poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 13 de setembro de 2011

sábado, 10 de setembro de 2011

as súbitas permanências





PORTO, TRASEIRAS DA SÉ

para os meus pais

São nossos, tão de longe, esses olhos
Por aqui sempre ficaram

no esplendor reverso das traseiras

Longamente inscrevem, na luz que os enruga
a mais aérea e límpida gravura

Tudo o que da água sabe o filho de um peixe
assim nos ensinam, distraídos
a inclinar a cabeça, como evitar
a demorada disposição da terra
um tempo que em relances se acumula

Encontramo-nos todos nestes pátios
inocentes das nuvens que nos sabem
Há luzes que se acendem a espaços
pelo granito, caliça, ferros, aquela torre
Alguém de novo as vê uma primeira vez


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)







jmts







sábado, 3 de setembro de 2011

o coração vertiginoso e a lentidão do mundo



michelangelo antonioni . blow- up . 1966
com David Hemmings e Vanessa Redgrave


O cinema, a fotografia. Momentos congelados que perseguimos na sua perfeição serena ou terrível. Mas obrigamo-nos a ir mais longe, a ligar no tempo duas imagens, chegar sempre mais perto, procurando uma verdade desfocada ou o mistério que permita salvar as vidas.






segunda-feira, 22 de agosto de 2011

as súbitas permanências



ILHA DE MALTA, O ESPAÇO


O exposto segredo das ilhas, os seus caminhos
Um prenúncio de lábios chama-o de perto

mas é do outro lado e vem pelas ondas

Perseguir o laborioso recorte dos peixes
avanços de pedra em pedra, a luz em pó

descansar na parede quente, respirando
Assim sonhamos de costas que se voltam para o mar

Como quem esquece

inspiram-te as ruas transversais
alguém te perde em corredores de sombra e tempo
e depressa se chega, ei-lo, é o esplendor da baía
O modo denso como a água nos ilumina os olhos
trabalhos da alegria, profundidade

a que chega toda a transparência


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








jmts










sexta-feira, 12 de agosto de 2011

GEOgrafias
lugares & viagens & livros





LAGOS / Sophia de Mello Breyner Andresen / Paul Klee


Caminho da Manhã

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.








paul klee

miraculous landing, 1920




Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992

Paul Klee, Miraculous Landing, "112", 1920






quinta-feira, 4 de agosto de 2011

oCorpodasLetras




bluebird, uma animação de monika umba a partir de um poema de charles bukovski


visto aqui

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?






terça-feira, 26 de julho de 2011

as súbitas permanências




AURÉLIA DE SOUSA, NA VARANDA SOBRE O DOURO


É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente

Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa

mas enfrenta-me, acabou de nascer

e abre imensamente os olhos
A névoa abraça-nos até ao osso

respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis

não sabem como visto

numa sombra perfeitamente de mim
a cidade de que parti e não conheço

e nem sequer posso esquecer
Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde

entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa

mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando
Estranham-me a roupa escura e os olhos claros

o camafeu que disfarça os dois seios
sim, eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios


Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos

certa jardinagem, grades sobre rendas

Algo sopra dos fundos dos quartos

fecha as janelas, murmura versos que não possas viver

Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça

atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts








quarta-feira, 6 de julho de 2011

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




O Poeta Dorme Sempre de Pé



Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.

Tencionava também fazer uma entrada para esta etiqueta das Teorias Portáteis a partir de dois dos "senhores" de Gonçalo M. Tavares, Breton e Eliot. Neles, pelo que vislumbrei folheando os livros algures, recolheria duas visões bem destacadas acerca da palavra poética e do seu trabalho, diferentes e sugestivas formas de nos acercarmos da poesia e da sua hipotética essência. Dá-se a circunstância de ainda não ter tido dinheiro para comprar, logo de uma assentada, os dois senhores, e daí ter ido buscar um outro que, felizmente, já estava na estante: O Senhor Valéry. Na parábola que se segue (e que transcrevo com a devida vénia), pontuada pelos conhecidos desenhos de Rachel Caiano, encontro algumas pedras ou tijolos para o meu poema e uma arquitectónica teoria que aplico, de forma algo selvagem, à poesia:



O Cubo

O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.

Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.

No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.

E depois explicou:

-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.

E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.

Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.

-É igual, vêem?

E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:

- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.

Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:

-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.



Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano






Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.