jmts
domingo, 28 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
das palavras dos outros
antónio ramos rosa / in Três Lições Materiais, Kairos, 1989
Energia verde das árvores que torna todo o amor verde e os próprios esqueletos verdes. Os corpos constroem a sua destruição horizontal como rios verdes: para além da morte: no gérmen verde.
*
Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.
josef sudek
quinta-feira, 27 de junho de 2013
das palavras dos outros
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
Fui resistindo a pôr aqui palavras poéticas dos outros. Não faz sentido: as nossas palavras são, de uma forma ou de outra, as palavras dos outros. Há, em transparência ou em camadas, o rascunho das nossas palavras e depois, quase a transbordar e às vezes em blocos de gelo impenetrável, o rio subterrâneo das palavras dos outros.
*
inês lourenço / in Coisas Que Nunca, Lisboa, & etc., 2010
SALA PROVISÓRIA
Nunca se sabe
quando estamos num lugarpela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.
henri cartier-bresson
quarta-feira, 12 de junho de 2013
ver . ver ponto
ver.
59 anotações fotográficas ed. autor / Blurb . dezembro 2012
78 pp. | capa mole | papel ProLine texturado
Uma reflexão fotográfica acerca do acto de ver.
78 pp. | capa mole | papel ProLine texturado
Uma reflexão fotográfica acerca do acto de ver.
As fotografias da série ver. , apresentadas em Súbito, deram corpo a um livro. É uma edição de autor, que neste vídeo se desfolha. A publicação foi preparada através da etiqueta BLURB, que disponibiliza ferramentas de edição e permite a impressão a pedido (print on demand).
quinta-feira, 30 de maio de 2013
o lugar que muda o lugar
Os poemas deste ciclo surgiram em Súbito meses a fio. Viajam agora para uma edição Língua Morta, daqui a algum tempo. Gostam da liberdade de se mudarem de lugar e da ilusória sensação de serem perseguidos.
pulse field . Emma McNally
visto aqui
segunda-feira, 20 de maio de 2013
ANIMA
poemas de J.M.T.S.trabalhos de Ana Abreu|Espaço(I)maculado

Animal que devora o próprio fim
a batata insiste, persiste nela
avança para onde não estará
distende as presas, garras de si mesma
e meninas bordam, dobram motivos
de humidade, quadros de bolor
o que vai vivendo nas naturezas mortas
a batata insiste, persiste nela
avança para onde não estará
distende as presas, garras de si mesma
e meninas bordam, dobram motivos
de humidade, quadros de bolor
o que vai vivendo nas naturezas mortas
As imagens de batatas e borboletas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia.
ANIMA está publicado nas edições LÍNGUA MORTA aqui
terça-feira, 14 de maio de 2013
# Em Agenda #
Está já publicado o nº 18 da revista DiVersos - Poesia e Tradução
(Fevereiro de 2013, edições Sempre-Em-Pé). Para além de originais de
poesia portuguesa, destacam-se traduções para português de poesia de
Albert Ayguesparse (Bélgica, trad. de A. Barros), Hölderlin (Alemanha,
trad. de Jorge Vilhena Mesquita) e Phillip Sterling (E.U.A. , trad. de
José Carlos Marques). Colaboro neste número com quatro textos do ciclo Música de Anónimo (poemas 2001-2009), ainda inédito em livro:
A janela do atelier de J. Sudek
Os cadernos de esboços de J. W. Turner
As raparigas de Capri em pintura de H. Pousão
G. Mahler na cabana junto ao lago
O projecto DiVersos, na ocasião da publicação deste número, será apresentado na próxima sexta-feira, 17 de Maio, pelas 18h15, no Palacete Viscondes de Balsemão, no Porto, à Praça Carlos Alberto. Lá estarei, com outros participantes, para falar sobre poesia, tradução, ler alguns textos. Se passarem pelo local nesse fim de tarde, será um bom pretexto de encontro.
segunda-feira, 29 de abril de 2013
oCorpodasLetras
Azulejo ou l' illusion visuelle
filme:Kolja Saksida (direcção e animação)
poema:excerto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos(Tabacaria)
música:Mário Trovador
Azulejo ou l' illusion visuelle
poema:excerto de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos(Tabacaria)
música:Mário Trovador
visto aqui
sábado, 6 de abril de 2013
as súbitas permanências
ARRABALDE
Sabes do destino das ruas mais distantes
e aí persistem plenas as ausências
moradas de um abandono iluminado
Seguimos as pisadas que se perdem
o canto rouco das torrentes da poeira
demolidos portões, a ferrugem das passagens
Nos teus olhos outros olhos que se afastam
ao longe noutro arrabalde
e tudo disposto para sempre sem lugar
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
ARRABALDE
Sabes do destino das ruas mais distantes
e aí persistem plenas as ausências
moradas de um abandono iluminado
Seguimos as pisadas que se perdem
o canto rouco das torrentes da poeira
demolidos portões, a ferrugem das passagens
Nos teus olhos outros olhos que se afastam
ao longe noutro arrabalde
e tudo disposto para sempre sem lugar
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
Edward Heim, New York, 1920's
sexta-feira, 29 de março de 2013
ver . ver ponto
O projecto fotográfico ver. concretizou-se na publicação de um livro. É uma edição de autor preparada através da Blurb, empresa que disponibiliza, sem custos, ferramentas de edição e publica na modalidade "print on demand".
O volume pode ser adquirido aqui.
sexta-feira, 22 de março de 2013
as súbitas permanências
A MULHER NUA
Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?
A MULHER ESTRÁBICA
Enfrenta-nos como se olhasse o mundo
e com intensa distracção beijasse
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
A MULHER NUA
Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?
A MULHER ESTRÁBICA
Enfrenta-nos como se olhasse o mundo
e com intensa distracção beijasse
a mais tocante distância dos lábios
Dedicamos-lhe toda a vasta ausência
que inspira os seus caminhos transviados
e mantém assim forte o nosso abraço
Com olhos que nos trazem tão de longe
como viver o tempo em que se vive
o infinito de um frontal olhar?J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)
modigliani
domingo, 17 de março de 2013
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
teorias portáteis sobre fotografia
Olhar de novo pela primeira vez
Maíra Soares apresenta assim o projecto Este Seu Olhar :
Este seu Olhar é um ensaio feito a partir de fotografias que meu pai fez de minha mãe durante o primeiro ano de casamento. Encontrei essas imagens depois da morte de minha mãe, 35 anos mais tarde, e foi como se estivesse contemplando outra pessoa. // A proposta deste ensaio é ir ao encontro de minha mãe através do olhar de meu pai. Minha intenção é desvendar seu mundo e sentimentos nesse período da sua vida, enquanto passeio pela memória do meu pai.
Temos aqui uma espécie de tributo a quem desapareceu, mas muito longe do ritual fúnebre das imagens. Dificilmente se conceberá um olhar mais sereno e vivo acerca da passagem da vida. Quando Maíra ocupa o lugar da mãe nas fotografias, e olha tudo isso com o olhar apaixonado do pai, há um vazio que desaparece, e o passado pode então ressurgir na estranheza e intensidade de cada instante. O tempo não pesa nos olhos com a sua ferrugem, porque Maíra assume a forma mais radical de compaixão: ser com o ser do outro que prolongamos na nossa vida. O virtuosismo discreto do fotógrafo está em dar a ver o olhar num espelho que deixa de ser narcísico, porque apenas propõe uma teia delicada de pontos de vista: olhar sempre de novo pela primeira vez.
O livro tem a beleza simples do que profundamente existe, e é filmado com a paixão das coisas que o tempo apura e depura. (ver aqui)
J.M.T.S.
outras Parábolas Ópticas aqui
J.M.T.S.
outras Parábolas Ópticas aqui
quarta-feira, 6 de março de 2013
# Em Agenda #
Está já publicado o nº 18 da revista DiVersos - Poesia e Tradução (Fevereiro de 2013, edições Sempre-Em-Pé). Para além de originais de poesia portuguesa, destacam-se traduções para português de poesia de Albert Ayguesparse (Bélgica, trad. de A. Barros), Hölderlin (Alemanha, trad. de Jorge Vilhena Mesquita) e Phillip Sterling (E.U.A. , trad. de José Carlos Marques). Colaboro neste número com quatro poemas do ciclo Música de Anónimo, ainda inédito em livro:
A janela do atelier de J. Sudek
Os cadernos de esboços de J. W. Turner
As raparigas de Capri em pintura de H. Pousão
G. Mahler na cabana junto ao lago
sábado, 2 de março de 2013
O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia
Como definir a poesia, senhor Breton?
teorias portáteis sobre poesia
Como definir a poesia, senhor Breton?
A poesia é um assunto que vem no vento quando o vento bate no jardim. Eis o início de uma definição. Claro que o vento não é uma estrutura inteira que possa bater completamente num jardim. E nem um jardim é essa unidade que o vocábulo jardim aparenta. Existem as flores e a falta de flores; as raízes enquanto parte invisível da memória do jardim e as folhas caídas no chão como parte visível da memória do jardim. Passado e presente temos juntos e momentâneos num jardim, o futuro não. E é o vento (que visto por quem vê seriamente as coisas), é o vento que afastado ainda do jardim, aproximando-se, traz com ele o futuro. E é quando a profecia, em brisa, bate em cheio no presente e no passado, é aí, momento nítido, que surge a poesia. Que bonito!
Claro que poderás dizer que, se o vento leve sobre as folhas caídas e sobre as folhas levantadas é poesia, então será discurso impublicável.
E sim, é certo, tens razão: é impublicável tal discurso; vocábulos finíssimos. Dirás ainda que o vento breve no ramo forte é verso erudito de mais, que poucos- raros- o entendem. Sim, tal é também verdade: poucos raros o entendem. Mas sabes que os raros quando atravessam os campos fazem levantar a cabeça às toupeiras. E quando entram no mar atravessam o mar fortemente chegando intactos ao lado oposto. Estes são os raros. Eis o que diz o senhor Breton.
O homem comum utiliza a salvação para se salvar. Os raros utilizam o veneno para se salvarem.
Gonçalo M. Tavares
"Seis perguntas ao senhor Breton- sobre o prazer da poesia" in O Prazer da Leitura, Teorema/Fnac, 2010
"Seis perguntas ao senhor Breton- sobre o prazer da poesia" in O Prazer da Leitura, Teorema/Fnac, 2010
Jillian Tamaki
outras teorias portáteis sobre poesia aqui
imagem vista aqui
domingo, 24 de fevereiro de 2013
UmA EspéciE de MúsicA
no conservatório regional de v. n. gaia
no conservatório regional de v. n. gaia
É um projecto fotográfico que interpreta o espaço
arquitectónico do Conservatório Regional de Vila Nova de Gaia e a
natureza que o envolve como uma espécie de música, para usar a expressão de Óscar Lopes, a propósito da poesia de Eugénio de Andrade. Como se a música também no mundo respirasse.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
para o dia 25.12.2012
visto aqui
(um sítio por onde gosto, muitas vezes, de fazer um atalho)
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade
Nesta
história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças
em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos
desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio.
Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se
cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e
ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar,
uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é
grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o
com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por
momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram,
encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de
inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre
um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça,
brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também
contar esta história.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia
Nos discursos que circulam em torno da fotografia, e que sempre se confrontam com o silêncio essencial das imagens, interpela-nos pela sua singularidade o percurso ensaiado em A Câmara Clara de Roland Barthes (Edições 70, 1981). Nele encontramos a postura de um saber desarmado, que desarticula as grelhas de conhecimento para melhor se acercar do extremo fascínio de um fenómeno.
Em Barthes, ultrapassando os protocolos de leitura que relativizam o específico "poder" da fotografia, afirma-se uma espécie de espanto metafísico. É uma perturbação que decorre do confronto com um "momento congelado" que insiste na irrecusável intensidade da sua existência, mas que a câmara vai fixar no preciso momento em que se perde- perdição que a nossa presença como espectadores simultaneamente testemunha e confirma. Na fotografia o verbo "ser" conjuga-se num tempo totalmente perfeito, porque radicalmente consumado e na medida em que se mostra estanque na sua fulgurância existencial, sem detritos nem deriva. E tudo o mais será literatura, a pretexto da fotografia.
A fotografia dar-nos-ia a vida como "spectrum", o morto regresso do que vemos vivo. Acontece que este confronto consiste num abalo puramente vital, isto é, a mais viva consciência de uma perda como resultado da química dos materiais, numa espécie de operação alquímica que permite a paradoxal salvaguarda da vida, na luz e noite essenciais, através da sensibilidade de alguns sais de prata.
Na actualidade, na era da imagem numérica e digital, o imaginário dominante acerca da fotografia é bastante distinto. Procura-se obsessivamente o "vivo" das imagens, mas todo o processo é agora como que desfocado dos trânsitos da realidade e do mundo, abstraindo espaço e tempo. A natureza espectral encontra-se do lado da própria mediação e experiência do fotográfico. Muito pouco da paciente comunhão com a vida e as suas circunstâncias na duração das longas exposições ao tempo, muito pouco das cerimónias indispensáveis para alcançar um momento decisivo e raro; visa-se a captura do real com múltiplos disparos que se reconstituirão num ecrã, a partir da manipulação de reservatórios de "pixels"; opera-se por saltos, por cesuras que elidem as continuidades e os atritos do vivido.
É nesta tensão, que subjaz a alguma da fotografia contemporânea, que podemos situar dois projectos que se mantêm fiéis ao legado das imagens químicas, numa espécie de nostalgia activa.
John Cyr fotografa as tinas que acolheram os líquidos de revelação e de fixação das imagens de alguns fotógrafos. Nelas como que se gravaram o atrito e a tracção mágicos do mundo, no seu carácter luminoso e etéreo, mas implicando o desgaste dos materiais, algumas impressões digitais, feridas na pele, cicatrizes ao modo de um ritual de sacrifício (ver aqui).
Abelardo Morell pratica algo que se aproxima de uma "meta-fotografia" (ver aqui); apresenta-nos nesta série um projecto que reconduz as fotografias à materialidade da natureza, criando uma nova utopia ao arrepio da actual condenação à abstracção do "pixel" (ver aqui). O mundo outra vez o suporte da imagem do mundo.
Fotografia: resistências, atritos
Nos discursos que circulam em torno da fotografia, e que sempre se confrontam com o silêncio essencial das imagens, interpela-nos pela sua singularidade o percurso ensaiado em A Câmara Clara de Roland Barthes (Edições 70, 1981). Nele encontramos a postura de um saber desarmado, que desarticula as grelhas de conhecimento para melhor se acercar do extremo fascínio de um fenómeno.
Em Barthes, ultrapassando os protocolos de leitura que relativizam o específico "poder" da fotografia, afirma-se uma espécie de espanto metafísico. É uma perturbação que decorre do confronto com um "momento congelado" que insiste na irrecusável intensidade da sua existência, mas que a câmara vai fixar no preciso momento em que se perde- perdição que a nossa presença como espectadores simultaneamente testemunha e confirma. Na fotografia o verbo "ser" conjuga-se num tempo totalmente perfeito, porque radicalmente consumado e na medida em que se mostra estanque na sua fulgurância existencial, sem detritos nem deriva. E tudo o mais será literatura, a pretexto da fotografia.
A fotografia dar-nos-ia a vida como "spectrum", o morto regresso do que vemos vivo. Acontece que este confronto consiste num abalo puramente vital, isto é, a mais viva consciência de uma perda como resultado da química dos materiais, numa espécie de operação alquímica que permite a paradoxal salvaguarda da vida, na luz e noite essenciais, através da sensibilidade de alguns sais de prata.
Na actualidade, na era da imagem numérica e digital, o imaginário dominante acerca da fotografia é bastante distinto. Procura-se obsessivamente o "vivo" das imagens, mas todo o processo é agora como que desfocado dos trânsitos da realidade e do mundo, abstraindo espaço e tempo. A natureza espectral encontra-se do lado da própria mediação e experiência do fotográfico. Muito pouco da paciente comunhão com a vida e as suas circunstâncias na duração das longas exposições ao tempo, muito pouco das cerimónias indispensáveis para alcançar um momento decisivo e raro; visa-se a captura do real com múltiplos disparos que se reconstituirão num ecrã, a partir da manipulação de reservatórios de "pixels"; opera-se por saltos, por cesuras que elidem as continuidades e os atritos do vivido.
É nesta tensão, que subjaz a alguma da fotografia contemporânea, que podemos situar dois projectos que se mantêm fiéis ao legado das imagens químicas, numa espécie de nostalgia activa.
John Cyr fotografa as tinas que acolheram os líquidos de revelação e de fixação das imagens de alguns fotógrafos. Nelas como que se gravaram o atrito e a tracção mágicos do mundo, no seu carácter luminoso e etéreo, mas implicando o desgaste dos materiais, algumas impressões digitais, feridas na pele, cicatrizes ao modo de um ritual de sacrifício (ver aqui).
Abelardo Morell pratica algo que se aproxima de uma "meta-fotografia" (ver aqui); apresenta-nos nesta série um projecto que reconduz as fotografias à materialidade da natureza, criando uma nova utopia ao arrepio da actual condenação à abstracção do "pixel" (ver aqui). O mundo outra vez o suporte da imagem do mundo.
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