O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia
O Poeta Dorme Sempre de Pé

Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.
Tencionava também fazer uma entrada para esta etiqueta das
Teorias Portáteis a partir de dois dos "senhores" de
Gonçalo M. Tavares, Breton e Eliot. Neles, pelo que vislumbrei folheando os livros algures, recolheria duas visões bem destacadas acerca da palavra poética e do seu trabalho, diferentes e sugestivas formas de nos acercarmos da poesia e da sua hipotética essência. Dá-se a circunstância de ainda não ter tido dinheiro para comprar, logo de uma assentada, os dois
senhores, e daí ter ido buscar um outro que, felizmente, já estava na estante:
O Senhor Valéry. Na parábola que se segue (e que transcrevo com a devida vénia), pontuada pelos conhecidos desenhos de
Rachel Caiano, encontro algumas pedras ou tijolos para o meu poema e uma arquitectónica teoria que aplico, de forma algo selvagem, à poesia:
O Cubo
O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.
Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.
No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.
E depois explicou:
-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.
E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.
Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.
-É igual, vêem?
E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:
- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.
Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:
-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano

Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.
