poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia




 Fotografia: resistências, atritos

 
Nos discursos que circulam em torno da fotografia, e que sempre se confrontam com o silêncio essencial das imagens, interpela-nos pela sua singularidade o percurso ensaiado em  A Câmara Clara de Roland Barthes (Edições 70, 1981). Nele encontramos a postura de um saber desarmado, que desarticula as grelhas de conhecimento para melhor se acercar do extremo fascínio de um fenómeno.
Em Barthes, ultrapassando os protocolos de leitura que relativizam o específico "poder" da fotografia, afirma-se uma espécie de espanto metafísico. É uma perturbação que decorre do confronto com um "momento congelado" que insiste na irrecusável intensidade da sua existência, mas que a câmara vai fixar no preciso momento em que se perde- perdição que a nossa presença como espectadores simultaneamente testemunha e confirma. Na fotografia o verbo "ser" conjuga-se num tempo totalmente perfeito, porque radicalmente consumado e na medida em que se mostra estanque na sua fulgurância existencial, sem detritos nem deriva. E tudo o mais será literatura, a pretexto da fotografia.
A fotografia dar-nos-ia a vida como "spectrum", o morto regresso do que vemos vivo. Acontece que este confronto consiste num abalo puramente vital, isto é, a mais viva consciência de uma perda como resultado da química dos materiais, numa espécie de operação alquímica que permite a paradoxal salvaguarda da vida, na luz e noite essenciais, através da sensibilidade de alguns sais de prata.
Na actualidade, na era da imagem numérica e digital, o imaginário dominante acerca da fotografia é bastante distinto. Procura-se obsessivamente o "vivo" das imagens, mas todo o processo é agora como que desfocado dos trânsitos da realidade e do mundo, abstraindo espaço e tempo. A natureza espectral encontra-se do lado da própria mediação e experiência do fotográfico. Muito pouco da paciente comunhão com a vida e as suas circunstâncias na duração das longas exposições ao tempo, muito pouco das cerimónias indispensáveis para alcançar um momento decisivo e raro; visa-se a captura do real com múltiplos disparos que se reconstituirão num ecrã, a partir da manipulação de reservatórios de "pixels"; opera-se por saltos, por cesuras que elidem as continuidades e os atritos do vivido.
É nesta tensão, que subjaz a alguma da fotografia contemporânea, que podemos situar dois projectos que se mantêm fiéis ao legado das imagens químicas, numa espécie de nostalgia activa.

John Cyr fotografa as tinas que acolheram os líquidos de revelação e de fixação das imagens de alguns fotógrafos. Nelas como que se gravaram o atrito e a tracção mágicos do mundo, no seu carácter luminoso e etéreo, mas implicando o desgaste dos materiais, algumas impressões digitais, feridas na pele, cicatrizes ao modo de um  ritual de sacrifício (ver aqui). 




Abelardo Morell pratica algo que se aproxima de uma "meta-fotografia" (ver aqui); apresenta-nos nesta série um projecto que reconduz as fotografias à materialidade da natureza, criando uma nova utopia ao arrepio da actual condenação à abstracção do "pixel" (ver aqui). O mundo outra vez o suporte da imagem do mundo.




J.M.T.S.



outras Parábolas Ópticas aqui




sábado, 16 de junho de 2012

ver . ver ponto





















JMTS
série ver. aqui                                                                                                               





                                                                                                              
 

quinta-feira, 24 de maio de 2012

teatro





 é um texto para teatro que pretende percorrer por dentro
 a vida, a música e o pensamento de  




                                                                                                                         jmts




Realizou-se uma leitura encenada no dia 15 de Novembro de 2010
Centro Dramático de Viana | direcção cénica de Castro Guedes
Universidade Católica Portuguesa. Campus Foz. Porto

ver na ligação "Teatro" deste blogue (aqui)
outras informações aqui.




                                                                        






terça-feira, 1 de maio de 2012

espaço (i)maculado . ana abreu









As imagens de batatas, borboletas e meninas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, nas margens do Douro, em Vila Nova de Gaia.


 


ANIMA é uma sequência poética a partir do projecto Espaço (I)maculado, nas edições Língua Morta. (aqui)


Trazem nas asas fios de humidade
estas manchas, crostas do ar espesso
ou lascas da alma ou lixívia entornada






terça-feira, 10 de abril de 2012

# Em Agenda #





Está disponível a minha página de fotografia. 
Permanentemente na barra lateral deste blogue ou aqui.













 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

ver . ver ponto




                                                 
                                            






















J.M.T.S.







domingo, 1 de abril de 2012

olhos nos olhos




Abelardo Morell- Manhattan View Looking West in Empty Room. série Camera Obscura - 1996



Como abrir e fechar os olhos em quartos preenchidos de muitas portas. Povoar a grande escuridão dos bairros com as luzes que trazemos dos nossos baldios mais distantes. Talvez o mundo, o desdobrado mundo, se possa, enfim, aquietar no sossego rumoroso de uma casa.

J.M.T.S.





olhos nos olhos - também aqui

sábado, 24 de março de 2012

as súbitas permanências



FILATELIA

Fica serena a vida e toda a luz imensa
pelas paredes de papel delido
na felicidade de uma estampa antiga
o tigre de Bengala e a flor dos Alpes

São belas as cores que o dia, deposto, vinga
sépia, carmins, azul ultramarino
um espectro do mundo brilhando denso
a transparente saturação do momento

Mas o vento que assalta sempre as folhas?
E os carimbos, as colas e as dedadas
que fazer das imagens repetidas?

E se, nua, percorres esta casa
por entre os aguaceiros mais intensos
acende-se um relâmpago dos tempos


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)













sexta-feira, 9 de março de 2012

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia



A Poesia ou O Fôlego do Nadador


Quando se propõem teorias sobre poesia (mesmo se portáteis) a expectativa será a de anunciar ou celebrar o que a poesia é.
Pedro Eiras no ensaio "O que é a poesia?", com que abre o seu volume A Lenta Volúpia de Cair (Quasi Edições, 2007 - aqui), explica-nos que se trata de uma questão mal colocada. Aliás, será mesmo pertinente (questiona-se de novo) formular a própria pergunta, tratando-se de um objecto como a poesia?
Pedro Eiras:
« Dizer que a poesia "é" implica vê-la enquanto um estado: "a poesia é" impede enunciados como, por exemplo, "a poesia dança" ou "a poesia queima". » (p.14)
« Se a prosa estende o novelo a uma velocidade alucinante, a poesia deixa as palavras em ilhas e pede que nademos de praia em praia. Os pulmões do nadador trabalham contra as ondas. || O poema mantém as palavras entre distâncias, não entre medidas. A única medida, a haver, é o fôlego do nadador. » (p.19)
É assim também no belíssimo vídeo em que Roberta Ferraz diz um poema de Fiama Hasse Pais Brandão ("Anjo de papel ou de água?"), incluído na série "Empreste sua voz a um poeta morto", em Modo de Usar & Co (aqui).

roberta ferraz diz fiama. filmado por marcelo f oliveira em Guecá / SP

O rosto do leitor fica oculto. Deixa que o papel e o mundo brilhem por ele, o mundo em espuma e cabelos confundidos com a ventania. A oscilação do mundo que acompanha o ritmo do poema, ou o contrário, como se o poema fosse a realidade do mar e o mar a metáfora do poema.

Ou, mergulhando no texto de Fiama:
Vai fascinar-me o torvelinho mor- / tal em que mesmo os poemas sem dor / sempre se desfazem.

outras teorias portáteis sobre poesia aqui