poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia



Meudon, 1928 ou A Fotografia

É talvez apenas uma questão biográfica. A minha descoberta pessoal da Fotografia coincide com a revelação de André Kertész num pequeno livro de bolso, com imagens da Hungria natal, de Paris, de Nova Iorque. Vejo em Kertész o que mais me interessa na Fotografia. Muito em particular, está quase, quase tudo em "Meudon, 1928", que nos transporta para os arredores de Paris. Encontro nesta imagem uma espécie de definição pessoal e selvagem da Fotografia. A saber.

a) Haverá numa fotografia um lugar e um tempo concretos dificilmente iludíveis.


b) Perseguir-se-á a sorte, voltando ao local várias vezes (como fez Kertész em Meudon) ou andando às voltas no mesmo lugar. Construa-se então uma natural transfiguração das coisas, pode mesmo encenar-se um pouco (o transeunte é, neste caso, amigo do fotógrafo), que o real se ocupará também da simulação.

c) Estaremos atentos à margem, aos eternos subúrbios e traseiras da vida, existirá uma espécie de lepra do tempo, e que aí nasça um fulgor, acontecimento decisivo, um equilíbrio maior.

d) Que se tenha alguma dúvida acerca das fronteiras entre o chamado real e o chamado sonho, que o real nos pareça uma modalidade do sonho, que o sonho seja uma alínea do real.

e) Estará presente a síndroma "blow up": poderemos habitar a fotografia, percorrer as minúcias (letreiros, transeuntes, estaleiros de obras sucessivas) e haverá sempre um mistério a resolver (de onde vem, para onde vai o homem do fato escuro, o que transporta tão ciosamente?).

f) O mundo será o encontro e o desencontro do mundo, das suas velocidades, sentidos, pontos de vista.

g) Haverá uma geometria essencial, mas com algum atrito, uma aspereza qualquer que não deixe o brilho inteiro.

h) De preferência o preto e branco, como se fosse o necessário recuo para alcançar as paisagens, os trabalhos e os dias, como se se confundisse com o que talvez seja o peso mais interior dos olhos.

i) Sobretudo que, por fim, a fotografia dispense as palavras, estas palavras.


J.M.T.S.



























meudon, 1928. andré kertész




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

oCorpodasLetras




"Atlantic", poema de João Miguel Fernandes Jorge em
Invisíveis Correntes,
Relógio d'Água
, 2004
(apresentação de Rui Pires Cabral)



visto aqui



......

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

as súbitas permanências



PRECIPITAÇÃO, CÁLCULOS
lendo Carlos de Oliveira

No apuro de tantas luzes
os cálculos iridescentes
riscos frios no astro petrificado
da mão, lavas, breves águas
batem intensamente os olhos fixos
medindo concentrados
sobre o lado esquerdo
o clarão, o ar precipitado
a bátega súbita do real


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







Star Diary II . Paula Catão
filme de Pedro Teixeira






quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

das paisagens interiores



direi melhor: um lugar tem de se tornar uma paisagem interior,
para que a imaginação co
mece a habitar esse lugar,
a fazer dele o seu teatro
Italo C
alvino











JMTS . alentejo








terça-feira, 24 de janeiro de 2012





Súbito
ressuscita ao terceiro dia

Tenho de o confessar. Passei muito mal nestes dias em que não tive um súbito horizonte. Como se a minha sombra se tivesse habituado, sem o saber, a vibrações do mundo que já eram minhas. Há coisas cuja importância só se entende quando deixam de estar connosco- sim, esse lugar demasiado comum (a saúde, a felicidade, bla, bla, bla, mas é verdade...). Percebi que o meu cansaço era maior sem o cansaço que já sentia relativamente ao blogue. E cada ideia nova vinha parar, instintivamente, a este espaço extinto.

Desculpem se os desaponto com a minha indecisão e agora com esta insistência. Mas não vi razões fortes para que súbito, apesar das fragilidades que se desejam muito terrenas, não pudesse ressuscitar ao terceiro dia.

Amanhã publico aqui alguma coisa, não sei bem o quê, mas esta dúvida (aprendi-o à minha própria custa) ainda é capaz de me preencher.







sábado, 21 de janeiro de 2012




Súbito
vai parar, pelo menos por uns tempos.
Pode ser que regresse um dia destes, subitamente.
Estou muito grato a todos os que por aqui passaram e aqui viveram um pouco da sua vida.

escrita para sempre, a palavra súbito

J.M.T.S.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

GEOgrafias
lugares & viagens & livros




PORTO / Agustina Bessa-Luís
/ António Cruz



Q
uem desce de Gaia,
com os olhos ainda presos à bonomia sólida e às vezes idílica dos subúrbios, ao seu mau-gosto urbano e à sua vida comercial em que se nota uma familiaridade de província com o seu sabor de horta com glicínias e água do poço, quem traz ainda consigo essa indiferença que as coisas felizes nos provocam, suspende-se de repente ao encontrar a face da cidade. Está ela como que inclinada numa cordilheira, com o ar cativo, as faixas das ruas parecendo pendentes do casario desigual. A luz é doce sobre os telhados dum vermelho estagnado; paredes de folha ferrugenta, cores de cimentos sujos e os verdes húmidos dos socalcos onde outrora se talhavam talvez as vinhas, compõem uma expressão de profunda simpatia moral. Há naquela velhice de bairros cruzados e lôbregos, naqueles edifícios presidiais, uma paixão e um selo de resistência. Os casaréus ribeirinhos cobrem-se de trapos que flutuam, há sobre a margem grandes lonas de cargueiros estendidas a secar; uma canhoeira prateada está ancorada como que à sombra das árvores da marginal, um grande casco dum escarlate denegrido move-se lentamente nas águas trémulas. E logo a partir do rio sobem as congostas, os caminhos altos e rebeldes, as avenidas com as imobilíssimas tílias, os calços e tapumes, túneis sobre uma terrosa ladeira, um trecho de linha onde corre, expelindo fumaças contínuas, um comboio de tejadilho arcaico e que se adianta como um cão que farejasse o terreno. Restos da muralha fernandina encravam-se ainda no próprio rosto da cidade; ela aparece com o seu perfil negro, insignificante quase entre cartazes de propaganda, diante do trânsito da ponte que, visto do alto, parece levezinho e cauteloso. Esses muros denteados, paliçada de pedra curvando-se sobre a escarpa, não têm hoje qualquer imponência; a sugestão de ruína que sempre nos adormece na exploração do passado, reduz-se muito naquele incaracterístico crescer de casas, com as pracetas de estacionamento onde as grandes carroçarias são como desperdícios e o branco parquezinho do marmorista reflecte uma civilização imolada.
Toda a cidade, com as agulhas dos templos, as torres cinzentas, os pátios e os muros em que se cavam escadas, varandas com os seus restos de tapetes de quarto pendurados e o estripado dos seus interiores ao sol fresco, tem toda ela uma forma, uma alma de muralha. Há como que seteiras, fendas, passadiços e bocais de pontes diante dos nossos olhos assestados sobre essa tremenda presença de rocha, caliça e betão armado. Uma ravina profunda marca o entalhe do rio, cujas águas verdes da primavera reflectem o crescente da sombra dos rabelos de velas enfunadas. O sol parece baixo sobre a cidade segregada da pedreira; uma transcendência de melancolia paira e comove-nos.




antónio cruz
aguarela (pormenor), 1957




Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Guimarães Editores, 1957
António Cruz, sem título, aguarela, colecção particular, 1957










quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ANIMA

Em Papéis | publicações, críticas, na margem direita deste blogue (ou aqui), acrescentou-se aos textos já arquivados sobre As Súbitas Permanências, de Fernando Guimarães e Ramiro Teixeira, a apresentação de Anima por Rosa Mesquita, que aconteceu no Convento Corpus Christi, em Vila Nova de Gaia, em 12 de Novembro passado.

Rosa Mesquita
tem-se dedicado à investigação em torno da poesia portuguesa contemporânea. Abordou no seu trabalho de mestrado a relação entre o Cinema e a Poesia de Manuel Gusmão e trabalha actualmente no seu doutoramento, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, sob a orientação de Rosa Maria Martelo.








sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

passagens



Giotto | O frio em volta, as cores desbotadas. Talvez algo possa sempre acontecer muito perto de nós. Somos a gente que chega de fora e se vai habituando a respirar o dia que ali se condensou. Os animais esperam na sua infinita paciência, alheios às tempestades de luz e asas. Um homem fica também de costas, como se não fosse nada com ele, perdido dentro de si. São coisas, no fundo, muito simples, alguns gestos maternais e de aconchego, deixar que um olhar possa nascer com o mundo.





quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

o som é como um laço



händel . amadigi di gaula . sara mingardo, contralto
aria di dardano "pena tiranna". concerto italiano | rinaldo alessandrini



[
definição de música: escrita e grão da voz, sucessão de solenes sinais, mas com um escuro por detrás, razão pura que ilumina o puro coração, fidelidade e improviso, necessidade e acidente, quer dizer, vida propriamente viva]


A lembrança desta música veio-me de um dos meus lugares favoritos, aqui.
Outras músicas na etiqueta correspondente (o som é como um laço) ou aqui.




sábado, 26 de novembro de 2011

as súbitas permanências



ESTRELA CADENTE SOBRE O MAR


Na noite das estrelas cravejadas
rasga o vazio a improvável luz
de enorme negro afinal intenso
o fundo atento a ondas espelhadas

Olho-te os olhos lentos de surpresa
o trânsito da chama tão visível
que do abismo dos peixes cintilantes
se anuncia fatal e assim aéreo

Se esta queda fulgura inteiramente
detém-se no atrito de um olhar
em que demora o pó remanescente

Então o mar iluminando os tempos
de estrelas longamente fixadas
deixa arder ao passar esse desejo



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)




Star Diary I . Paula Catão
filme de Pedro Teixeira






.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

espaço (i)maculado . ana abreu









As imagens de batatas, borboletas e meninas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, nas margens do Douro, em Vila Nova de Gaia.

fotografia de Amélia Nabais a partir de instalação



ANIMA é uma sequência poética a partir do projecto Espaço (I)maculado, nas edições Língua Morta. (aqui)



cerzindo de brandura as batatas
tecidas de puída transparência
e nascem borboletas de asas tão pesadas





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

espaço (i)maculado . ana abreu







As imagens de batatas, borboletas e meninas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, nas margens do Douro, em Vila Nova de Gaia.




ANIMA é uma sequência poética a partir do projecto Espaço (I)maculado, nas edições Língua Morta. (aqui)



quando subimos ou tanto caímos
são os poços do ar, as meninas perdidas






domingo, 6 de novembro de 2011

as súbitas permanências



JOHN KEATS, RECOSTADO A UMA COLUNA ROMANA


Adormece o alheio esplendor no leito
das pedras, quando, tão brutais, suspendem
as nuvens altas, o rosto de Roma
luminoso e volátil sob os olhos

Esqueço os céus remotos, a terra mágica
e declino, na urna do silêncio
as volúveis canções primaveris
entre cacos, ossos, imensos versos

Como dizer o peso e a doçura
desse mundo que já repousa em mim
depois de mim, ausente esta alegria
que agora se respira para sempre?




J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)












segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia





 

Encenação de uma Encenação


O trabalho de Lacey Terrell, no projecto que intitula offSET, tem a enorme vantagem de questionar as narrativas consagradas acerca do real, da ficção, da banalidade e do mistério. A fotografia é como que inventada para reproduzir mecanicamente o real, mas a perseguição que ela lhe move ao longo da sua história vem apenas revelar o carácter potencialmente infinito e fugidio do seu objecto. Apreender o real, reproduzi-lo (offset) é necessariamente deslocarmo-nos dentro dele entre metamorfoses, vazios e sobras (off set). Se o real é reinvenção de si mesmo, a sua adiada encenação, a fotografia será, nessa medida, a encenação de uma encenação. Lacey Terrell, offSET (aqui).
J.M.T.S.



sexta-feira, 21 de outubro de 2011

espaço (i)maculado . ana abreu










As imagens de batatas, borboletas e meninas fazem parte de conjuntos iconográficos cujo desenvolvimento teve como referente o arquivo do Instituto de Reinserção Social para Raparigas, que durante décadas esteve sediado no espaço do Convento Corpus Christi, nas margens do Douro, em Vila Nova de Gaia.

fo
tografia de Amélia Nabais a partir de instalação



ANIMA é uma sequência poética a partir do projecto Espaço (I)maculado. A sair em finais de Outubro nas edições Língua Morta. (aqui)




Há nas vidas a vida das batatas
o que sempre assim fica por rimar








segunda-feira, 17 de outubro de 2011

as súbitas permanências



ROMA, CEMITÉRIO PROTESTANTE


Ali fica o lugar dos estrangeiros
o inverso jardim anunciado
pelo sopro dos ciprestes, o baque repetido
das folhas dispostas sobre o musgo
Recolhe-se um murmúrio, o nome
do poeta escrito para sempre pela água
Eis a selva delicada, violetas
lírios violentos, um império dos gatos
Retomam o salto primitivo, soltam uma vida
por entre a tepidez terrífica das asas
Como se afundam donzelas em relvados
todo o tempo para as tranças de pedra
as mãos em abandono sobre os seios
pomos lentamente congelados

Chegaram pelo claro vapor da manhã
vaguearam as tardes estiradas pelas praças
pressentem nocturno o suspiro das fontes
o cerco de colunas derrubadas
sabiamente dispersas pelas colinas

e ali alcançam uma vida atrás da outra
as cúpulas mais distantes da cidade



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







jmts










domingo, 16 de outubro de 2011

# Em Agenda #







Como quem diz: é urgente inventar algo realmente diferente, outra disposição do lugar.





segunda-feira, 10 de outubro de 2011

as súbitas permanências



A MULHER NUA


Há um rumor no silêncio que atordoa
Assim fulgura a palidez da pele
de sombras nuamente sustentadas
Abandonas a túnica inconsútil
no peso repousado que respira
serenas gradações precipitadas
halos breves da mais densa penugem
Como abraçar toda a nudez mais nua
se intensamente tão de si vestida?


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








jmts













quarta-feira, 28 de setembro de 2011

as súbitas permanências



LONDRES, DEDICATÓRIAS NOS BANCOS DOS JARDINS
para a Inês

Por aqui outro alguém muito passava, deixou poucas palavras
Sentava-se nestas sombras, exactamente como
Mrs. Dalloway, que foi ficando, folha após folha?
Abandonar assim a memória mais suave
cada instante de vida em debandada
inocente oscilação de galhos sobre galhos
Que só com alheia distracção
atentem nas palavras que ficaram
e se perdem assobiando para os pássaros
Um desejo eternamente confundido
no enleio sussurrante do jardim
A vida ou o salto infindo dos esquilos
apenas o modo brusco como toda a árvore
cai para sempre em cada folha
Iam e vinham das torres sobre torres
cruzavam-se no nevoeiro, brilhantes de memória
Iluminem agora outros as suas mágoas
na transparência obscura dos nenúfares
respirem a íntima vastidão dos relvados
feridos de estrelas um dia pressentidas

Como um livro, veloz memória
que o esquecimento variamente desfolhasse
numa história de chuvas entranhadas
e perfumes sabiamente evanescentes


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts







sábado, 17 de setembro de 2011

olhos nos olhos



Bert Stern - The Last Sitting. Marilyn Monroe - 1962


Com um fio de sangue recuso esta imagem. Mostra apenas a difícil perfeição da vida: pele demasiado delicada, pronta para o tacto e inocentes pisaduras; as partes que pendem com a gravidade do tempo; tonalidades fixando os olhares que se alimentam de mim. A vida e um fio de sangue. Pormenores que, daqui a pouco (digamos, seis semanas), se esvaem para o mais dentro de si.

J.M.T.S.








terça-feira, 13 de setembro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

as súbitas permanências





PORTO, TRASEIRAS DA SÉ

para os meus pais

São nossos, tão de longe, esses olhos
Por aqui sempre ficaram

no esplendor reverso das traseiras

Longamente inscrevem, na luz que os enruga
a mais aérea e límpida gravura

Tudo o que da água sabe o filho de um peixe
assim nos ensinam, distraídos
a inclinar a cabeça, como evitar
a demorada disposição da terra
um tempo que em relances se acumula

Encontramo-nos todos nestes pátios
inocentes das nuvens que nos sabem
Há luzes que se acendem a espaços
pelo granito, caliça, ferros, aquela torre
Alguém de novo as vê uma primeira vez


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







jmts







sábado, 3 de setembro de 2011

o coração vertiginoso e a lentidão do mundo



michelangelo antonioni . blow- up . 1966
com David Hemmings e Vanessa Redgrave


O cinema, a fotografia. Momentos congelados que perseguimos na sua perfeição serena ou terrível. Mas obrigamo-nos a ir mais longe, a ligar no tempo duas imagens, chegar sempre mais perto, procurando uma verdade desfocada ou o mistério que permita salvar as vidas.






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

as súbitas permanências



ILHA DE MALTA, O ESPAÇO


O exposto segredo das ilhas, os seus caminhos
Um prenúncio de lábios chama-o de perto

mas é do outro lado e vem pelas ondas

Perseguir o laborioso recorte dos peixes
avanços de pedra em pedra, a luz em pó

descansar na parede quente, respirando
Assim sonhamos de costas que se voltam para o mar

Como quem esquece

inspiram-te as ruas transversais
alguém te perde em corredores de sombra e tempo
e depressa se chega, ei-lo, é o esplendor da baía
O modo denso como a água nos ilumina os olhos
trabalhos da alegria, profundidade

a que chega toda a transparência


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








jmts










sexta-feira, 12 de agosto de 2011

GEOgrafias
lugares & viagens & livros





LAGOS / Sophia de Mello Breyner Andresen / Paul Klee


Caminho da Manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.








paul klee

miraculous landing, 1920




Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992

Paul Klee, Miraculous Landing, "112", 1920