lara jacinto
terça-feira, 22 de setembro de 2015
sábado, 12 de setembro de 2015
sublinhados & notas
Passagens | Teolinda Gersão | Sextante Editora | 2014
CIÊNCIA DAS PASSAGENS
Passagens de Teolinda Gersão é um livro que fica comigo. Lembrei-me,
enquanto o lia, de um filme de que gosto muito: As Asas do Desejo (Der Himmel
über Berlin) de Wim Wenders. A mesma multiplicação das vozes e dos pontos
de vista, o deslocar da visão para uma escala englobante mas sensível, sem nada de
abstracto ou totalitário; a compreensão dos pequenos dramas e enredos, o mais
íntimo no seu próprio tom, mas sobre isso um sopro cósmico, um olhar angelical,
sábio e sem preconceitos, envolvido e distanciado.
E
lembrei-me ainda de um outro livro, A
Paixão de Almeida Faria. Guardo-o num recanto da biblioteca onde também
ficará Passagens. Em ambos um tempo curto e simbólico, que se entretece do contraponto, ora agreste ora
harmonioso, de vidas diferentes que se cruzam. Mas tanto o filme de Wenders como o romance de Almeida Faria deixam-nos um sobressalto, uma angústia dispersa que neste romance
desembocam, porém, numa espécie de grande serenidade, que me parece característica
da escrita da autora. Trata-se de uma ciência das passagens, porque "o mundo é uma oscilação perene" (para retomar a epígrafe de Montaigne).
Momentos que mais me tocaram? O arranque do romance, com a sua perspectiva inesperada e a
sábia gestão das informações (um pouco como quando num célebre romance de Agatha
Christie descobrimos que o assassino é o narrador com quem nos habituámos já a
conviver…); a personagem Conceição, que podemos colocar a par de Piedade
(justamente do livro de Almeida Faria) ou da Mulher da Esfrega de Húmus de Raul Brandão; a história (para mim
comovente) de Ana e do pai, na parte 2; mas muito o impacto do conjunto, a
polifonia global.
Sinto o livro como uma espécie de música de câmara, alcançando o
máximo de efeito a partir de pequenos, mas preciosos, recursos. O balanço final é de uma
quase indissociação de pontos de vista e pensamentos (o exemplo máximo surge
quando várias personagens parecem conversar através dos seus monólogos interiores
e correntes de consciência, ou quando reproduzem o discurso de Ana já penetrado
por alguma insanidade). É como se se tratasse de uma voz dentro, mas para lá, de todas as vozes. O virtuosismo do romance está em tornar habitável e como que
natural esta música do mundo inteiro.
jmts.
sábado, 15 de agosto de 2015
das fotografias dos outros
Fui resistindo a pôr aqui fotografias feitas por outros, não sendo apenas ilustrativas ou a acompanhar textos. Não faz sentido: o nosso olhar olha também através do olhar dos outros.
Fui resistindo a pôr aqui fotografias feitas por outros, não sendo apenas ilustrativas ou a acompanhar textos. Não faz sentido: o nosso olhar olha também através do olhar dos outros.
raquel moreira
vista aqui
terça-feira, 11 de agosto de 2015
quarta-feira, 1 de julho de 2015
das palavras dos outros
#
Ficaram, por mais tempo, os lábios
erradios do corpo. Ia
pelos algares das torrentes
junto de selvas bravias e escuras.
#
A noite descia. Arco que
fere a tua carta.
P'los lábios, as sílabas repetidas.
#
Guardem, também, silêncio as
flores do limoeiro, a laranjeira.
Não sou uma única voz
na manhã do dia que findara.
#
Estendeu a mão sobre
a hora, alta noite. Sob
o repouso encostou o rosto.
#
Nos lábios, um sorriso
revelava o arcano do seu coração.
#
Havia de dizer o íris de maio,
o muro branqueado
a harmonia.
joão miguel fernandes jorge / in Pelo Fim da Tarde, Quetzal Editores,1989
Era um dia, pelo fim da tarde
o sol descia sobre
o sentimento da vida.o sol descia sobre
#
Ficaram, por mais tempo, os lábios
erradios do corpo. Ia
pelos algares das torrentes
junto de selvas bravias e escuras.
#
A noite descia. Arco que
fere a tua carta.
P'los lábios, as sílabas repetidas.
#
Guardem, também, silêncio as
flores do limoeiro, a laranjeira.
Não sou uma única voz
na manhã do dia que findara.
#
Estendeu a mão sobre
a hora, alta noite. Sob
o repouso encostou o rosto.
#
Nos lábios, um sorriso
revelava o arcano do seu coração.
#
Havia de dizer o íris de maio,
o muro branqueado
a harmonia.
Josef Sudek
segunda-feira, 15 de junho de 2015
sublinhados & notas
Uma nova etiqueta: para registar apontamentos
de leitura, coisas à margem de livros.
de leitura, coisas à margem de livros.
-------------------------
A ORIENTE DO ORIENTE
Ao ler Os Amantes da Fronteira de Tiago Novaes, pensei muitas vezes nuns versos de Álvaro de Campos, o heterónimo pessoano mais próximo da ideia de viagem enquanto ansiada experiência de plenitude, acompanhada do seu irmão quase gémeo, o sentimento do vazio. Em "Opiário": É antes do ópio que a minh'alma é doente. / Sentir a vida convalesce e estiola / E eu vou buscar ao ópio que consola / Um Oriente ao oriente do Oriente.
Há sempre, portanto, um oriente para cada oriente e a viagem à Tailândia que ocupa o livro de Tiago Novaes pertence a esta genealogia: busca de si e do mundo eternamente insatisfeita, demanda que é também, como em Campos, fuga para a frente e, daí a muito pouco, virá a ressaca da euforia das sensações. Desta vez é a viagem de Y (que foge, aliás, de outros desencontros, na sua obsessão por W), figura exemplar, no seu irradiante anonimato, mas também uma incógnita, para o leitor e para si próprio.
Mas neste relato que retoma relatos anteriores, relativizando os pontos de vista, predomina um tom que não é o da construção e desconstrução modernistas. Em alternativa, somos levados para uma espécie de letargia conformada, como se a virtualização do mundo e o seu continuado simulacro já não permitissem qualquer narrativa legitimadora que possa dar sentido à experiência do caos. Como na epígrafe de Nerval, "les dieux se sont envolés", incluindo os das utopias vanguardistas. Se este livro se faz de uma discreta arquitectura fluida (puro relato de viagem, meditação existencial, diário, sondagem psicológica, narrativa entre o mítico e o histórico, cenas teatrais, algum lirismo, breves sátiras), talvez a melhor imagem que dele nos fica seja a de uma estética pós-modernista (para usar um rótulo fácil) feita de pequenos videoclips. É o que diz Ártemis, a propósito da sua vida: "-Hoje meus dias se parecem com uma sequência aleatória de pequenos vídeos da internet. Até os mais interessantes são aborrecidos." (p.83). A mimese possível do nosso mundo é essa espécie de inevitável caos narrativo, que é, em boa verdade, uma sábia orquestração de materiais heterogéneos.
Os Amantes da Fronteira (além do mais, um objecto bonito e intenso- capa, badanas, papel, colecção) instala-nos, através de uma escrita económica e precisa, e sem aviso prévio, na dinâmica de uma dimensão radical da viagem: procurar no mundo uma identidade desde sempre perdida e em metamorfose, arte de nem sequer habitar a simples estranheza de si, errando entre seres também à deriva e infinitamente híbridos- e neste ponto se convocará a parábola fundadora do peixe-gato. Ou o título: da viagem e do amor, a condenação de viver fronteiras.
Destes percursos sem redenção, mas que mantêm a pulsão do encontro com um estado original e originário, onde o humano e a natureza enfim se encontrassem, nos dá conta uma personagem feminina inesquecível: Ártemis. Como na mitologia antiga, é um ser predador, selvagem e sintonizado com o mistério lunar. Sofre uma via crucis pessoal que assume uma violenta sexualidade, na fronteira entre o humano e o desumano, como se, na anulação de si, se pudesse alcançar uma impossível virgindade. Descrever e tornar verosímil um excesso assim é, sem dúvida, um dos motivos do virtuosismo desta narrativa.
Se não existe, de facto, tradução exacta para nada, como explica Y, este livro tem a rara virtude de nos dar da viagem e do amor a própria vertigem de atravessar territórios, e explica-nos, então, com detalhe e o método possível, a intraduzibilidade essencial da vida. Compromete-se apenas a buscar mais um oriente do oriente ou, como diria Beckett, a falhar o melhor possível.
jmts.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
processos sumários
Um novo poema do ciclo na Enfermaria 6 :
Um novo poema do ciclo na Enfermaria 6 :
"Questões Pedagógicas"
Na verdade, ao ensinar, instalamo-nos / em salas ligeiramente ao lado
art deco font
from book on lettering art (ca. 1920 - 1930)
imagem vista aqui
terça-feira, 12 de maio de 2015
# Em Agenda #
Em metade
da minha vida tenho obrigação de usar o novo acordo ortográfico (escola, relatório
certinho, etc.); na outra sinto a obrigação íntima de não, naqueles
textos em que exactamente evito o comodismo de escrever "etc". Reparando
bem, esta última metade da minha vida é um pouco maior.
sem título | João Vieira | 1972
terça-feira, 28 de abril de 2015
OTERCEIROTEXTO
O dilema é o seguinte: numa boa tradução, os dois textos de partida
e de chegada deveriam ser avaliados por um terceiro inexistente.
e de chegada deveriam ser avaliados por um terceiro inexistente.
Paul Ricoeur, Sobre a Tradução (Cotovia, 2005)
Traduzir poesia é, como sabemos, impossível, mas faz-se e é útil. Alarga-nos os horizontes e evita que, enquanto poetas, estejamos sempre a descobrir o fogo ou a roda. Paul Ricoeur, no seu Sobre a Tradução (Cotovia, 2005), explica-nos que sempre se traduziu, facto tão notável como a famigerada incomunicabilidade. É assunto de viajantes, mercadores, embaixadores e espiões. É a esta espécie que pertencem os tradutores de poemas: missão impossível que se faz com paciência e algum ardor, traições, jogo duplo.
Tenho traduzido poemas de Sinéad
Morrissey (Irlanda, 1972). É uma poeta cuja escrita me seduz. Acho-a intensa, sugestiva, provocatória q.b. Fazer versões
dos seus textos é para mim aliciante, um corpo a corpo bastante útil
enquanto prática de escrita. Para mais, o inglês é uma língua que me
oferece resistência, não tenho com ela uma imediata afinidade, e isso é
muito interessante como desafio de tradução. Impus-me o
projecto de ir trabalhando poemas dos cinco livros que Sinéad Morrissey já publicou.
Trata-se sempre de tentar um texto em português viável enquanto tal, numa liberdade que seja fiel ao que no outro é letra litoral (para usar um título de Eduardo Prado Coelho)- tão letra quanto litoral. Ou algo de preferência mais simples e forte do que estas boas intenções.
As minhas traduções de Sinéad Morrissey têm aparecido na Enfermaria 6, lugar, como sabemos, de frequência problemática (veja-se Tchekhov).
segunda-feira, 6 de abril de 2015
as súbitas permanências
MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia
E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia
E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
Manoel de Oliveira 1908-2015
domingo, 22 de março de 2015
sexta-feira, 6 de março de 2015
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
das palavras dos outros
A porta entre o jardim e a casa
geme como uma ave insólita
no meu tão parco ouvido.
Mas se uma ave a si mesmo a compara,
sim, ela canta, aviltando ou louvando,
e com a a alegria nas pupilas vivas *.
*Dante, Paraíso, II, 144
Eu levava nos braços o meu filho,
nascido há pouco, desconhecido.
Havia uma luz forte nas ruas,
havia risos, vozes chamavam nomes.
Então, além da esquina veio a mulher,
com o vestido preto, com o seu nada:
desconhecido filho, na casa mortuária.
(Acontecido em Maio de 1969)
A uma janela assoma
a clara madressilva;
a outra, as leves, verdes
folhas da tília.
Disputam o meu olhar.
Numa hora lutam
com varas de penumbra.
Noutra, ferem-se em tudo
o que cintila. E no fulgor
nocturno entram nos quartos,
vencendo a negra luz
que avança para os meus olhos.
fiama hasse pais brandão / in As Fábulas, Quasi Edições, 2002
DA PORTA DE UM POBRE PARAÍSO
A porta entre o jardim e a casa
geme como uma ave insólita
no meu tão parco ouvido.
Mas se uma ave a si mesmo a compara,
sim, ela canta, aviltando ou louvando,
e com a a alegria nas pupilas vivas *.
*Dante, Paraíso, II, 144
DA VERDADE
Eu levava nos braços o meu filho,
nascido há pouco, desconhecido.
Havia uma luz forte nas ruas,
havia risos, vozes chamavam nomes.
Então, além da esquina veio a mulher,
com o vestido preto, com o seu nada:
desconhecido filho, na casa mortuária.
(Acontecido em Maio de 1969)
MADRESSILVAS E TÍLIAS
A uma janela assoma
a clara madressilva;
a outra, as leves, verdes
folhas da tília.
Disputam o meu olhar.
Numa hora lutam
com varas de penumbra.
Noutra, ferem-se em tudo
o que cintila. E no fulgor
nocturno entram nos quartos,
vencendo a negra luz
que avança para os meus olhos.
Ines Seidel, in between
imagem vista aqui
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
processos sumários
FUMOS
Começa a noite a cair
visivelmente e as crianças
descobrem-se muito antigas
O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu
Nem só dos galhos tudo partia
era preciso apurar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e dobrados alfinetes
Torrões do mais fundo chegavam-se
para o lado da vida, enchiam
as mãos de frieiras, pétalas gretadas
No fim, os bons conselhos
enquanto ficavam a arrumar
crepes retintos e sudários
Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar
jmts
FUMOS
visivelmente e as crianças
descobrem-se muito antigas
O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu
Nem só dos galhos tudo partia
era preciso apurar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e dobrados alfinetes
Torrões do mais fundo chegavam-se
para o lado da vida, enchiam
as mãos de frieiras, pétalas gretadas
No fim, os bons conselhos
enquanto ficavam a arrumar
crepes retintos e sudários
Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar
jmts
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
das palavras dos outros
Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.
e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
tradução de manuel a. domingos
tradução de manuel a. domingos
POSTAIS
Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.
Doug Beube, série Vector
(2007)
imagem vista aqui
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















