poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








terça-feira, 26 de julho de 2011

as súbitas permanências




AURÉLIA DE SOUSA, NA VARANDA SOBRE O DOURO


É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente

Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa

mas enfrenta-me, acabou de nascer

e abre imensamente os olhos
A névoa abraça-nos até ao osso

respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis

não sabem como visto

numa sombra perfeitamente de mim
a cidade de que parti e não conheço

e nem sequer posso esquecer
Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde

entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa

mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando
Estranham-me a roupa escura e os olhos claros

o camafeu que disfarça os dois seios
sim, eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios


Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos

certa jardinagem, grades sobre rendas

Algo sopra dos fundos dos quartos

fecha as janelas, murmura versos que não possas viver

Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça

atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida



J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






jmts








quarta-feira, 6 de julho de 2011

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




O Poeta Dorme Sempre de Pé



Esta teoria portátil nasce de alguns acasos e circunstâncias. Tenho andado às voltas com um poema sobre a Torre dos Clérigos (tão vertical, como sabemos) e o seu autor, Nicolau Nasoni, que estará sepultado (supõe-se que na horizontal) em lugar incerto da igreja anexa, tudo pretensamente para a minha série de poemas Os Lugares Perdidos, cujo título talvez se perca mudando precisamente para O Lugar Que Muda o Lugar - mas nada disto é, de facto, muito rigoroso.

Tencionava também fazer uma entrada para esta etiqueta das Teorias Portáteis a partir de dois dos "senhores" de Gonçalo M. Tavares, Breton e Eliot. Neles, pelo que vislumbrei folheando os livros algures, recolheria duas visões bem destacadas acerca da palavra poética e do seu trabalho, diferentes e sugestivas formas de nos acercarmos da poesia e da sua hipotética essência. Dá-se a circunstância de ainda não ter tido dinheiro para comprar, logo de uma assentada, os dois senhores, e daí ter ido buscar um outro que, felizmente, já estava na estante: O Senhor Valéry. Na parábola que se segue (e que transcrevo com a devida vénia), pontuada pelos conhecidos desenhos de Rachel Caiano, encontro algumas pedras ou tijolos para o meu poema e uma arquitectónica teoria que aplico, de forma algo selvagem, à poesia:



O Cubo

O senhor Valéry dormia sempre de pé para não adormecer.

Ele explicava: Uma torre é feita para ver tudo. E acrescentava: Não há torres horizontais.

No entanto, provocado, o senhor Valéry decidiu desenhar uma torre deitada.

E depois explicou:

-Se a torre for um cubo vemos o mesmo, lá de cima, quer ela esteja na vertical ou na horizontal.

E desenhou uma torre em forma de cubo, na horizontal.

Depois desenhou uma torre em forma de cubo, na vertical.

-É igual, vêem?

E o senhor Valéry concluiu, dizendo, num tom filosófico e profundo:

- Se todas as coisas fossem cubos não haveria tantas discussões. E não existiria a dúvida.

Depois de uma pequena pausa, o senhor Valéry disse ainda:

-Não é por acaso que eu durmo sempre de pé.



Gonçalo M. Tavares, O Senhor Valéry, Caminho, 2002 - desenhos de Rachel Caiano






Há belíssimos poemas que servem só para neles adormecermos, há canções de embalar, mas uma das qualidades da poesia (sim, a palavra não é pacífica...) poderá ser a de dormir de pé. Ela propõe uma distância, um repouso do mundo apenas para nele contrariar a uniformidade, e então ver simplesmente tudo, até porque as dúvidas não permitem o horizontal sono profundo, pelo qual talvez (lá muito no fundo) anseie. É claro que, ao defendermos uma perspectiva tão elevada da poesia, dificilmente escaparemos à tipificação irónica de uma história exemplar.








sábado, 25 de junho de 2011

GEOgrafias 
lugares & viagens & livros




Nesta etiqueta ficarão lugares, viagens e livros.
Também pormenores de desenhos, pinturas e fotografias,como quem escolhe um miradouro ou então se aproxima por instinto para ver melhor e nessa operação tudo se desfoca, para logo se desdobrar num mundo novo.



WANDERNBURGO
/ Andrés Neumann / Ana Hatherly


Wandernburgo: cidade móvel sit. aprox. entre os ant. est. da Saxónia e da Prússia. Cap. do ant. principado com o m. nome. Lat. N e long. E indefinidas por deslocação (...) Hidrogr.: n. Nulte, não navegável. Activ. econ.: cult. de trigo e ind. têxtil (...) Apesar dos testem. de cronistas e viajantes, jamais foi det. a sua loc. exacta.

Após um novo passeio sobre a geada, Hans teve a impressão absurda de que a planta da cidade se desarrumava enquanto todos dormiam. Como podia perder-se tanto? Não conseguia explicá-lo: a taberna onde tinha almoçado aparecia na esquina oposta à que a sua memória lhe indicava, a ferraria que deveria estar ao virar à direita sobressaltava-o com os seus golpes pela esquerda, aquela ladeira que sem dúvida descia oferecia-se subitamente empinada, certa paisagem que ele recordava ter atravessado e que deveria desembocar numa avenida via-se interrompida numa taipa cega. Desafiado no seu orgulho de viajante, após negociar com um cocheiro um assento na próxima carruagem para Dassau, Hans manteve o seu empenho em identificar as ruelas que percorria. Porém, tal como acertava duas ou três vezes e cantava vitória, desalentava-se ao comprovar que se perdera novamente. O único lugar que se mostrava invariavelmente acessível era a Praça do Mercado, à qual regressava incessantemente para se orientar. Aí estava de novo Hans, a fazer tempo para a saída da carruagem, procurando fixar na sua mente os pontos cardeais, transformado em relógio de sol a projectar uma lança de sombra sobre o empedrado, quando viu chegar o tocador de realejo.








ana hatherly
in a reinvenção da leitura (pormenor)

Andrés Neuman, O Viajante do Século, Alfaguara, 2010 (trad. Vasco Gato)
Ana Hatherly, A Reinvenção da Leitura, Editorial Futura, 1975






sábado, 14 de maio de 2011

olhos nos olhos






Inês d'Orey - série Porto Interior -
hotel dom henrique #1 - 2010


A cidade é um brinquedo perigoso. Deixa-nos recuar, depois selar os olhos, e fica o trânsito cuidadoso e sereno. Permite a paixão da ordem, simetrias que doem e coisas que dispomos de viés, para que se afastem uma vez mais. Só depois nos oferece o abismo e os últimos brilhos no vidro, um pouco fosco, do olhar.

J.M.T.S.






sábado, 30 de abril de 2011

oCorpodasLetras

Para lá do papel, do seu silêncio branco ou atordoador. Palavras misturadas com a voz, também músicas ou imagens que se colam às palavras, momentos em que as letras persistem na glória difícil e espontânea da vida.








valter hugo mãe diz valter hugo mãe
visto aqui








sábado, 5 de março de 2011

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia






Fotografia como cicatriz e palimpsesto

Diz-nos a japonesa Miyako Ishiuchi, a propósito das suas fotografias de cicatrizes (ver aqui e aqui):

I cannot stop [taking photographs of scars] because they are so much like a photograph. They are visible events, recorded in the past. Both the scars and the photographs are the manifestation of sorrow for the many things which cannot be retrieved and for love of life as a remembered present.


E Gérard Castello-Lopes nas Reflexões Sobre Fotografia (Assírio & Alvim, 2004, pp. 67,68) :

Estou persuadido de que, ao longo da nossa vida, e particularmente durante a infância, vamos retendo, memorizando formas, gostos, cheiros, sabores, que armazenamos algures numa memória de que só temos vaga consciência. E assim se gera em nós uma espécie de palimpsesto, uma escrita secreta, meio obliterada pela percepção racionalizável e superficial da realidade que nos cerca.
Mas aqueles arquétipos sobem à tona do consciente de vez em quando, sobretudo quando tentamos exprimir algo profundo e importante. Nas artes plásticas, de que a fotografia é parente menor, poder-se-ia definir esse surdir arquetípico como o alicerce do que comummente chamamos estilo, aquilo que nos leva a distinguir uma fotografia de Cartier-Bresson doutra de Alvarez Bravo. É o signo escondido, o vinco pessoal, a secreta assinatura do autor.

Em ambos os casos se revela a conhecida vocação da fotografia para lidar com o passado, ou melhor dizendo, com o presente em devir sempre iminente de passado. Recordemos o projecto de Atget, que percorre o Velho Paris exactamente um segundo antes do camartelo da modernidade.
Mas os dois fotógrafos fazem-no de modo paradigmaticamente diferente.
Em Miyako a cicatriz é a presença delicada e dolorosa de uma ausência e a fotografia vem suturar as feridas da vida. No vendaval do tempo, as imagens são o que resta de um traumatismo, uma espécie de inventário cruel e sensível dos despojos que uma existência largou, pequenas colecções que ecoam a violência do passado na beleza da sua quase extinção.
Em Gérard a fotografia é a madeleine proustiana, torna a encenar a inefável cena primitiva e pessoal. O tempo deixa-se ver na transparência eterna de si mesmo, jogo, ilusão e iluminação, como se fosse todos os dias descoberto na sua antiga novidade. É assim nessa fotografia (Algarve, 1957) em que uma mulher nos sorri pela primeira vez desde o mais dentro das eras.


(passagens: este texto é também uma homenagem a Gérard Castello-Lopes :1925-2011).



J.M.T.S.




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

o coração vertiginoso e a lentidão do mundo





wim wenders . as asas do desejo . 1987
com bruno ganz e solveig dommartin



sábado, 12 de fevereiro de 2011

olhos nos olhos






Jean-Luc Chapin - Retours à Hugo -
Villequier, 2005



Sabei que o meu nome é apenas Adèle H. , que o tempo se faz de iniciais e coisas apagadas, do esquecimento que as flores reabrem. Sabei que o meu nome é apenas paixão, que a luz entranha o leito de mármore e as chuvas regressam para que os dias e as noites inteiros se percam.


J.M.T.S.





segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

o ar entre as folhas






JMTS



Enquanto pode está o olhar vivente / voltado a um horizonte / e assim respira a luz do ser / e quando já não pode / morre sem fim de não morrer . antónio ramos rosa . o livro da ignorância



sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

passagens

















































































Entremos, apressados, friorentos, / numa gruta, no bojo de um navio, / num presépio, num prédio, num presídio, / no prédio que amanhã for demolido... / Entremos, inseguros, mas entremos. / Entremos, e depressa, em qualquer sítio, / porque esta noite chama-se Dezembro, / porque sofremos, porque temos frio.

pieter brueghel . a adoração dos magos numa paisagem de inverno (1567) . david mourão-ferreira









sábado, 27 de novembro de 2010

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia













Poesia e Real ou O Poeta e o Mar


Fernando Guimarães escreve poesia e fala sobre poesia. Continua a ser um dos segredos menos bem escondidos da nossa cultura literária e filosófica, um autor devidamente consagrado, mas que se mantém discretíssimo. (Fica aqui uma excelente leitura do poeta por Maria João Reynaud).
Desta vez, encontramo-lo numa entrevista filmada, na Página Literária do Porto, em três sequências (aqui). Num primeiro momento, fala-nos da "Poesia Portuguesa Contemporânea", centrando-se, em particular, nos conceitos de "modernismo" e "pós-modernismo"; depois discorre sobre os "Sentidos da Poesia" (linguagem, imaginação e ideologia) e o "Papel da Crítica". No último filme, após a abordagem do tema "Da Década de 50 à Actualidade" (revistas de poesia e edição de poesia), temos "Poesia e Real".

Poesia e Real, portanto. A pergunta do entrevistador terá sido esta: qual a influência, na sua poesia, do lugar onde nasceu e vive, o Porto? Fernando Guimarães responde:

« Julgo que essa influência não foi significativa. Apenas terá para mim um significado (mas um significado que se fecha em mim mesmo) o facto de eu viver muito junto do mar, e olhar para o mar é qualquer coisa que não pode deixar de nos influenciar. Mas se nos influencia, poderá influenciar a poesia?»

O poeta responde com uma pergunta e um sorriso sábio e hesitante, numa espécie de douta ignorância. Depois percebemos, nos últimos planos, que se trata de uma sala cheia de livros, uma luz central, um vulto na mesa de trabalho, uma janela azul quase noite.
Talvez possamos, humildemente, colocar as coisas deste modo. Há lugares e mundos que não podem deixar de nos influenciar. Há significados que se fecham em nós mesmos. O poema imita os lugares e os mundos na medida em que o seu significado se fecha em si mesmo.

Duas citações. A primeira de António José Saraiva em Ser ou Não Ser Arte, Pub. Europa-América, 1974:
O poema e as suas palavras não representam, são. Não há além do poema, a não ser a infinitude em que ele mesmo participa. E este ser do poema e das suas palavras não se fecha dentro do poema e das suas palavras. O poema significa sempre algo, mas já não no sentido de que é o significante ou o representante de outra coisa, antes no de que não cabe todo dentro dele mesmo, está dentro e fora dele mesmo. Um poema significa uma realidade do mesmo modo que uma concha marinha significa o mar: ela não é o emblema convencional do mar: é também o mar, onde se gerou e de que nos traz a presença.

A segunda citação recolhemo-la no próprio Fernando Guimarães e é o início de um poema de Na Voz de um Nome, Roma Editora, 2006 :

Refiro-me ao mar, à areia, a esta rede dispersa e transparente.
Isto é o que escrevo e tu, leitor, vens acrescentar algumas palavras; sempre foi assim. Procuro encontrar à volta um pouco mais de luz, e se ela chegou foi porque a trazias contigo.


É favor ler todo o resto do poema. Fica na página 12.








quarta-feira, 10 de novembro de 2010

# Em Agenda #






Tenho a honra e a alegria de colaborar neste projecto. Será feita uma leitura encenada do meu texto para teatro Penas Pesadas da Neve, que pretende visitar por dentro a vida, a música e o pensamento de Olivier Messiaen (Centro Dramático de Viana: Castro Guedes- leitura e direcção cénica; Ricardo Simões- leitura). O destaque vai para o restante programa: as conferências da tarde ( "Leituras da morte e da esperança na poesia portuguesa"), o concerto da noite (Quarteto para o Fim dos Tempos de O. Messiaen) e a exposição com esculturas de Karin Somers. O meu texto pode ser lido neste blogue, a partir da ligação "teatro" da barra lateral ou, mais comodamente, aqui . Aqui e aqui encontram-se outras informações.



A pergunta na hora de partir [Daniel Faria]
leituras da morte e da esperança na poesia portuguesa

15 Nov. 2010
Universidade Católica . Porto Foz

Auditório 1
15.00h. Abertura: Prof. Joaquim Azevedo
15.30h. António Nobre - José Carlos Seabra Pereira
16.00h. Teixeira de Pascoaes - António Cândido Franco
17.00h. pausa / café
17.30h. Ruy Belo - Manuel António Ribeiro
18.00h. Daniel Faria - Carlos A. Moreira Azevedo
19.00h. Encerramento: D. Manuel Clemente

Auditório Ilídio Pinho
21.30h.
Penas Pesadas da Neve . José Manuel Teixeira da Silva
Quarteto para o Fim dos Tempos . Messiaen . Filipe Pinto-Ribeiro (piano), Pascal Moraguès (Clarinete), Tatiana Samouil (violino), Justus Grimm (violoncelo)

Decorrerá simultaneamente uma exposição com esculturas de Karin Somers

Inscrições até 10 Nov. 2010
SDPC . Porto sdpcultura@gmail.com






domingo, 31 de outubro de 2010

olhos nos olhos



Paul den Hollander - série Moments in Time - 1972-1979

Como se o lugar fosse desenhado linha a linha, e depois quadrado a quadrado, e de sombra em sombra, e depois para que, finalmente, aparecesses. És tu quem nos leva pela mão. Um cenário em sobressalto, quando te debruças para o mar. Apenas o mar, inteiro, desdobrado.

J.M.T.S.








segunda-feira, 25 de outubro de 2010

passagens


Súbito faz hoje um ano. Apenas um ponto no trânsito das passagens. Cruzamentos de vozes, luzes, escuridão e tempo. Presenças presentes, também sugeridas e multiplicadas. Apenas um ponto.


Podemos, por exemplo, celebrar assim: terei todo o gosto em oferecer um exemplar do meu livro de poemas As Súbitas Permanências ao primeiro leitor do blogue (tem de haver um critério qualquer...) que se me dirija nesse sentido, por e- mail, e não se esqueça de comunicar uma sua morada menos virtual: um lugar, uma rua, um número de porta.

post scriptum: o livrinho já encontrou o seu novo dono. Obrigado.





quarta-feira, 20 de outubro de 2010

#Em Agenda#



espaço corpus christi Largo de Aljubarrota, 13 / Vila Nova de Gaia / junto ao Cais de Gaia


Exposição de Ana Abreu / “Meninas”
Coro - baixo / de 23 de Outubro a 24 de Novembro / 2010
De terça a domingo / das 10:00h às 18:00h


inauguração / 23 de Outubro / 16h







sábado, 2 de outubro de 2010

cadernos.e.luzes

Cadernos e luzes: palavras e fotografias, álbuns, umas letras, iluminações, tempo. Súbito e para sempre.










Um poema de Música de Anónimo, fotografias de uma casa no Porto, aliás, a casa no Porto.





quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia








Virtudes e pecados da fotografia

Virtudes da fotografia ou o pecado da desobediência a uma imagem definitiva da vida. Percorrer o mundo fisicamente com uma máquina nas mãos, fazer reportagem, ter de estar no local, no seu ar, luz e atrito, no correr dos dias. Buscar depois o ensaio, algo por detrás das aparências evidentes ou uma evidência maior das aparências- e, então, por exemplo, o preto e branco, redesenhar os modelos, encontrar uma beleza politicamente incorrecta, a fluidez dos corpos, o momento em que se fundem com a respiração das casas, o banho lustral das figuras que mergulham e depois deslizam na espessura do seu próprio tempo. É assim em Jennette Williams, The Bathers (aqui).
J.M.T.S.







terça-feira, 31 de agosto de 2010

o lugar que muda o lugar




Capela dos Ossos em Lagos


É um anexo da morada branca
para lá da sucessão das naves
Em rigor, errámos apenas de transparência
em transparência, até às cúpulas quebradas de cristal
Há mudanças de horários, atrasos nos semáforos
uma ou outra metáfora
ondulações, voos espaçados
Recomeçaram obras de conservação ou de restauro
e assim se adiam as visitas
O estilo é gracioso, com ossinhos delicados
simetrias que o acaso desenhou
para quase nada
e só o pensamento agora edificou
Pendem as maçãs de ouro, no fundo do jardim
como se fossem já maduras

Ampliações e reconstruções
os nomes que imitam, como sempre, a natureza
estragos causados por um terramoto antigo
a imagem de uma santa dando à costa num caixão
e que alguém vai recolher, após naufrágio

Lento, o labor do sal e da luz nessa capela



JMTS











terça-feira, 17 de agosto de 2010

súbito a mão


São poemas antigos. Sinto que escrevo hoje bastante melhor e bastante pior do que nesses tempos. A dedicatória que lá não está é ainda a dedicatória que lá não está. Sei que, se um dia puder publicar uma reunião de poemas meus, estes vão aparecer: primeiras pedras, seixos, pedregulhos.



I.



Súbito
a mão
para lá da
luva prespontada
aqui influi o sangue
langue o corpo exangue
dói
pelo empapado tecido opaco
enquanto duram os
mecanismos perfurantes
Mas súbito
a mão





II.


Rasga-te o pó do rosto
o trovão limpo
sobem as águas
ferros enferrujam
arcos de ângulos
barcos rumam
o teu olhar
liso
após a tempestade



III.



Precária transparência
rente à janela rasa
duram os destroços
vivos a asa aparafusada
caindo
quartos de olhos
entreaberto círculo
espiado violada
permanência
a tua mão fria
no lençol clandestino
esvaindo
Mas súbito
copiosas chuvas
nos teus dedos
frágeis
frios






IV.



Chuva nos vidrilhos espa
lhados
rui o lugar enraizado
a ferro labirinto des
dobrado à chuva grossa
nos cruzamentos cerrados
abrem-se as pontas
no mudar do nevoeiro
as pontes
A tua mão
chuva concêntrica
no lago





V.


As raízes fundas per
seguem as tuas
águas claras reentrâncias
unas sugadas pelas
células mortas minerais
Envolvem férreas circunstâncias
o leito adulterado
as mãos cerradas per
passadas
Mas súbito
as dunas
a mão
e
a mão
entrelaçadas





VI.



Persistem as duras
cintilações nos belos
espelhos a guerra ácida
óxidos ferros per
sistem Mas nos membros par
tidos o súbito
sereno laço
a asa asa
Silêncio
no côncavo da onda
a tua mão
vem





VII.



Trovejados até à lisura
os poros de areia nas pálpebras
de chuva





VIII.



Nas veias do teu olhar
no súbito seio
da tua palma clara
reerguidas as cidades
no curso dos teus dedos
E apagam-se os sinais
                      acumulados



Esta sequência poética foi publicada em 1983, no âmbito de um concurso literário organizado pela Associação de Estudantes da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, com o apoio do F.A.O.J. (Fundo de Apoio aos Organismos Juvenis), comemorando o IV Centenário da Morte de Camões -1980-81. Coube-lhe o segundo prémio, sendo o júri constituído, nomeadamente, pelos professores Arnaldo Saraiva, José Adriano de Carvalho e representante da Associação de Estudantes. O primeiro prémio foi atribuído a Mecânica do Sexo XX, que inaugurou a obra poética de Luís Adriano Carlos, investigador e professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O terceiro ao poema "Espigas de Urze" (publicado conjuntamente com o segundo prémio), de Mª. Conceição Meireles Pereira, hoje investigadora e docente do Departamento de História da mesma Faculdade (autora, aliás, de um pequeno livro que muito aprecio: O Porto no Tempo de Garrett - Biblioteca Pub. Munic. Porto, 2000). O desenho da capa é de Ana Freire.












quinta-feira, 12 de agosto de 2010

o som é como um laço



Aqui, na página virtual de Adriana.


adriana calcanhotto . "calor" in cantada . 2002


[ O som é como um laço porque a música que nos interessa - matemática pura e longínqua- chega até ao momento vivo e contingente que é, exactamente, o nosso, aqui e agora: por exemplo, calor na varanda de Lagos sobre o verão. Adriana dá-nos nesta canção uma Winterreise tropical: o pequeno formato dos grandes sentimentos, a natureza cúmplice e adversa, geografias desencontradas, o amor projectado numa distância íntima, que as inflexões da voz explicam como é.]




sábado, 7 de agosto de 2010

 Parábola Óptica
 teorias portáteis sobre fotografia






                        Momento Decisivo ou Inventário do Mundo

De entre as práticas da fotografia, procuremos reter duas polarizações, a partir das quais poderíamos graduar muitos outros percursos pessoais. São pontos de referência num universo de pesquisa estética múltiplo e cada vez mais descentrado. Cercar o mundo, estender-lhe diferentes redes de captura, sabendo que ele é matéria fugidia ou que a missão é talvez apenas impossível.
Por um lado, buscar o momento decisivo, no rasto dos passos consagrados de Henri Cartier-Bresson, das suas fotografias e escritos teóricos. Com a discrição, penetração, rapidez e rigor do olhar, fixar momentos em que o mundo como que se assemelha mais a si próprio, construindo arquétipos onde quotidiano, História da arte, geometria e ideologia dialogam numa tensão e equilíbrio enfim revelados. Só um exemplo: Derrière la gare de Saint-Lazare (Paris, 1932).





É uma cena trivial de um Paris chuvoso, que o fotógrafo-repórter percorre numa atenção quase felina. O momento decisivo: na espessura do quotidiano, na sua materialidade um pouco sórdida (pedregulhos, escadas desconjuntadas, traseiras do grande mundo), o milagre da matéria volátil e grácil da vida. O salto atrapalhado de um anónimo transeunte, para não sujar os pés na lama da cidade, repete a imagem do cartaz que anuncia a beleza leve de uma pirueta. E o fotógrafo merece, então, toda a sorte que o apuro do seu olhar justifica. No Inverno do mundo, inventar o mundo que retoma a inesperada e árdua suspensão do mundo.

Em silencioso contraponto, Andrew Hetherington (e é apenas um exemplo) prossegue o mais paciente trabalho de inventário, quarto de hotel após quarto de hotel, na sua série / livro A Room with a View, como se aí se jogasse o próprio modo de habitarmos a vida. O fotógrafo apresenta-nos uma pesquisa sistemática de quatro anos das suas errâncias, registando, de modo aparentemente neutro, as paredes de todos os hóteis onde permaneceu e as vistas das respectivas janelas. Da acumulação da banalidade nasceria uma compreensão global, dar-se-ia um salto qualitativo, numa espécie de teoria explicativa, bem fundamentada, mas por desistência ou exaustão. Talvez aqui se repitam (um pouco ao contrário, elegendo a estranheza vulgar do quotidiano contemporâneo como um novo exotismo, e retomando com ironia o romance de E. M. Forster) as imagens dos primitivos fotógrafos norte-americanos à descoberta do Novo Mundo ou as peregrinações pelas geografias orientais de finais do século XIX. Esta série fotográfica pode ser vista na página virtual do autor (aqui) e é apresentada, com a ironia devida, neste vídeo (aqui).








Uma outra sugestão de leitura, para acompanhar a série de Hetherington: o romance de Olivier Rolin, Suite no Hotel Crystal (aqui), em que se prova, na prática, como todas as histórias do mundo se escondem e revelam no seco rol dos quartos de hotel que nos cabem ou fazemos por merecer.

J.M.T.S.