
J.M.T.S.

paul klee
miraculous landing, 1920
Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto, Obra Poética I, Círculo de Leitores, 1992
Paul Klee, Miraculous Landing, "112", 1920there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?
O Poeta Dorme Sempre de Pé
Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.
O Cubo
O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.
No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.E depois explicou:
-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.
Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.-É igual, vêem?
E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.
Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano
Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.