poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

processos sumários

 
DESENCONTRO NA CAPELA SISTINA, A PROPÓSITO
DO PROFETA ISAÍAS


Desencontrei-me de ti e é certo
que não anunciaste a minha chegada

Talvez problemas de paralaxe e lotação
se estamos todos à mesma hora
à espera dos milagres, e é difícil
um trânsito assim transfigurado
pelos sopros divinos, como as estrelas
que outros astros depressa vêm apagar
nos vários riscos do céu de Roma

Esqueces o jogo dos ínfimos
espelhos invertendo as melhores
epifanias, e também as dores de costas
um ou outro empurrão, tropeções
nos paralelos que o tempo comum
ornamenta de súbitas saliências

Quem sabe, mais logo
se cruzem os caminhos
quando for à sua vida a gente
que, em fila, desespera
por entre os séculos dos séculos

e os gatos então ocupem as colinas da cidade
e as fontes se respondam no silêncio
e te reserve Deus, ó profeta muito amado
discretas luzes de guardas solitários 

jmts





Miguel Ângelo | Isaías | Capela Sistina, Roma






 

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

oCorpodasLetras




Federico García Lorca 
Cielo Vivo|Poeta en Nueva York

leitura|Keila Vall




Cielo vivo



   Yo no podré quejarme


si no encontré lo que buscaba.


Cerca de las piedras sin jugo y los insectos vacíos


no veré el duelo del sol con las criaturas en carne viva.



   Pero me iré al primer paisaje


de choques, líquidos y rumores


que trasmina a niño recién nacido


y donde toda superficie es evitada,


para entender que lo que busco tendrá su blanco de alegría


cuando yo vuele mezclado con el amor y las arenas.



   Allí no llega la escarcha de los ojos apagados


ni el mugido del árbol asesinado por la oruga.


Allí todas las formas guardan entrelazadas


una sola expresión frenética de avance.



   No puedes avanzar por los enjambres de corolas


porque el aire disuelve tus dientes de azúcar,


ni puedes acariciar la fugaz hoja del helecho


sin sentir el asombro definitivo del marfil.



   Allí bajo las raíces y en la médula del aire


se comprende la verdad de las cosas equivocadas,


el nadador de níquel que acecha la onda más fina


y el rebaño de vacas nocturnas con rojas patitas de mujer.



   Yo no podré quejarme


si no encontré lo que buscaba;


pero me iré al primer paisaje de humedades y latidos


para entender que lo que busco tendrá su blanco de alegría


cuando yo vuele mezclado con el amor y las arenas.



   Vuelo fresco de siempre sobre lechos vacíos,


sobre grupos de brisas y barcos encallados.


Tropiezo vacilante por la dura eternidad fija


y amor al fin sin alba. Amor. ¡Amor visible!



Eden Mills, Vermont, 24 de agosto de 1929.






quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

# Em Agenda #

 



Alfredo Ferreiro Salgueiro | Catarina  da Costa | Eduardo Quina
 Fady Joudah (trad. Sérgio Ninguém) | José Manuel Teixeira da Silva
Lena Khalaf Tuffaha (trad. Sérgio Ninguém) | Maria Quintans
Silva Trstenjak (trad. Sérgio Ninguém) | Vítor Pais
Yvette k. Centeno (Poetas & Poetas) | Rui Tinoco (Khroniká)




encomendas | informações






domingo, 24 de novembro de 2019

 # Em Agenda #
 



Sombramar

José Manuel Teixeira da Silva | texto
Ana Abreu | ilustrações 



Companhia das Ilhas   aqui
colecção azulcobalto | 076
ISBN 978-989-8828-92-7
Páginas 76 | PVP € 12




Sombramar. Um diário de férias cruzado, um puzzle narrativo. 31 dias de Agosto numa vila de nome impossível, à beira mar. O levantamento topográfico acerca-se de materiais caprichosos, memórias resistentes, estratos de imaginação. Temas graves, ocorrências ao pé de nós. Visibilidade deste mundo e do outro, momentos decisivos, gentrificação, outras palavras que dizemos ou calamos. Se houver sorte, uma história de amor, passeios às grutas e chuvas de estrelas. Irrompe, enfim, uma outra narrativa, por fora e muito por dentro, os desenhos de Ana Abreu. Sombramar.







lançamento e apresentação
convite aqui





sábado, 2 de novembro de 2019

 # Em Agenda #
 



A Arte de Música de Jorge de Sena
Palácio da Justiça, Porto, 07/11/2019, 17h30


Sofia Lourenço | piano
António Durães | leituras
conversa com Arnaldo Saraiva e Inês Lourenço
moderação de Isaque Ferreira







fotografia: JMTS






sábado, 26 de outubro de 2019



das palavras dos outros






josé manuel morão / in Terra do Esquecimento
               poemas da aldeia do Peso- Covilhã, Sítio do Livro, 2019




O CUIDADO DOS CAMPOS

Dantes os campos brilhavam de labor.
Eram as águas meditadas, as presas
de verdes líquenes, os regos orientados.
Entrávamos, entendíamos  a ordem,

jamais morríamos. A morte
era só uma imperceptível mudança de sorte.























ANOS DE TREZENTOS

Neve na serra, alta. Longe.
As gentes sofrem os padecimentos
e refugiam-se nesta sua primeira igreja,
antes de tombarem no leito da doença mortal.

Vou pelos casebres de xisto,
de maceradas portas onde vai marcada a cruz.
É noite. Ardem as pequenas lucernas de azeite
lá dentro. Passo atrás da pequena abside.

Eram os anos de trezentos. Ninguém
sabia deste recôndito do reino.
Os homens dos pinheirais ansiaram um lugar
onde venerar. - O mais era cultivar e morrer.























A VISÃO DO MORTO

Criança, entrei no velório.
O caixão, o morto grande e encasacado,
o copo de água com o raminho de oliveira
com o qual os que chegavam aspergiam o morto.

As gentes à volta, mau grado os brados, morriam.
E o morto vivia, iluminado pela luz que, da porta,
varria o centro do quarto, até ao roxo do pano, ao crucifixo
na mesa ornada, aos castiçais dos lados. 

Parado aos pés do morto. O corpo grande. A cara grande,
aflita. Nos olhos semicerrados, brilhava-lhe segura a pupila,
alumiava ainda, pequena, lenta, alumiava.






















  Georges Dussaud
                 aqui









domingo, 13 de outubro de 2019

# Em Agenda #




Gazeta Literária, nº. 5
Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto

número dedicado a Daniel Faria 



(neste número colaboro com um poema e uma nota crítica
sobre o último livro de Fernando Guimarães, Junto à Pedra)

aqui





quarta-feira, 18 de setembro de 2019

 # Em Agenda #









Tutano
revista de poesia, teatro e todas as artes . poetria

lançamento do número zero
feira do livro do porto | pavilhão POETRIA | 21/09/2019, 18 h 30

Ana Bessa Carvalho, Ana Luísa Amaral, Ana Paula Inácio,
André Domingues, André Tecedeiro, Francisca Camelo,
José Carlos Soares, José Manuel Teixeira da Silva, Kallie Falandays,
Paulo Rema, Pedro Craveiro, Rui Azevedo Ribeiro, Samsara,
Renata Portas, Ana Rocha, Jorge Palinhos, Daniel Flores,
Gonçalo Sério Limpo, Marco Dias, Vera Oliveira,
Graça Martins e Isabel de Sá.







sábado, 20 de julho de 2019

# Em Agenda #



Participação no projecto 
PULMÕES VERSOS
dizendo Pessoa & Cª.
Sophia e Vinicius


 






domingo, 26 de maio de 2019

# Em Agenda #





A Garganta Inflamada
 antologia de poemas publicados na Companhia das Ilhas
2012-2018


Carlos Alberto Machado - Catarina Costa - Daniel Gonçalves - Fernando Gandra - Fernando Machado Silva - Francisco José Craveiro de Carvalho - Gisela Cañamero - Helder Moura Pereira - Inês Lourenço - João Candeias - Jorge Aguiar Oliveira - Jorge Fazenda Lourenço - José Manuel Teixeira da Silva - José Ricardo Nunes - Leonardo - Luís Carlos Patraquim - Luis Maffei - Luís Serra - Madalena de Castro Campos - Manuel Fernando Gonçalves - Manuel Tomás - Mário T Cabral - Nuno Costa Santos - Nuno Dempster - Nuno Félix da Costa - Paulo Ramalho - R. Lino - Ramiro S. Osório - Rosalina Marshall - Rui Almeida - Rui Baião - Urbano Bettencourt - Vergílio Alberto Vieira




selecção, organização e nota prévia de
José Manuel Teixeira da Silva


Companhia das Ilhas  aqui
colecção azulcobalto | 068
ISBN 978-989-8592-71-2
Páginas 200 | PVP € 16 






quarta-feira, 24 de abril de 2019

das palavras dos outros




carlos poças falcão / Sombra Silêncio, Opera Omnia, 2018


Há um lugar confuso: desvia-te três passos
e a serenidade respira calmamente.

Não é fácil entender só com o entendimento:
a decisão dos pássaros que voam para poente
a decisão dos pássaros que voam para nascente.

Sais de ti: o que é que entra?

Já não é costume obedecer às ordens
imortais. Mas se nada escutas
por que estás atento? E se nada encontras
como hás-de procurar?





Carlos Cánovas
Maria Fugit, London, 1995

visto aqui



segunda-feira, 22 de abril de 2019




ela decide responder-lhe


Há uma mulher que espera, com as mãos cruzadas no ventre. Olha pela janela do enorme edifício, uma fábrica de silêncios e ecos, a manhã avança, é como se escutasse o rumor do mundo, os silvos da sua rotação. Ela vê as ramagens em sobressalto, está à espera em frente do vidro e decifra as gotas de chuva. Batem as portadas, aqui e acolá, pensa nos pescadores que estão longe e sofrem no mar, nos que se abrigam entre as torres antigas da sua cidade, nos que vão pelos arrabaldes lamacentos. Acaricia distraidamente o ventre, descobre na distância um vulto que está também à janela, um rapaz que olha a tempestade, o mundo inteiro que nasce para os seus olhos. Ele acena-lhe longamente, por entre os riscos do dia, ela decide responder-lhe.
J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007







Maria Mercedes Marques Ferreira (1930-2019)





quarta-feira, 6 de março de 2019

 # Em Agenda #





Entrevista a Fernando Echevarría
realizada a 24/11/2018
Paulo Moreira Lopes |  José Manuel Teixeira da Silva
fotografia -  João Paulo Coutinho
 
no Correio do Porto 







segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

das palavras dos outros




inês lourenço / O Segundo Olhar, Companhia das Ilhas, 2015



 AS ASAS DO DESEJO

No filme de Wenders, com
versos de Handke, os anjos fingem
estar fartos de um tempo
infinito. Sonham com os
pequenos tempos de sentar-se à mesa
a jogar cartas. Ser cumprimentado na
rua, nem que seja com um aceno. Ter
febre. Ficar com os dedos sujos
de ler o jornal. Entusiasmar-se com uma
refeição ou com a curva
de uma nuca. Mentir
com habilidade. Ao andar
sentir a ossatura mexer-se a cada
passo. Supor, em vez de saber
sempre tudo. Cá em baixo, os
humanos não suspeitam da beleza
do peso que os segura à terra e fingem
o futuro em cada minuto, para
deixar de dizer agora, agora, agora…












     


                        Bruno Ganz . 1941 - 2019








sábado, 9 de fevereiro de 2019

 # Em Agenda #







Concerto
Casa das Artes, Porto, 15/02/2019
"Frédéric Chopin no Inverno de Maiorca"


Chopin | Prelúdios

Miguel Pestana de Vasconcelos | ciclo de canções
"Frédéric Chopin no Inverno de Maiorca"
a partir de poema de JMTS (estreia)

Vasyl Tsanko (piano) | Miguel Maduro-Dias (baixo-barítono)



ver aqui e aqui






domingo, 3 de fevereiro de 2019

 # Em Agenda #



 
Entrevista a Fernando Guimarães
realizada a 13/10/2018
Paulo Moreira Lopes |  José Manuel Teixeira da Silva
fotografia -  João Paulo Coutinho






terça-feira, 29 de janeiro de 2019

 # Em Agenda #








Enfermaria 6. leitura de poesia
livraria flâneur, porto, 01/02/2019, 18 h

Bruno M. Silva, Francisca Camelo, J. Carlos Teixeira,
José Manuel Teixeira da Silva, José Pedro Moreira,
Pedro Braga Falcão, Rafael Mantovani,
Tatiana Faia, Vítor Teves

aqui







 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

das palavras dos outros




josé pascoal / Sob Este Título, Editorial Minerva, 2017




IMAGEM E SEMELHANÇA

Não sou adepto de peregrinações.
Basta-me um caminho na erva.
Certas ausências em parte incerta.

Não tenho alma de vagabundo.
Sei apenas de momentos memoráveis:
Uma nuvem no céu, uma sombra no poço.

Os meus passos não vão dar a parte nenhuma.
Não tenho encontros. Não me arrisco.
Não faço nada que me obrigue a ir e vir.

Os meus desígnios são insondáveis.
É a minha única parecença com Deus.




VISITA DOMICILIÁRIA

Não reparem.
A casa foi desarrumada pelo vento.
Os bichos não têm de que comer.
O sol já brilhou nos ladrilhos da cozinha.

Não façam caso
Do pó de estricnina
Que cobre os retratos de família
E os recados deixados ao pé do telefone.

Esqueçam
As manchas de humidade no tecto,
Os sapatos gastos à beira da cama,
O silêncio ameaçador do fogão a gás.

Não reparem na minha pobre nudez.




A FELICIDADE É UM NOME

Devo ter sido concebido
No dia de Fiéis Defuntos.

Nasci numa aldeia à beira-mar.
As falésias elevam-se a 53 m.

A praia é um poço de caranguejos
E cargueiros naufragados.

Havia uma anciã chamada Felicidade.
Apareceu enforcada numa figueira.

Ninguém sabe quais serão as últimas palavras.




fotografias de André Kertész
vistas aqui