poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quarta-feira, 2 de abril de 2014

processos sumários

 

DISCRETA NATAÇÃO

Tudo sempre coincidiu
para lá de toda a coincidência

Dizias, eis as lágrimas
e havia chuva ou uma faca de
luz dentro dos olhos

Ficavas calado no jardim
para que usassem pássaros
o teu silêncio
Afinavam pela rouquidão terrestre
quando as folhas imitavam o ar
desenhando o vento inteiro

Entretanto, elaboravam as nuvens
castelos de que fugiam, esse modo
de apenas desaparecerem no mar

A mesma água oferecia o brilho dos peixes
e a discreta natação dos afogados


jmts



publicado em Cintilações da Sombra 2
antologia poética, Labirinto, 2014



Emma McNally
visto aqui










quarta-feira, 19 de março de 2014

processos sumários



Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




1.

Está ali o mar, ninguém nos ensina
aprendemos muito de repente
e muito devagar

Seguimos esquecidas instruções
recolher o que dá à praia
(assim se diz), o que fica
a morrer, entre a primeira
e a derradeira água

Vibrasse ainda num saco
de improvável transparência
e seria milagre (é o termo)
essa mesma e
remota ondulação

Um tudo nada mais tarde
o distraído fervor das etiquetas

jmts







 ana abreu








sábado, 15 de março de 2014

# Em Agenda #








Será lançada no dia 21 de Março a antologia poética Cintilações da Sombra 2 (editora Labirinto), com coordenação de Victor Oliveira Mateus e capa de Nuno Ascenção. Inclui colaboração de poetas de Portugal, Brasil, Moçambique, Macau, Espanha, Costa Rica e Bulgária. A apresentação, a ocorrer no Auditório Maestro Frederico de Freitas da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, será da responsabilidade de António Carlos Cortez, com leitura de poemas por Eugénia Bettencourt.
 






Adalberto Alves, Albano Martins, Alfredo Pérez Alencart, Alice Fergo, Alice Vieira, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Ana Zanatti, António Carlos Cortez, António José Queirós, António Salvado, Artur F. Coimbra, Astrid Cabral, Carlos Afonso, Carlos Vaz, Cecília Barreira, Cláudio Lima, daniel gonçalves, Delmar Maia Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Gabriela Rocha Martins, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Inez Andrade Paes, Isabel Miguel, Ivone Mendes da Silva, Jaime Rocha, João de Mancelos, João Rasteiro, Jorge Velhote, José Acácio Almeida, José Agostinho Baptista, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José Jorge Letria, José Manuel Teixeira da Silva, Juan Carlos Olivas, Licínia Quitério, Luís Filipe Sarmento, manuel a. domingos, Manuel Silva-Terra, Marcela Filippi Plaza, Marcus Fabiano Gonçalves, Maria Augusta Silva, Maria do Rosário Pedreira, Maria João Cantinho, Maria Toscano, Marta López Vilar, Miguel Veyrat, Paulo Franchetti, Pompeu Miguel Martins, Ricardo Domeneck, Ricardo Gil Soeiro, Rita Moutinho, Rita Taborda Duarte, Ronaldo Cagiano, Rui Rocha, Rui Tinoco, Santiago Aguaded Landero, Teresa Rita Lopes, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus e Violeta Boncheva
.
.





domingo, 23 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







fernando guimarães / in Lições de Trevas, Quasi Edições, 2002




 CEMITÉRIO INGLÊS DE ELVAS (SÉCULO XIX)


Quase todos são soldados. Aqui chegaram trazidos
por uma espécie de acaso e os seus olhos de repente fecharam-se
para encontrarem este espaço murado. Não há muitas flores. Nele
as lápides dão-nos algumas informações. Vieram de longe
e traziam consigo uma pequena luz. Esta apagou-se. Ficaram só escritos
alguns dos seus nomes; pouco se conhece acerca da viagem
que tinham iniciado. Se chega o vento, ainda traz consigo a poeira
de alguns combates. Foi há muitos anos, mas para eles o tempo
não passa porque se encontram sozinhos. É muito o que a areia
espalhada à sua volta nos oculta. Há um portão entreaberto. Por ele
entrámos e havemos de sair. Não temos pressa. Qualquer
uma das nossas mãos podia estender-se, colher o que talvez fosse
apenas uma sombra. Eles estão ali para nos dar qualquer coisa.






 Philippa Jones





imagem vista aqui



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ouvem-se Vozes


   
Álvaro de Campos / Dactilografia
in Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Edições Ática, 1986   

leitura: JMTS


  

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







joão cabral de melo neto / in Agrestes, Nova Fronteira,1985




 LEMBRANÇA DO PORTO DOS CAVALOS


O incenso e fumos não sagrados
o cheiro nunca dispensaram

da lama, folhas de ingazeira,
monturo e lixo, da Jaqueira.

A maré-baixa e a maré-cheia
recobrem, tiram da panela,

essa infusão que o sol destila
no meu álcool, minha bebida.

Não tem do fumo o cheiro enxuto,
cheira entre o que é vivo e o corruto,

cheira na linha da poesia:
entre o defunto e o suor de vida.


    





 winn bullock






sábado, 18 de janeiro de 2014

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui e aqui




A magnólia é a poesia
[Luiza Neto Jorge, Daniel Faria, Luís Quintais]




Shohei Hanazaki


Roland Barthes em Lição: « É porque a literatura põe em cena a linguagem, em vez de simplesmente a utilizar, que engrena o saber no mecanismo da reflexividade infinita: através da escrita o saber reflecte continuamente sobre o saber, segundo um discurso que já não é epistemológico, mas dramático.»

Assim é, por maioria de razão, com a poesia. Pense-se no "poetodrama" ou no "drama em gente"  pessoanos (para retomar as expressões de José Augusto Seabra), em que vemos a poesia sistematizar e potenciar essa sua vocação. Pense-se também naquilo que nos dizem três poetas sobre uma magnólia (ver textos abaixo)- Luiza Neto Jorge, Daniel Faria e, finalmente, Luís Quintais, cujo poema despoletou em mim a consciência de um sucessivo reenvio de saberes entre textos. Tal acontece de um modo tão fulgurante que, a partir de um certo ponto, o Tempo se lê apenas no tempo dos poemas. Não faz, então, sentido procurar quem inicia as falas, quem pergunta ou quem responde.

A magnólia começa por existir (ali está ela) e expõe a sua beleza e intensidade- digamos assim, para simplificar. Mas, justamente, os poemas não simplificam e neles vemos três modos diferentes de usar e conceber a poesia.

No poema de Luiza Neto Jorge é como se essa existência exaltasse o próprio existir de todas as existências, o que faz dela o "acontecimento mestre". Tudo se despoleta a partir daquela vocação da poesia que nos dá a "exaltação do mínimo", do mais discreto que justifica a vida, para lá de todos os valores e construções sociais. Assim preconizava, aliás, Ricardo Reis, que sabe também, poeticamente, de magnólias: «Prefiro rosas, meu amor, à pátria, / E antes magnólias amo / Que fama e que virtude.» Luiza exemplifica no seu texto o devir magnólia do poema e do sujeito. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 o lugar que muda o lugar



Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados sobre  As Súbitas Permanências e Anima uma reflexão de Pedro Meneses a partir de O Lugar que Muda o Lugar.

Pedro Meneses é autor do blogue Crueza Bruta.



 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

das palavras dos outros






daniel jonas / in Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013



 VELHO MESTRE


O silêncio
de um fruto sobre a mesa,
apenas ferido
por um gume de luz
no meridiano.

Mas nenhuma ameaça,
nem o arnês de dedos
formando-se no horizonte,
apenas o golpe do sol
afiado na vidraça.

Um fruto
é um velho mestre
esperando na luz
as trevas
do amadurecimento.




humberto rivas




    



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013


# Em Agenda #







na capa - desenho de   Daniela Gomes










[250 exemplares, 92pp. 12€]
pedidos:edlinguamorta@gmail.com




 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

o lugar que muda o lugar





O exemplo dos bichos de prata


Recorrer com método à diversa
sabedoria de chegar-se ao mundo
maneiras de comer os frutos

Diz-se, muito de manhã é ouro
à tarde apenas prata, à noite
mata mesmo, literalmente

Esta prata, a dos preciosos bichos
sombrios na cidade dos livros
e eis aqui uma imagem

Difícil sabermos da metafórica
anatomia, carregá-la apenas
e um dia arrastará o nosso
corpo íntimo e exposto

Miméticas qualidades, devorar
os papéis propriamente ditos
fixar a transparência na lâmina
das páginas, rasgões, algum sangue
e os fósseis de grafite como
românticas flores esmagadas

Há-de vir, do desvão das estantes
o último apuro da expressão
ficar como pura pedra
esgarçar na nervura do ar
em vibrante iluminura final
tudo arder em graus fahrenheit


 
JMTS 






em
O LUGAR QUE MUDA O LUGAR
[150 exemplares, 64 
pp., 11€]
pedidos:
edlinguamorta@gmail.com



Língua Morta 041 (aqui)



terça-feira, 26 de novembro de 2013

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

o coração vertiginoso e a lentidão do mundo







  












fritz lang . you only live once . 1937
com Henry Fonda e Sylvia Sidney


O cinema. A sabida intensidade narrativa. O poder da montagem. Mas não esquecer a arte da suspensão da vida entre temporais, momentos que insistem, o que existe "outrora agora" (cf. Pessoa). As vivas aparições, arquétipos que afinal respiram.








Retomo hoje a etiqueta 
"o coração vertiginoso e a lentidão do mundo" (aqui), 
em torno do cinema. A imagem foi recolhida aqui.


 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

o lugar que muda o lugar





J. W. Goethe Contempla o Jogo das Nuvens


Será eterna música das esferas
mas é incerto em demasia o estado do tempo
e excessiva a concentração
de corpos atmosféricos

Stratus, cumulus, cirrus, nimbus
tivéssemos nomes iguais a nuvens
e alcançássemos matérias rarefeitas
acumulações do lugar, o que está sempre 
por detrás, e antes, muito longe

Poetas, meteorologistas, hóspedes das termas
procurando ansiosamente o barómetro
ficamos a contemplar o mais alto vapor
em objectos difusos e na palidez dos céus 
as figuras onde tudo repousasse

Encharca-nos obscura vocação
perder uma nuvem após a outra
perseguir entre atalhos de luz 
a lógica selvagem da tempestade

Já falta pouco, o éter sublime
será apenas o manto branco
que oculta telhados, esterco, vedações
e não consegue deter o louco cata-vento

É ele quem afinal se explica  
com palavras sufocadas
deixa pedaços do mundo
a estremecer a janela

 
JMTS 







em
O LUGAR QUE MUDA O LUGAR
[150 exemplares, 64 
pp., 11€]
pedidos:
edlinguamorta@gmail.com



Língua Morta 041 (aqui)




domingo, 20 de outubro de 2013

das palavras dos outros






egito gonçalves / in O Pêndulo Afectivo, Porto, Afrontamento, 1991




 AFOGADO NO RIO LEÇA


Vogavas entre duas águas com o corpo torcido
e a corrente impelia-te, vagarosamente, para a foz.
O coração batia mas já não respiravas;
a morte instalava-se no teu corpo molhado.

Devagar montava a máquina dos sonhos,
devagar armava-te as futuras asas.

No mar afundavam-se os símbolos da tarde;
enovelado, sem poesia, asfixiavas,
descendo o rio em direcção à noite,
descendo o rio em direcção à liberdade.

As unhas violáceas, os cabelos flutuando,
o sangue estrangulado, a fome liquefeita...

Então, como a um menino, alguém te conduziu para a margem relvada.
A Morte sentou-se a ver os trabalhos de respiração artificial,
depois disse-te «Adeus», acenou-te «Até breve»,
e aproveitou a ambulância que te levava ao hospital
para ir mais depressa à sua vida.

1951







 m. álvarez bravo







quarta-feira, 9 de outubro de 2013

# Em Agenda #



 


Leituras de Susana Guimarães 





* Mapa e itinerários para o Solar poderão ser consultados em       http://binged.it/1bsj8vx 
* GPS: 41.0720454 -8.5986292 (coord. decimais)    GPS: 41° 4' 19.327" N 8° 35' 55.046" W (coord. angulares) 


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

lugar que muda o lugar








O LUGAR QUE MUDA O LUGAR
[150 exemplares, 64 
pp., 11€]
pedidos:

edlinguamorta@gmail.com


Língua Morta 041 (aqui)

 

  

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




Ramos Rosa: poesia, liberdade livre

Há em alguns um modo raro de escrever a vida e de viver a poesia. É um caminho muito estreito e assim deslumbrado. 



André Letria


O poeta moderno descobre e denuncia a alienação total de um mundo cruel e desumano. Não há lugar, não só para o poeta e para a poesia, "não há lugar" simplesmente: a possibilidade de uma respiração livre e fraterna , de uma harmonia viva, apenas se propõe no exercício da poesia, no grito que ela é. A poesia descobre-se com Rimbaud "liberté libre", mas infernal. 

Poesia, Liberdade Livre,  col. O Tempo e o Modo, Livraria Morais Editora, 1962




Onde estou aqui quisera estar
monotonamente ardente
serenamente vivo
animal da fábula doméstica
concreto sob a materna sombra
fiel ao fundo do tempo
e de mim mesmo

O livro da Ignorância, Signo, 1988







outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui 

terça-feira, 3 de setembro de 2013

das palavras dos outros






seamus heaney / in Death of a Naturalist
 [ Antologia Poética . Seamus Heaney. selecção e tradução de Vasco  Graça Moura , Campo das Letras, 1998]



HELICON PESSOAL
para Michael Longley

Em pequeno, ninguém me tirava da beira
de poços, velhas bombas com roldana e balde.
Amava o escuro gotejar, o céu cativo, onde cheira
a ervas, fungos, musgo, relentos de humidade.

Numa tijolaria, havia um de tampo podre. Como
sabia o rico choque de um balde que baixava
na ponta de uma corda assim a prumo!
Tão fundo que nem um só reflexo dava.

Um, menos alto, sob o rebordo, ia
frutificando como aquário. E a quem puxasse
longas raízes da rede húmida e macia,
sobre o fundo boiava a branca face.

Outros tinham ecos, a devolver a voz sem faltas
em limpo e novo som. E era um puro susto
porque lá, entre os fetos e as dedaleiras altas,
no meu reflexo um rato dava um sacão brusco.

Agora, espreitar entre raízes, dedilhar o limo,
olhar, Narciso de olhos grandes, uma nascente, não
é digno de um adulto. Eu rimo
para me ver, para dar eco à escuridão.




 george konig

"Two sewer workers examine the Fleet sewer, London, 
at low water level, 14 January, 1914"








sexta-feira, 23 de agosto de 2013

das palavras dos outros






fernando echevarría / in Sobre os mortos, Afrontamento, 1991



O corpo dos defuntos é enigmático:
não tem além de si, nem dentro.
Nada se lê no seu volume. O pacto
substante que sustenta o pensamento
cedeu lugar a um vácuo
a dar somente para estar cedendo.
O corpo dos defuntos é enigmático
porque o enigma, nele, perdeu seu peso.

*

Das figuras amadas fica o eco
da sua refulgência de figuras.
São quase mágoa de sítio
em que, havendo-se já apagado a lua,
brilhasse ainda o vácuo
duma presença para sempre nula.
E, contudo, o firmamento
se ilumina das máculas nocturnas
desses ecos amados entre lágrimas
na sua refulgência de figuras.






hervé guibert