london: swing
jmts
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
terça-feira, 20 de janeiro de 2015
processos sumários
FUMOS
Começa a noite a cair
visivelmente e as crianças
descobrem-se muito antigas
O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu
Nem só dos galhos tudo partia
era preciso apurar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e dobrados alfinetes
Torrões do mais fundo chegavam-se
para o lado da vida, enchiam
as mãos de frieiras, pétalas gretadas
No fim, os bons conselhos
enquanto ficavam a arrumar
crepes retintos e sudários
Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar
jmts
FUMOS
visivelmente e as crianças
descobrem-se muito antigas
O frio é apenas frio
empurra, solene, as estrelas
que riscam o breu
Nem só dos galhos tudo partia
era preciso apurar outras matérias
prender os fumos na lã das camisolas
com gestos delicados e dobrados alfinetes
Torrões do mais fundo chegavam-se
para o lado da vida, enchiam
as mãos de frieiras, pétalas gretadas
No fim, os bons conselhos
enquanto ficavam a arrumar
crepes retintos e sudários
Uma espécie de gaze na paisagem
os olhos condoídos em ferrugem
quase etérea, quase bela
faúlhas que ardiam ao voar
jmts
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
das palavras dos outros
Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.
e. ethelbert miller / in Falta de Ar, Medula, 2014
tradução de manuel a. domingos
tradução de manuel a. domingos
POSTAIS
Quando foi a última vez que enviaste um postal?
A minha mãe guardou todos os que lhe enviei. A minha irmã
enviou-mos quando a minha mãe morreu. Tinha-me esquecido
que escrevera tantas pequenas notas à minha mãe. O preço dos
selos estava constantemente a mudar. Dizia sempre que estava
a divertir-me. Lembro a primeira vez que menti à minha mãe.
Foi uma pequena mentira talvez do tamanho de um postal.
Tinha ido a um lugar aonde não era suposto ir. Disse à minha
mãe que estivera na biblioteca mas tinha estado com a Judy
naquela tarde. A sua pequena mão dentro da minha mão. Começava
a sentir algo sobre o qual nunca conseguiria escrever para casa.
Doug Beube, série Vector
(2007)
imagem vista aqui
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
processos sumários
ACERCA DA PERFEIÇÃO
São importantes as memórias de infância
Escrevemos sempre a partir de exemplos
e, durante algum tempo, os factos
confirmavam a vida imaginada
Existia, nesse livro antigo, um fotógrafo
excelente, no lugar do nome estava escrito
anon, e era o mais distinto autor
Variedade pródiga das paisagens
flores explícitas, animais que estacavam
e exibiam o carácter selvagem
a nudez profunda e nua dos modelos
Os instrumentos da vida estavam
só cansados de trabalhos
e de dias, abriam-se em sol
e nas devidas sombras
Vem logo alguém esclarecer
tratava-se afinal de uma cifra abreviada
expediente para dizer anónimo
despojos da arte verdadeira
Segundo exemplo, a música
que nos soava muito para lá
do número divino, a esplêndida
sétima daquele a quem chamavam
o enorme mestre de Bona
Depressa se percebe que era versão
incompleta e, nos visíveis sulcos do vinil
acrescentaram um andamento
de uma oitava ainda não composta
Isto é, etiquetas que enganam
erros no momento de imprimir
Também se escrevem poemas
acerca da perfeição
jmts
ACERCA DA PERFEIÇÃO
São importantes as memórias de infância
Escrevemos sempre a partir de exemplos
e, durante algum tempo, os factos
confirmavam a vida imaginada
Existia, nesse livro antigo, um fotógrafo
excelente, no lugar do nome estava escrito
anon, e era o mais distinto autor
Variedade pródiga das paisagens
flores explícitas, animais que estacavam
e exibiam o carácter selvagem
a nudez profunda e nua dos modelos
Os instrumentos da vida estavam
só cansados de trabalhos
e de dias, abriam-se em sol
e nas devidas sombras
Vem logo alguém esclarecer
tratava-se afinal de uma cifra abreviada
expediente para dizer anónimo
despojos da arte verdadeira
Segundo exemplo, a música
que nos soava muito para lá
do número divino, a esplêndida
sétima daquele a quem chamavam
o enorme mestre de Bona
Depressa se percebe que era versão
incompleta e, nos visíveis sulcos do vinil
acrescentaram um andamento
de uma oitava ainda não composta
Isto é, etiquetas que enganam
erros no momento de imprimir
Também se escrevem poemas
acerca da perfeição
jmts
Emma McNally
visto aqui
quarta-feira, 17 de dezembro de 2014
música de anónimo
Música de Anónimo é um ciclo poético de que aqui se divulgou a maior parte dos textos, ao longo de meses. São os poemas que escrevi entre 2001 e 2009, anteriores a Anima e a O Lugar Que Muda o Lugar, ambos publicados na Língua Morta. Foram esses poemas o pretexto que fez criar este blogue, para que não ficassem apenas na sombra de uma gaveta ou no caderno de rabiscos e imagens, onde estavam, aliás, muito confortáveis.
Viajam agora para uma edição da Companhia das Ilhas, daqui a algum tempo. Gostam da liberdade de se mudarem de lugar e da ilusória sensação de serem perseguidos.
domingo, 7 de dezembro de 2014
o lugar que muda o lugar
Na página pessoal (aqui) acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de José Ángel Cilleruelo. A referência está incluída na sua recente publicação Almacén. Dietario de Lugares. Polibea, Madrid, 2014, pp. 53-56.
terça-feira, 11 de novembro de 2014
Piscinas
Convém saber de correntes e seus fundos
desenho de Ana Abreu
É água, apenas a serena água
feita de buracos negros, turvações
feita de buracos negros, turvações
flechas que rebrilham na sua quietude
Convém saber de correntes e seus fundos
da linha lisa que ao nadar arrasta
os limos da maré e a fricção das ondas
Mergulha-se num corpo que se afoga em nós
suspensa assim a vida nesses poços de água
jmts
sábado, 1 de novembro de 2014
das palavras dos outros
Qualquer tempo é um tempo duvidoso
gastão cruz / in O Pianista, Limiar, 1984
O TEATRO DAS CIDADES
Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco
Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens
Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago
O tempo cobre o céu que se enche de água
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco
Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens
Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago
O tempo cobre o céu que se enche de água
domingo, 26 de outubro de 2014
sábado, 18 de outubro de 2014
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Piscinas
desenho de Ana Abreu
O temporal agitará as piscinas
chegarão pequenos corvos, coloridos
pássaros nas escadas úteis, praticáveis
Vem da baleia branca o ronco das máquinas
estalam depois as barreiras, uma a uma
ceder de paredes, as sucessivas ondas
A água inteira será só a do mar
levando o mar, bandeiras, mínimos sinais
jmts
ana abreu
sábado, 20 de setembro de 2014
processos sumários
jmts
NIAGARA
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]
[Bert Stern, The Last Sitting, Marilyn]
Recuso esta imagem, faz lembrar
o quarto sossegado sobre a catarata
luz, abismo, os olhos presos
Seria isso um filme, os pássaros
despertavam muito cedo, uma cena
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim
Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
pronta para o tacto e as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas
no ponto onde acaba o retrato
Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
o quarto sossegado sobre a catarata
luz, abismo, os olhos presos
Seria isso um filme, os pássaros
despertavam muito cedo, uma cena
perfeita abandonada na versão final
Repetiam-se os sonhos, havia impermeáveis
de amarelo vivo entre as cordas de água
e sobravam sapatos alinhados nos cacifos
Só para que o corpo caísse lento
e elegante, de pedra em pedra
até ao derradeiro esparrinhar
Estava depois escrito o nome fim
Recuso-a com um dedo de sangue
se tudo é apenas a nudez mais despida
pronta para o tacto e as inocentes pisaduras
Sei que acham bela a gravidade
dos seios que começam a pender
o aproximar das pernas unidas
no ponto onde acaba o retrato
Adereços que daqui a pouco
digamos, seis semanas
se vão desvanecer
deixando alguma espuma
jmts
Bert Stern
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
das palavras dos outros
rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014
CORTES
Sobre
a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza
cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para
dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e
encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas,
quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um
frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão
absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso
que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.
segunda-feira, 14 de julho de 2014
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013
teorias portáteis sobre fotografia
Pascal Anders ou Da
Ocupação dos Lugares
Pascal Anders
New York
City, 2010
Alphabet City, 2011Paris Est Tout Petit., 2011
Lothringen, 2013
São quatro dos livros do fotógrafo (ver aqui). Edições de autor,
chegam-nos pelo correio, em envelopes sóbrios mas personalizados, tamanho de
bolso. O grafismo é depurado e de discreto efeito, e podemos encontrar
elementos adicionais: provas numeradas, a reprodução de um postal ilustrado. Estes
ensaios fotográficos perseguem a comunicação, buscam novos leitores e olhares,
há neles um efeito claro de imersão no mundo, mas sem comprometer a busca e o
rigor estéticos. São convites a aproximarmo-nos dos lugares e a conhecê-los- contudo,
estamos nos antípodas do guia turístico ou de qualquer amena deambulação.
Impõe-se uma distinta personalidade fotográfica nestes
livros que reinventam a estética da “street photography” (particularmente os
ensaios dedicados a Nova Iorque e a Paris) ou o inquérito de matriz
sociológica, em que uma aparente neutralidade do olhar procura revelações e
intensidades (em Alphabet City e, de
forma mais evidente, em Lothringen).
Percorridos em conjunto, explicam-nos e exemplificam
diferentes estratégias dessa arte maior da fotografia que é a da ocupação dos lugares, e que se iniciou
quando Louis Daguerre, num dia de 1839, experimentando uma nova tecnologia,
decide dirigir a sua atenção para o Boulevard
du Temple, em Paris. E lá estavam
uma paisagem urbana, pelo menos dois figurantes humanos, uma ordem social, a
vida que já corria.
Em New York City
(2010), depois da plácida panorâmica inicial, transposto o rio, vamos
penetrar na silhueta negra da cidade. As fotografias ocupam todo o espaço das
páginas duplas e não vão permitir que o olhar serene. O contraste é muito
forte, temos algumas chapas de luz e o gelo das sombras. Estabelece-se uma
atmosfera que apetece chamar de bárbara beleza, um tanto subsidiária da
estética cinematográfica de uma câmara de mão.
Estamos sempre demasiado próximos, como se nos fosse
retirada a hipótese de um tempo de reacção e nos surpreendesse a vertigem de um
lugar. O fotógrafo expulsa-nos de todo o espaço de conforto e a composição das
imagens privilegiará os planos inclinados, as perspectivas instáveis.
Estas fotografias colocam-nos a questão de gerir o
caos, de compreendê-lo ou sobreviver-lhe, envolvidos que estamos por uma
multiplicidade de índices sociais e até raciais. Há em tudo uma pulsação
simultaneamente pública e íntima e o mapa da cidade parece fazer-se de uma
espécie de densa esgrima de olhares. Os “graffiti” surgem como se fossem
verdades instantâneas e precárias, surpreendendo o espectador em busca de uma
sintaxe e de um sentido para os elementos aleatórios da cidade. É uma estética
que se faz de vedações, gradeamentos, linhas divisórias,
perímetros de segurança, e em que circulam figuras que nos aparecem frequentemente a três
quartos, no celebrado e dinâmico “plano americano”.
O livro sugere-nos um devaneio final: a noite cai,
envolve o Chrysler Building; a banda
sonora será de um jazz trepidante, com um solo áspero e lírico; e, se na última
imagem lemos (enfim) “peace”, é apenas uma palavra de difícil e ilusória
interpretação.
Em Paris Est Tout Petit. (2011)
encontramos grandes afinidades com o livro dedicado a Nova Iorque, mas o efeito
global é substancialmente diferente. De alguma forma, passamos de um ponto de
vista exterior para a tentativa de sugerir a instalação num lugar íntimo ou
natal. É como se captássemos em duas grandes metrópoles o seu timbre
distintivo, um personalizado mas indefinível modo de existir e de se
manifestar. (Novo delírio: ouvimos agora “Gymnopédies” de Eric Satie, uma banda sonora para caminhar com serenidade,
languidez e algum sobressalto.)
quinta-feira, 26 de junho de 2014
# Em Agenda #
Amadeu
Baptista | Andreia C. Faria | Catarina Santiago Costa | César Rina |
Daniel Francoy | Dirceu Villa | Duarte D. Braga | Emanuel Amorim |
Fernando Guerreiro | Isabel Milhanas Machado | João Miguel Henriques |
João Moita | José Manuel Teixeira da Silva | Luís Ene | Manuel A.
Domingos | Miguel Cardoso | Nuno Brito | Patrícia Lino | Paulo Kellerman
| Paulo Rodrigues Ferreira | Raquel Nobre Guerra | Rui Almeida | Samuel
Filipe | Tatiana Faia | Victor Gonçalves | Victor Heringer | György
Petri / João Miguel Henriques et al (trad.) | Nick Laird / Hugo Pinto Santos (trad.) | Salvatore Quasimodo / João Barcelos Coles (trad.) | Cassandra Jordão
Capa: João Alves Ferreira
Enfermaria 6, Lisboa, Junho de 2014, 124 pp.
Uma versão impressa
deste livro pode ser comprada na Fyodor Books ou
enviando encomenda
para enfermariaseis@gmail.com.
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