir nem dor
não recusem de mim restos escolhos
nas coisas que amei
mas que guardei
como se nelas queimasse
mãos e olhos

se me deixarem ficar
eu ficarei
silenciosa ao vosso lado
e assim talvez
as coisas por mim falem
através
de fronteiras de outro espaço
alcançado

do que soube
do que calei
espalhe-se o segredo, dantes meu
arranque-se de sobre ele
qualquer véu
e não mais se cale
o mudo grito

libertem-se gavetas
do silêncio
porque pago foi já o preço alto
e sereno, sem raiva, sem sobressalto
o silêncio o som aflito
quer ser voz
como um eco de lembranças
voz inteira
dos espaços da portagem
na fronteira
dos caminhos de mim
de ti
de nós



 

































  anthero monteiro / Sulcos da Memória e do Esquecimento, Corpos Editora, 2013
 
 
 
 
 NOTAS PARA UM EPITÁFIO
(à maneira de edgar lee masters)
 
                             
nasci decerto do ventre de um incunábulo
ou do ovo de um livro de asas abertas
como qualquer pássaro sedento de horizontes

os meus livros que fariam uma torre de babel
vazando as nuvens acotovelavam-se lá em casa
por um lugar nas estantes empurravam-se
encavalitavam-se uns sobre os outros

das prateleiras por cima da janela que dá para a rua
debruçavam-se as mais volumosas lombadas
sobre o sítio onde lia ou desenhava
os sulcos dos meus versos

sentado nos autocarros nos comboios
nas dunas nos rochedos ou à sombra das tílias
foi sempre um livro a minha irrevogável testemunha

escrevi livros publiquei livros fundei bibliotecas
vivi entre estantes dois terços da existência
li poemas e histórias para centenas e centenas
a vida foi um espesso tomo dedicado
à leitura à poesia à escrita à bibliofilia
 
naquela noite sentado no lugar dos meus labores
prosseguia eu a leitura do livro negro do padre dinis
e ali pela página duzentos e trinta e cinco
ouvi alguns ligeiros estalidos que se repetiram
era talvez a traça algum bibliófago a tosar
papel tenrinho mas não fiz caso pois essa
é uma entidade tão invisível quanto deus
 
alguns parágrafos adiante aquela frase do duque
de cliton: "quando o pressentimento da morte
nos fala muitas vezes não devemos desprezá-lo"
mal virei a página um estrondo de derrocada
sobre a mesa de leitura e o seu ocupante
 
ainda tentei apanhar a vida mas ela escoou-se
de repente como um peixe dos limos
que nos resvala das mãos
 



















 
In Memoriam
 
Maria Virgínia Monteiro (1931 - 2022) / Anthero Monteiro (1946 - 2022)
 
 
fotografias:JMTS



terça-feira, 28 de dezembro de 2021

  # Em Agenda #

 

 

Nos últimos tempos, alguns trabalhos, alguns dias

 

 

110 anos, 110 poetas 

antologia comemorativa dos cento e dez anos da universidade do porto - u. porto press

 

                                                               organização: isabel morujão

                                                              ver aqui

 

participação com o poema "O pintor e a cidade"  

Ver o que há para ver / e com toda a precisão quanto a brumas / nevoeiros, névoas e mais vapores (...)

 

 

 

 

 os dias da peste - pen clube português, gradiva

 

   organização: teresa martins marques / rosa maria fina

 

 participação com a ficção "Dificilmente" 

 (...)

Já ficou prisioneiro de um novo ritual. Quando cai o crepúsculo, deixa o televisor, a contabilidade dos contágios, as imagens de ficção científica nos hospitais, e aproxima-se da janela. Dedica-se à contemplação do movimento das silhuetas em contraluz no parque. Ninguém se estira na relva ou faz uma pala com a mão para seguir os pássaros que recolhem. Seria interessante desenhar as trajectórias dos caminhantes, as suas derivas quando se apercebem ao longe de uma alma em sentido contrário e tomam discretamente o carreiro paralelo ou escolhem uma alameda com um percurso mais longo, logo alterado por um novo desvio. Ocorre-lhe que seja uma espécie de dança macabra: muitos, quando se apercebem, já mudaram de freguesia, de cidade, de vida, passaram fronteiras e olham tudo com uma louca estranheza. Veríamos os olhos alucinados, não fossem suaves figuras ao cair do dia.

  (...) 

 

 

 

 entrevista a miguel d'ors no Correio do Porto



                                                                   fotografia: pablo hojas 

                                                              ver aqui                                                           

                                                      


quarta-feira, 27 de outubro de 2021

 oCorpodasLetras

 

 


  Eucanaã Ferraz
redundância, errância, perfeição

realização|Hugo Magro 
 
 
 
 
 
série arquipélago aqui


sexta-feira, 8 de outubro de 2021

  processos sumários   

 

 

EM SEGUNDA MÃO

Os quartos das enfermeiras reformadas
ficavam às vezes nos sótãos dos adelos
e obrigavam a distinguir entre coisas
esquecidas ou expostas para venda
 
Tantos vasos de flores que o tempo acarinhava
com sua mão de carteirista, eram o quê
perene decoração da alma, negócios
do mundo trespassável?
 
No entretanto, subir escadas que abrigavam
requintes de madeiras, respirar poalhas
de ouro de um vulcão extinto, até ao postigo
que oferecia o brinquedo da cidade
 
Ao lado a maleta, os brilhantes instrumentos
que separavam toda a vida de toda a morte
caixinhas metálicas, salvas de prata
com algodões que se embebiam fofos
de vermelho, úteis serrilhas e seringas
o grande apuro das agulhas
 
Restava olhar de frente o laço de um garrote
ou aceitar essa espécie de roleta russa
simulações na nádega, falsos arranques
a que sucediam, mais tarde ou bem mais cedo
golpes decisivos em segunda mão
 
 jmts
 
 
 
 
 


                                                                                                                        jmts

 

 

 

 

quarta-feira, 9 de junho de 2021

 # Em Agenda #

 

 

                           

110 anos, 110 poemas / Universidade do Porto, pátio da Reitoria , 11/6, 21h / leitura de poesia, a partir de antologia em preparação pela UP / participação com poema inédito : "O Pintor e a Cidade"

 

 

 

 

 

 

domingo, 21 de março de 2021

 processos sumários   

 

 

LISBOA: CINCO VOZES PERDIDAS NUM DIA DE CHUVA

              uma fotografia de Sena da Silva, Lx. 1956-57


1.
Cruzei-me contigo porque havia chuva
e os galhos soltos alongavam
o caminho conhecido
 
2.
Os dias tangem no meio 
dos temporais, tu rente
aos aguaceiros, eu de ti desabrigada

3.
Foquei o pendor das árvores
e a respiração sombria
revelou-me o trespassar da vida

4.
Limitei-me a chover desassombradamente
musa desabrida que se dá a essa voz
de todas a mais desencontrada

jmts
 
 
 
 
sena da silva . sem título . lisboa, 1956/57





     


 

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

processos sumários





na Gazeta de Poesia Inédita
 
"Concha Partida numa Praia da Escócia"




  Faltam sempre versos aos poemas acerca da Escócia


                                               jmts