domingo, 26 de outubro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Piscinas
desenho de Ana Abreu
O temporal agitará as piscinas
chegarão pequenos corvos, coloridos
pássaros nas escadas úteis, praticáveis
Vem da baleia branca o ronco das máquinas
estalam depois as barreiras, uma a uma
ceder de paredes, as sucessivas ondas
A água inteira será só a do mar
levando o mar, bandeiras, mínimos sinais
jmts
ana abreu
sábado, 20 de setembro de 2014
processos sumários
jmts
NIAGARA
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]
Recuso esta imagem, faz lembrar
o quarto sossegado sobre a catarata
luz, abismo, os olhos presos
Seria isso um filme, os pássaros
despertavam muito cedo, uma cena
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim
Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
pronta para o tacto e as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas
no ponto onde acaba o retrato
Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
o quarto sossegado sobre a catarata
luz, abismo, os olhos presos
Seria isso um filme, os pássaros
despertavam muito cedo, uma cena
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim
Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
pronta para o tacto e as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas
no ponto onde acaba o retrato
Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
jmts
Bert Stern
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
das palavras dos outros
rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014
CORTES
Sobre
a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza
cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para
dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e
encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas,
quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um
frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão
absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso
que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013
teorias portáteis sobre fotografia
Pascal Anders ou Da
Ocupação dos Lugares
Pascal Anders
New York
City, 2010
Alphabet City, 2011Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013
São quatro dos livros do fotógrafo (ver aqui). Edições de autor,
chegam-nos pelo correio, em envelopes sóbrios mas personalizados, tamanho de
bolso. O grafismo é depurado e de discreto efeito, e podemos encontrar
elementos adicionais: provas numeradas, a reprodução de um postal ilustrado. Estes
ensaios fotográficos perseguem a comunicação, buscam novos leitores e olhares,
há neles um efeito claro de imersão no mundo, mas sem comprometer a busca e o
rigor estéticos. São convites a aproximarmo-nos dos lugares e a conhecê-los- contudo,
estamos nos antípodas do guia turístico ou de qualquer amena deambulação.
Impõe-se uma distinta personalidade fotográfica nestes
livros que reinventam a estética da “street photography” (particularmente os
ensaios dedicados a Nova Iorque e a Paris) ou o inquérito de matriz
sociológica, em que uma aparente neutralidade do olhar procura revelações e
intensidades (em Alphabet City e, de
forma mais evidente, em Lothringen).
Percorridos em conjunto, explicam-nos e exemplificam
diferentes estratégias dessa arte maior da fotografia que é a da ocupação dos lugares, e que se iniciou
quando Louis Daguerre, num dia de 1839, experimentando uma nova tecnologia,
decide dirigir a sua atenção para o Boulevard
du Temple, em Paris. E lá estavam
uma paisagem urbana, pelo menos dois figurantes humanos, uma ordem social, a
vida que já corria.
Em New York City
(2010), depois da plácida panorâmica inicial, transposto o rio, vamos
penetrar na silhueta negra da cidade. As fotografias ocupam todo o espaço das
páginas duplas e não vão permitir que o olhar serene. O contraste é muito
forte, temos algumas chapas de luz e o gelo das sombras. Estabelece-se uma
atmosfera que apetece chamar de bárbara beleza, um tanto subsidiária da
estética cinematográfica de uma câmara de mão.
Estamos sempre demasiado próximos, como se nos fosse
retirada a hipótese de um tempo de reacção e nos surpreendesse a vertigem de um
lugar. O fotógrafo expulsa-nos de todo o espaço de conforto e a composição das
imagens privilegiará os planos inclinados, as perspectivas instáveis.
Estas fotografias colocam-nos a questão de gerir o
caos, de compreendê-lo ou sobreviver-lhe, envolvidos que estamos por uma
multiplicidade de índices sociais e até raciais. Há em tudo uma pulsação
simultaneamente pública e íntima e o mapa da cidade parece fazer-se de uma
espécie de densa esgrima de olhares. Os “graffiti” surgem como se fossem
verdades instantâneas e precárias, surpreendendo o espectador em busca de uma
sintaxe e de um sentido para os elementos aleatórios da cidade. É uma estética
que se faz de vedações, gradeamentos, linhas divisórias,
perímetros de segurança, e em que circulam figuras que nos aparecem frequentemente a três
quartos, no celebrado e dinâmico “plano americano”.
O livro sugere-nos um devaneio final: a noite cai,
envolve o Chrysler Building; a banda
sonora será de um jazz trepidante, com um solo áspero e lírico; e, se na última
imagem lemos (enfim) “peace”, é apenas uma palavra de difícil e ilusória
interpretação.
Em Paris Est Tout Petit. (2011)
encontramos grandes afinidades com o livro dedicado a Nova Iorque, mas o efeito
global é substancialmente diferente. De alguma forma, passamos de um ponto de
vista exterior para a tentativa de sugerir a instalação num lugar íntimo ou
natal. É como se captássemos em duas grandes metrópoles o seu timbre
distintivo, um personalizado mas indefinível modo de existir e de se
manifestar. (Novo delírio: ouvimos agora “Gymnopédies” de Eric Satie, uma banda sonora para caminhar com serenidade,
languidez e algum sobressalto.)
quinta-feira, 26 de junho de 2014
# Em Agenda #
Amadeu
Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina |
Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim |
Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques |
João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A.
Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman
| Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel
Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György
Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão
Capa: João Alves Ferreira
Enfermaria 6, Lisboa, Junho de 2014, 124 pp.
Uma versão impressa
deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou
enviando encomenda
para enfermariaseis@gmail.com.
terça-feira, 17 de junho de 2014
processos sumários
DAS OCORRÊNCIAS
Chega a ventania por dentro
A luz existe e ilumina-se
DAS OCORRÊNCIAS
Nunca te ocorre
protestar contra o tempo
nuvens, bater de janelas
o banho do sol
Apenas registar as ocorrências
protestar contra o tempo
nuvens, bater de janelas
o banho do sol
Apenas registar as ocorrências
se alheias, e íntimas, são as razões
Chega a ventania por dentro
das paredes, a insuspeita
transparência da névoa
chuva de um lado e do outro
lado dos vidros
A luz existe e ilumina-se
essa única disposição
de cercar as aves
Podes também partir
que algo ainda ocorrerá
que algo ainda ocorrerá
na desdobrada cidade
dos estendais vazios
quinta-feira, 22 de maio de 2014
processos sumários
Alguns sacos de água
Alguns sacos de água
com seres que vieram da praia
desenhos de Ana Abreu
3.
Do mar a transparência
que a água em si retémrecomeçada e turva
O que partiu revela
outras densidades
(memórias e antenas)
apura íntimas correntes
como se em tudo regressasse
Ou fica por colecções
de etiquetas e figuras
esperando matérias carcomidas
(da maresia os ossos pequeninos)
e haverá quem diga que
ninguém nos ensina
e está ali o mar
e está ali o mar
ana abreu
quinta-feira, 15 de maio de 2014
o lugar que muda o lugar
Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de Fernando Guimarães. A referência está incluída na sua habitual Crónica de Poesia, que publica no JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), num artigo cujo título é "O lugar e a terra".
terça-feira, 6 de maio de 2014
processos sumários
Alguns sacos de água
Alguns sacos de água
com seres que vieram da praia
desenhos de Ana Abreu
2.
O distraído fervor das etiquetas
destino sumário das coisassuspensas e atadas
Nem sabemos se as hastes vivas
agitam o desespero
(flores da água) ou sequer
suspeitam de quanto jaz
na rotação do mundo
Calaremos as ondas que batem
(assunto arrumado), são agora
trabalhos de inspiração e asfixia
deixar cegos os nós, as cataratas
como seixos que encham os olhos
Fosse esta memória
do mar a transparência
do mar a transparência
jmts
ana abreu
domingo, 27 de abril de 2014
processos sumários
PROCESSOS SUMÁRIOS
PROCESSOS SUMÁRIOS
São processos sumários
que nos levam aos quartos
Há uma espécie de pendor oblíquo
das ruas, sequências de aguaceiros
grandes calmas, o que nos cerca
quando o dia cai inteiro
Esqueceremos o nome mais antigo
apagamo-lo dentro do lugar, regressa
com as luzes, alguém assim o traz
falando de outra coisa
Tudo existe em flagrante
estamos à janela e vemo-nos
chegar, súbitas travagens
ambulâncias, apitos que chamam
do mar muito em criança
Escolheremos o sítio para a mesa
os breves desenhos entre cadeiras
questão de começar os inventários
saber do que insiste nas paredes
se música dos céus, rumor dos
canos, apenas o modo como
o mundo se avaria
Em todo o caso, cuidaremos desse leito
da dobra fria dos lençóis, difícil
a posição das mãos, a travessia
para o demasiado sono
jmts
que nos levam aos quartos
Há uma espécie de pendor oblíquo
das ruas, sequências de aguaceiros
grandes calmas, o que nos cerca
quando o dia cai inteiro
Esqueceremos o nome mais antigo
apagamo-lo dentro do lugar, regressa
com as luzes, alguém assim o traz
falando de outra coisa
Tudo existe em flagrante
estamos à janela e vemo-nos
chegar, súbitas travagens
ambulâncias, apitos que chamam
do mar muito em criança
Escolheremos o sítio para a mesa
os breves desenhos entre cadeiras
questão de começar os inventários
saber do que insiste nas paredes
se música dos céus, rumor dos
canos, apenas o modo como
o mundo se avaria
Em todo o caso, cuidaremos desse leito
da dobra fria dos lençóis, difícil
a posição das mãos, a travessia
para o demasiado sono
jmts
publicado em Quarto de Hóspedes
volume colectivo, Língua Morta, 2013 (aqui)
Emma McNally
visto aqui
domingo, 13 de abril de 2014
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
A Fotografia de José Melim ou Uma Questão de Tempo
O título do texto com que José Melim introduz este excelente conjunto de fotografias salienta o que me parece ser o núcleo essencial do seu trabalho- trata-se, realmente, de uma questão de tempo, até na medida em que está em jogo uma arte de viver, isto é, de passar o nosso tempo no mundo, testemunhando-o e merecendo-o.
teorias portáteis sobre fotografia
A Fotografia de José Melim ou Uma Questão de Tempo
[introdução a José Melim, Instantes, Mindaffair, 2014]
© fotografias de José Melim
O título do texto com que José Melim introduz este excelente conjunto de fotografias salienta o que me parece ser o núcleo essencial do seu trabalho- trata-se, realmente, de uma questão de tempo, até na medida em que está em jogo uma arte de viver, isto é, de passar o nosso tempo no mundo, testemunhando-o e merecendo-o.
Antes de mais, é esta uma prática
fotográfica que se apossa do tempo do espectador, contrariando os hábitos
dominantes de consumo acelerado e frívolo das imagens. Tal só acontece porque o
fotógrafo dá também tempo ao tempo, nessa decisão prolongando os gestos
primordiais da História da Fotografia: o caçador de imagens, colado ao mundo,
está atento aos avisos em redor e assume a postura dos felinos em expectativa
do instante fulminante. Não encontramos aqui os rituais contemporâneos que
alienam o real e, com ele, o precioso atrito da relação do homem com o mundo,
substituindo-os pelo simulacro da acumulação espectacular das imagens. Neste
sentido, o presente livro de fotografias é o resultado de duas operações
exercidas sobre o tempo.
Pelo seu carácter antológico, tem em
si inscrito o apuro que resulta de uma selecção (que se suspeita dramática) de
entre um extenso corpus fotográfico
produzido ao longo de décadas, e que atravessa, inclusivamente, a fronteira
entre o analógico e o digital. Perante o modo de existir destas imagens, temos
a intuição de que o fotógrafo preferiria às suas decisões o escrutínio do tempo,
que é, como diz Marguerite Yourcenar, “esse grande escultor”. ¹
Mas a imersão na temporalidade é,
num outro plano, o diálogo deste livro com a História da Fotografia. Instantes ilustra, com virtuosismo e
sistematicidade, a própria “gramática” do processo fotográfico que é, em si
mesma, um produto histórico, e isto porque estamos perante um observador que,
se merece os acasos da sorte, é sobretudo consciente do que está a fazer, como,
aliás, testemunha o seu texto introdutório. Neste assumir da História da
Fotografia, e porque, como nos diz logo em epígrafe o autor, não há um olhar
que possa ser inocente, denuncia-se um essencial classicismo estético, baseado em valores como o equilíbrio e a
harmonia universais ou, noutra perspectiva, perseguindo a captação de uma
essência, na qual o mundo se viesse aquietar com as suas formidáveis energias.
Prescinde-se, sem remorsos, de muitas das pulsões da fotografia contemporânea:
a neutralidade analítica, o inquérito social ou humanista, a aridez conceptual,
a deriva de um registo confessional.
Arriscaria dizer que estas imagens se
situam, maioritariamente, e com extremo rigor e sensibilidade, no cruzamento de
duas estéticas fotográficas consagradas, que poderíamos, por comodidade,
revelar a partir das lições paradigmáticas de Ansel Adams e Henri
Cartier-Bresson.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







.jpg)

