poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quinta-feira, 4 de agosto de 2011

oCorpodasLetras




bluebird, uma animação de monika umba a partir de um poema de charles bukovski


visto aqui

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say, stay in there, I'm not going
to let anybody see
you.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he's
in there.

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there's a bluebird in my heart that
wants to get out
but I'm too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody's asleep.
I say, I know that you're there,
so don't be
sad.
then I put him back,
but he's singing a little
in there, I haven't quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it's nice enough to
make a man
weep, but I don't
weep, do
you?






terça-feira, 26 de julho de 2011

as súbitas permanências




AURÉLIA DE SOUSA, NA VARANDA SOBRE O DOURO


É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente

Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa

mas enfrenta-me, acabou de nascer

e abre imensamente os olhos
A névoa abraça-nos até ao osso

respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis

não sabem como visto

numa sombra perfeitamente de mim
a cidade de que parti e não conheço

e nem sequer posso esquecer
Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde

entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa

mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando
Estranham-me a roupa escura e os olhos claros

o camafeu que disfarça os dois seios
sim, eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios


Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos

certa jardinagem, grades sobre rendas

Algo sopra dos fundos dos quartos

fecha as janelas, murmura versos que não possas viver

Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça

atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts








quarta-feira, 6 de julho de 2011

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




O Poeta Dorme Sempre de Pé



Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.

Tencionava também fazer uma entrada para esta etiqueta das Teorias Portáteis a partir de dois dos "senhores" de Gonçalo M. Tavares, Breton e Eliot. Neles, pelo que vislumbrei folheando os livros algures, recolheria duas visões bem destacadas acerca da palavra poética e do seu trabalho, diferentes e sugestivas formas de nos acercarmos da poesia e da sua hipotética essência. Dá-se a circunstância de ainda não ter tido dinheiro para comprar, logo de uma assentada, os dois senhores, e daí ter ido buscar um outro que, felizmente, já estava na estante: O Senhor Valéry. Na parábola que se segue (e que transcrevo com a devida vénia), pontuada pelos conhecidos desenhos de Rachel Caiano, encontro algumas pedras ou tijolos para o meu poema e uma arquitectónica teoria que aplico, de forma algo selvagem, à poesia:



O Cubo

O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.

Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.

No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.

E depois explicou:

-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.

E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.

Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.

-É igual, vêem?

E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:

- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.

Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:

-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.



Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano






Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.








sábado, 25 de junho de 2011

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros




Nesta etiqueta ficarão lugares, viagens e livros.
Também pormenores de desenhos, pinturas e fotografias,como quem escolhe um miradouro ou então se aproxima por instinto para ver melhor e nessa operação tudo se desfoca, para logo se desdobrar num mundo novo.



WANDERNBURGO
/ Andrés Neumann / Ana Hatherly


Wandernburgo: cidade móvel sit. aprox. entre os ant. est. da Saxónia e da Prússia. Cap. do ant. principado com o m. nome. Lat. N e long. E indefinidas por deslocação (...) Hidrogr.: n. Nulte, não navegável. Activ. econ.: cult. de trigo e ind. têxtil (...) Apesar dos testem. de cronistas e viajantes, jamais foi det. a sua loc. exacta.

Após um novo passeio sobre a geada, Hans teve a impressão absurda de que a planta da cidade se desarrumava enquanto todos dormiam. Como podia perder-se tanto? Não conseguia explicá-lo: a taberna onde tinha almoçado aparecia na esquina oposta à que a sua memória lhe indicava, a ferraria que deveria estar ao virar à direita sobressaltava-o com os seus golpes pela esquerda, aquela ladeira que sem dúvida descia oferecia-se subitamente empinada, certa paisagem que ele recordava ter atravessado e que deveria desembocar numa avenida via-se interrompida numa taipa cega. Desafiado no seu orgulho de viajante, após negociar com um cocheiro um assento na próxima carruagem para Dassau, Hans manteve o seu empenho em identificar as ruelas que percorria. Porém, tal como acertava duas ou três vezes e cantava vitória, desalentava-se ao comprovar que se perdera novamente. O único lugar que se mostrava invariavelmente acessível era a Praça do Mercado, à qual regressava incessantemente para se orientar. Aí estava de novo Hans, a fazer tempo para a saída da carruagem, procurando fixar na sua mente os pontos cardeais, transformado em relógio de sol a projectar uma lança de sombra sobre o empedrado, quando viu chegar o tocador de realejo.








ana hatherly
in a reinvenção da leitura (pormenor)

Andrés Neuman, O Viajante do Século, Alfaguara, 2010 (trad. Vasco Gato)
Ana Hatherly, A Reinvenção da Leitura, Editorial Futura, 1975






sábado, 14 de maio de 2011

olhos nos olhos






Inês d'Orey - série Porto Interior -
hotel dom henrique #1 - 2010


A cidade é um brinquedo perigoso. Deixa-nos recuar, depois selar os olhos, e fica o trânsito cuidadoso e sereno. Permite a paixão da ordem, simetrias que doem e coisas que dispomos de viés, para que se afastem uma vez mais. Só depois nos oferece o abismo e os últimos brilhos no vidro, um pouco fosco, do olhar.

J.M.T.S.






sábado, 30 de abril de 2011

oCorpodasLetras

Para lá do papel, do seu silêncio branco ou atordoador. Palavras misturadas com a voz, também músicas ou imagens que se colam às palavras, momentos em que as letras persistem na glória difícil e espontânea da vida.








valter hugo mãe diz valter hugo mãe
visto aqui