no conservatório regional de v. n. gaia

J.M.T.S.
O Poeta Dorme Sempre de Pé
Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.
O Cubo
O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.
No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.E depois explicou:
-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.
Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.-É igual, vêem?
E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.
Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.
Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano
Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.






Tenho a honra e a alegria de colaborar neste projecto. Será feita uma leitura encenada do meu texto para teatro Penas Pesadas da Neve, que pretende visitar por dentro a vida, a música e o pensamento de Olivier Messiaen (Centro Dramático de Viana: Castro Guedes- leitura e direcção cénica; Ricardo Simões- leitura). O destaque vai para o restante programa: as conferências da tarde ( "Leituras da morte e da esperança na poesia portuguesa"), o concerto da noite (Quarteto para o Fim dos Tempos de O. Messiaen) e a exposição com esculturas de Karin Somers. O meu texto pode ser lido neste blogue, a partir da ligação "teatro" da barra lateral ou, mais comodamente, aqui . Aqui e aqui encontram-se outras informações.
A pergunta na hora de partir [Daniel Faria]
leituras da morte e da esperança na poesia portuguesa
15 Nov. 2010
Universidade Católica . Porto Foz
Auditório 1
15.00h. Abertura: Prof. Joaquim Azevedo
15.30h. António Nobre - José Carlos Seabra Pereira
16.00h. Teixeira de Pascoaes - António Cândido Franco
17.00h. pausa / café
17.30h. Ruy Belo - Manuel António Ribeiro
18.00h. Daniel Faria - Carlos A. Moreira Azevedo
19.00h. Encerramento: D. Manuel Clemente
Auditório Ilídio Pinho
21.30h.
Penas Pesadas da Neve . José Manuel Teixeira da Silva
Quarteto para o Fim dos Tempos . Messiaen . Filipe Pinto-Ribeiro (piano), Pascal Moraguès (Clarinete), Tatiana Samouil (violino), Justus Grimm (violoncelo)
Decorrerá simultaneamente uma exposição com esculturas de Karin Somers
Inscrições até 10 Nov. 2010
SDPC . Porto sdpcultura@gmail.com

J.M.T.S.

Súbito faz hoje um ano. Apenas um ponto no trânsito das passagens. Cruzamentos de vozes, luzes, escuridão e tempo. Presenças presentes, também sugeridas e multiplicadas. Apenas um ponto.
Podemos, por exemplo, celebrar assim: terei todo o gosto em oferecer um exemplar do meu livro de poemas As Súbitas Permanências ao primeiro leitor do blogue (tem de haver um critério qualquer...) que se me dirija nesse sentido, por e- mail, e não se esqueça de comunicar uma sua morada menos virtual: um lugar, uma rua, um número de porta.
post scriptum: o livrinho já encontrou o seu novo dono. Obrigado.

Esta sequência poética foi publicada em 1983, no âmbito de um concurso literário organizado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com o apoio do F.A.O.J. (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis), comemorando o IV Centenário da Morte de Camões -1980-81. Coube-lhe o segundo prémio, sendo o júri constituído, nomeadamente, pelos professores Arnaldo Saraiva, José Adriano de Carvalho e representante da Associação de Estudantes. O primeiro prémio foi atribuído a Mecânica do Sexo XX, que inaugurou a obra poética de Luís Adriano Carlos, investigador e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O terceiro ao poema "Espigas de Urze" (publicado conjuntamente com o segundo prémio), de Mª. Conceição Meireles Pereira, hoje investigadora e docente do Departamento de História da mesma Faculdade (autora, aliás, de um pequeno livro que muito aprecio: O Porto no Tempo de Garrett - Biblioteca Pub. Munic. Porto, 2000). O desenho da capa é de Ana Freire.
Aqui, na página virtual de Adriana.
adriana calcanhotto . "calor" in cantada . 2002
[ O som é como um laço porque a música que nos interessa - matemática pura e longínqua- chega até ao momento vivo e contingente que é, exactamente, o nosso, aqui e agora: por exemplo, calor na varanda de Lagos sobre o verão. Adriana dá-nos nesta canção uma Winterreise tropical: o pequeno formato dos grandes sentimentos, a natureza cúmplice e adversa, geografias desencontradas, o amor projectado numa distância íntima, que as inflexões da voz explicam como é.]

Bernard Plossu - Le Sommeil
Há uma vibração no círculo simples das coisas que te pertencem, quando deixas que o ar se desloque sensível e assim adormeça. Se pareces desatenta é só porque tudo habitas. Poderíamos falar da qualidade musical da luz que iluminas ou do modo rigoroso como abandonas os lençóis que vemos viverem contigo. Alguém tentará escolher uma palavra, rubato, quer dizer, chegamos um pouco tarde ou algo cedo, e isso será apenas um nome para a vida.
J.M.T.S.
