poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quinta-feira, 22 de maio de 2014

processos sumários


Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




3.

Do mar a transparência
que a água em si retém
recomeçada e turva

O que partiu revela
outras densidades
(memórias e antenas)
apura íntimas correntes
como se em tudo regressasse

Ou fica por colecções
de etiquetas e figuras
esperando matérias carcomidas
(da maresia os ossos pequeninos)
e haverá quem diga que

ninguém nos ensina
e está ali o mar


jmts






 ana abreu





quinta-feira, 15 de maio de 2014

o lugar que muda o lugar



Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados uma nova leitura sobre  O Lugar que Muda o Lugar, da autoria de Fernando Guimarães. A referência está incluída na sua habitual Crónica de Poesia, que publica no JL (Jornal de Letras, Artes e Ideias), num artigo cujo título é "O lugar e a terra".







terça-feira, 6 de maio de 2014

processos sumários


Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




2.

O distraído fervor das etiquetas
destino sumário das coisas
suspensas e atadas

Nem sabemos se as hastes vivas
agitam o desespero
(flores da água) ou sequer
suspeitam de quanto jaz
na rotação do mundo

Calaremos as ondas que batem
(assunto arrumado), são agora 
trabalhos de inspiração e asfixia
deixar cegos os nós, as cataratas
como seixos que encham os olhos

Fosse esta memória
do mar a transparência


jmts






 

 ana abreu










domingo, 27 de abril de 2014

processos sumários

 


PROCESSOS SUMÁRIOS

São processos sumários
que nos levam aos quartos

Há uma espécie de pendor oblíquo
das ruas, sequências de aguaceiros
grandes calmas, o que nos cerca
quando o dia cai inteiro

Esqueceremos o nome mais antigo
apagamo-lo dentro do lugar, regressa
com as luzes, alguém assim o traz
falando de outra coisa

Tudo existe em flagrante
estamos à janela e vemo-nos
chegar, súbitas travagens
ambulâncias, apitos que chamam
do mar muito em criança

Escolheremos o sítio para a mesa
os breves desenhos entre cadeiras
questão de começar os inventários
saber do que insiste nas paredes
se música dos céus, rumor dos
canos, apenas o modo como
o mundo se avaria

Em todo o caso, cuidaremos desse leito
da dobra fria dos lençóis, difícil
a posição das mãos, a travessia
para o demasiado sono


jmts



publicado em Quarto de Hóspedes
volume colectivo, Língua Morta, 2013 (aqui)





Emma McNally
visto aqui







domingo, 13 de abril de 2014

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia

 



A Fotografia de José Melim ou Uma Questão de Tempo

[introdução a  José Melim, Instantes, Mindaffair, 2014]


© fotografias de José Melim



 O título do texto com que José Melim introduz este excelente conjunto de fotografias salienta o que me parece ser o núcleo essencial do seu trabalho- trata-se, realmente, de uma questão de tempo, até na medida em que está em jogo uma arte de viver, isto é, de passar o nosso tempo no mundo, testemunhando-o e merecendo-o.

Antes de mais, é esta uma prática fotográfica que se apossa do tempo do espectador, contrariando os hábitos dominantes de consumo acelerado e frívolo das imagens. Tal só acontece porque o fotógrafo dá também tempo ao tempo, nessa decisão prolongando os gestos primordiais da História da Fotografia: o caçador de imagens, colado ao mundo, está atento aos avisos em redor e assume a postura dos felinos em expectativa do instante fulminante. Não encontramos aqui os rituais contemporâneos que alienam o real e, com ele, o precioso atrito da relação do homem com o mundo, substituindo-os pelo simulacro da acumulação espectacular das imagens. Neste sentido, o presente livro de fotografias é o resultado de duas operações exercidas sobre o tempo.

Pelo seu carácter antológico, tem em si inscrito o apuro que resulta de uma selecção (que se suspeita dramática) de entre um extenso corpus fotográfico produzido ao longo de décadas, e que atravessa, inclusivamente, a fronteira entre o analógico e o digital. Perante o modo de existir destas imagens, temos a intuição de que o fotógrafo preferiria às suas decisões o escrutínio do tempo, que é, como diz Marguerite Yourcenar, “esse grande escultor”. ¹

Mas a imersão na temporalidade é, num outro plano, o diálogo deste livro com a História da Fotografia. Instantes ilustra, com virtuosismo e sistematicidade, a própria “gramática” do processo fotográfico que é, em si mesma, um produto histórico, e isto porque estamos perante um observador que, se merece os acasos da sorte, é sobretudo consciente do que está a fazer, como, aliás, testemunha o seu texto introdutório. Neste assumir da História da Fotografia, e porque, como nos diz logo em epígrafe o autor, não há um olhar que possa ser inocente, denuncia-se um essencial classicismo estético, baseado em valores como o equilíbrio e a harmonia universais ou, noutra perspectiva, perseguindo a captação de uma essência, na qual o mundo se viesse aquietar com as suas formidáveis energias. Prescinde-se, sem remorsos, de muitas das pulsões da fotografia contemporânea: a neutralidade analítica, o inquérito social ou humanista, a aridez conceptual, a deriva de um registo confessional.



Arriscaria dizer que estas imagens se situam, maioritariamente, e com extremo rigor e sensibilidade, no cruzamento de duas estéticas fotográficas consagradas, que poderíamos, por comodidade, revelar a partir das lições paradigmáticas de Ansel Adams e Henri Cartier-Bresson.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

processos sumários

 

DISCRETA NATAÇÃO

Tudo sempre coincidiu
para lá de toda a coincidência

Dizias, eis as lágrimas
e havia chuva ou uma faca de
luz dentro dos olhos

Ficavas calado no jardim
para que usassem pássaros
o teu silêncio
Afinavam pela rouquidão terrestre
quando as folhas imitavam o ar
desenhando o vento inteiro

Entretanto, elaboravam as nuvens
castelos de que fugiam, esse modo
de apenas desaparecerem no mar

A mesma água oferecia o brilho dos peixes
e a discreta natação dos afogados


jmts



publicado em Cintilações da Sombra 2
antologia poética, Labirinto, 2014



Emma McNally
visto aqui










quarta-feira, 19 de março de 2014

processos sumários



Alguns sacos de água 
com seres que vieram da prai
                
                                                             desenhos de Ana Abreu




1.

Está ali o mar, ninguém nos ensina
aprendemos muito de repente
e muito devagar

Seguimos esquecidas instruções
recolher o que dá à praia
(assim se diz), o que fica
a morrer, entre a primeira
e a derradeira água

Vibrasse ainda num saco
de improvável transparência
e seria milagre (é o termo)
essa mesma e
remota ondulação

Um tudo nada mais tarde
o distraído fervor das etiquetas

jmts







 ana abreu








sábado, 15 de março de 2014

# Em Agenda #








Será lançada no dia 21 de Março a antologia poética Cintilações da Sombra 2 (editora Labirinto), com coordenação de Victor Oliveira Mateus e capa de Nuno Ascenção. Inclui colaboração de poetas de Portugal, Brasil, Moçambique, Macau, Espanha, Costa Rica e Bulgária. A apresentação, a ocorrer no Auditório Maestro Frederico de Freitas da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa, será da responsabilidade de António Carlos Cortez, com leitura de poemas por Eugénia Bettencourt.
 






Adalberto Alves, Albano Martins, Alfredo Pérez Alencart, Alice Fergo, Alice Vieira, Amadeu Baptista, Ana Luísa Amaral, Ana Maria Puga, Ana Zanatti, António Carlos Cortez, António José Queirós, António Salvado, Artur F. Coimbra, Astrid Cabral, Carlos Afonso, Carlos Vaz, Cecília Barreira, Cláudio Lima, daniel gonçalves, Delmar Maia Gonçalves, Ernesto Rodrigues, Gabriela Rocha Martins, Gisela Ramos Rosa, Gonçalo Salvado, Henrique Manuel Bento Fialho, Inês Lourenço, Inez Andrade Paes, Isabel Miguel, Ivone Mendes da Silva, Jaime Rocha, João de Mancelos, João Rasteiro, Jorge Velhote, José Acácio Almeida, José Agostinho Baptista, José Ángel Garcia Caballero, José do Carmo Francisco, José Emílio-Nelson, José Jorge Letria, José Manuel Teixeira da Silva, Juan Carlos Olivas, Licínia Quitério, Luís Filipe Sarmento, manuel a. domingos, Manuel Silva-Terra, Marcela Filippi Plaza, Marcus Fabiano Gonçalves, Maria Augusta Silva, Maria do Rosário Pedreira, Maria João Cantinho, Maria Toscano, Marta López Vilar, Miguel Veyrat, Paulo Franchetti, Pompeu Miguel Martins, Ricardo Domeneck, Ricardo Gil Soeiro, Rita Moutinho, Rita Taborda Duarte, Ronaldo Cagiano, Rui Rocha, Rui Tinoco, Santiago Aguaded Landero, Teresa Rita Lopes, Vera Lúcia de Oliveira, Vergílio Alberto Vieira, Victor Oliveira Mateus e Violeta Boncheva
.
.





domingo, 23 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







fernando guimarães / in Lições de Trevas, Quasi Edições, 2002




 CEMITÉRIO INGLÊS DE ELVAS (SÉCULO XIX)


Quase todos são soldados. Aqui chegaram trazidos
por uma espécie de acaso e os seus olhos de repente fecharam-se
para encontrarem este espaço murado. Não há muitas flores. Nele
as lápides dão-nos algumas informações. Vieram de longe
e traziam consigo uma pequena luz. Esta apagou-se. Ficaram só escritos
alguns dos seus nomes; pouco se conhece acerca da viagem
que tinham iniciado. Se chega o vento, ainda traz consigo a poeira
de alguns combates. Foi há muitos anos, mas para eles o tempo
não passa porque se encontram sozinhos. É muito o que a areia
espalhada à sua volta nos oculta. Há um portão entreaberto. Por ele
entrámos e havemos de sair. Não temos pressa. Qualquer
uma das nossas mãos podia estender-se, colher o que talvez fosse
apenas uma sombra. Eles estão ali para nos dar qualquer coisa.






 Philippa Jones





imagem vista aqui



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ouvem-se Vozes


   
Álvaro de Campos / Dactilografia
in Poesias de Álvaro de Campos, Lisboa, Edições Ática, 1986   

leitura: JMTS


  

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







joão cabral de melo neto / in Agrestes, Nova Fronteira,1985




 LEMBRANÇA DO PORTO DOS CAVALOS


O incenso e fumos não sagrados
o cheiro nunca dispensaram

da lama, folhas de ingazeira,
monturo e lixo, da Jaqueira.

A maré-baixa e a maré-cheia
recobrem, tiram da panela,

essa infusão que o sol destila
no meu álcool, minha bebida.

Não tem do fumo o cheiro enxuto,
cheira entre o que é vivo e o corruto,

cheira na linha da poesia:
entre o defunto e o suor de vida.


    





 winn bullock






sábado, 18 de janeiro de 2014

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia

outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui e aqui




A magnólia é a poesia
[Luiza Neto Jorge, Daniel Faria, Luís Quintais]




Shohei Hanazaki


Roland Barthes em Lição: « É porque a literatura põe em cena a linguagem, em vez de simplesmente a utilizar, que engrena o saber no mecanismo da reflexividade infinita: através da escrita o saber reflecte continuamente sobre o saber, segundo um discurso que já não é epistemológico, mas dramático.»

Assim é, por maioria de razão, com a poesia. Pense-se no "poetodrama" ou no "drama em gente"  pessoanos (para retomar as expressões de José Augusto Seabra), em que vemos a poesia sistematizar e potenciar essa sua vocação. Pense-se também naquilo que nos dizem três poetas sobre uma magnólia (ver textos abaixo)- Luiza Neto Jorge, Daniel Faria e, finalmente, Luís Quintais, cujo poema despoletou em mim a consciência de um sucessivo reenvio de saberes entre textos. Tal acontece de um modo tão fulgurante que, a partir de um certo ponto, o Tempo se lê apenas no tempo dos poemas. Não faz, então, sentido procurar quem inicia as falas, quem pergunta ou quem responde.

A magnólia começa por existir (ali está ela) e expõe a sua beleza e intensidade- digamos assim, para simplificar. Mas, justamente, os poemas não simplificam e neles vemos três modos diferentes de usar e conceber a poesia.

No poema de Luiza Neto Jorge é como se essa existência exaltasse o próprio existir de todas as existências, o que faz dela o "acontecimento mestre". Tudo se despoleta a partir daquela vocação da poesia que nos dá a "exaltação do mínimo", do mais discreto que justifica a vida, para lá de todos os valores e construções sociais. Assim preconizava, aliás, Ricardo Reis, que sabe também, poeticamente, de magnólias: «Prefiro rosas, meu amor, à pátria, / E antes magnólias amo / Que fama e que virtude.» Luiza exemplifica no seu texto o devir magnólia do poema e do sujeito. 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

 o lugar que muda o lugar



Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados sobre  As Súbitas Permanências e Anima uma reflexão de Pedro Meneses a partir de O Lugar que Muda o Lugar.

Pedro Meneses é autor do blogue Crueza Bruta.



 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

das palavras dos outros






daniel jonas / in Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013



 VELHO MESTRE


O silêncio
de um fruto sobre a mesa,
apenas ferido
por um gume de luz
no meridiano.

Mas nenhuma ameaça,
nem o arnês de dedos
formando-se no horizonte,
apenas o golpe do sol
afiado na vidraça.

Um fruto
é um velho mestre
esperando na luz
as trevas
do amadurecimento.




humberto rivas




    



quinta-feira, 19 de dezembro de 2013


# Em Agenda #







na capa - desenho de   Daniela Gomes










[250 exemplares, 92pp. 12€]
pedidos:edlinguamorta@gmail.com




 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

o lugar que muda o lugar





O exemplo dos bichos de prata


Recorrer com método à diversa
sabedoria de chegar-se ao mundo
maneiras de comer os frutos

Diz-se, muito de manhã é ouro
à tarde apenas prata, à noite
mata mesmo, literalmente

Esta prata, a dos preciosos bichos
sombrios na cidade dos livros
e eis aqui uma imagem

Difícil sabermos da metafórica
anatomia, carregá-la apenas
e um dia arrastará o nosso
corpo íntimo e exposto

Miméticas qualidades, devorar
os papéis propriamente ditos
fixar a transparência na lâmina
das páginas, rasgões, algum sangue
e os fósseis de grafite como
românticas flores esmagadas

Há-de vir, do desvão das estantes
o último apuro da expressão
ficar como pura pedra
esgarçar na nervura do ar
em vibrante iluminura final
tudo arder em graus fahrenheit


 
JMTS 






em
O LUGAR QUE MUDA O LUGAR
[150 exemplares, 64 
pp., 11€]
pedidos:
edlinguamorta@gmail.com



Língua Morta 041 (aqui)