poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








quarta-feira, 30 de junho de 2010

as súbitas permanências



MONTAGEM
para a Paula e para a Sofia

E depois
eram os meninos do aniki-bobó
no campo longo as
tranças a preto e branco o bolso
do calção dava para a varanda do
rio
entre as ervas da chita o
passarinho totó e a estrela dos barcos
O comboio, a queda, o túnel, o túnel


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)




























































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema "Montagem"








terça-feira, 22 de junho de 2010

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia



jorge colombo, the reader (recolhido aqui)

A Leitora

Ler, e ler, por maioria de razão, poesia, poderá exigir para muitos uma metafísica, mas implica, antes de mais, e para todos, uma física. Mau estar, embaraço, desencontro. Ou então felicidade viva, corpo a corpo, talvez uma arte de amar. É o que nos propõe o pequeno filme de Jorge Colombo, The Reader: expectativa, envolvimento, ritmo, ocultação, sedução; à volta, igual e de cada vez diferente, a vida quotidiana.

Outros lugares onde se poderá aprender o mesmo: um belíssimo sítio virtual, O Silêncio dos Livros (aqui), curso acelerado que nos revela como ler implica perder, ganhar, transformar o corpo; ou o álbum de Eduardo Prado Coelho, Manuel Gusmão e Duarte Belo- O Leitor Escreve Para Que Seja Possível (aqui); ou ainda o romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante (Porto, Público, colecção "Mil Folhas", nº 11, 2002- trad. José Colaço Barreiros):

Estás para começar a ler o novo romance Se Numa Noite de Inverno um Viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de ti todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. A porta é melhor fechá-la; lá dentro a televisão está sempre acesa. (...) Arranja a posição mais cómoda. Sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.

Faltará à Didáctica da Poesia (se tal não for uma contradição nos seus próprios termos) a atenção a esta física da leitura : ler alto, ouvir ler alto ou criar condições para que cada qual saiba estar de corpo perdido e reencontrado perante os poemas que existem no mundo que assim se recria.





sábado, 19 de junho de 2010

passagens
(1922-18/6/2o10)


(...) A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar,a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar disso, estamos vivos, Blimunda(...). memorial do convento




quinta-feira, 27 de maio de 2010

Parábola Óptica
teorias portáteis sobre fotografia



Um espaço para falar de fotografia, o que quer que isso queira dizer: o falar sobre e o próprio objecto do falar. Uma luz ou escuridão central de que só nos acercamos, por pudor, temor ou encandeamento. A inspiração do título vem de uma fotografia de m. álvarez bravo.





Livros de Fotografia: modo de usar

Como ver fotografias? E nos livros?
Claro, podem expor-se, elas são mesmo o resultado de exposições várias, dos corpos, dos filmes, nas paredes. E nos livros.
Nos livros estão expostas de modo a que a sua mútua presença cria desde logo narrativas implícitas, fios de espaço e do tempo, a percorrer. Fotografar é ocupar o lugar e um livro de fotografia encena ou retoma essa ocupação. Não esquecer ainda a existência física dos nossos dedos que reorganizam a cena, em velocidade, sequência, atrito, hesitação.
O livro de fotografia 720 de Andrew Phelps, bem como o vídeo que o apresenta, são uma muito sugestiva colocação destas questões.




Recolhido aqui, um óptimo lugar para quem gosta de livros de fotografia. (Ver também aqui , aqui, aqui, aqui e aqui.)
J.M.T.S.






terça-feira, 25 de maio de 2010

O aprendiz de FEITICEIRO
teorias portáteis sobre poesia




TEORIA DA POESIA: parêntesis de parêntesis ou o feitiço contra o feiticeiro



No título a alusão ao belíssimo livro de Carlos de Oliveira. Esta etiqueta recobrirá efémeros pensamentos pessoais sobre poesia, num dia em que o autor do blogue se ache mais inspirado, ou justamente menos, talvez apenas mais pachorrento, para recordar a versão pacífica de um verso célebre. Ou recolhe-se então, a propósito, uma citação teórica, um poema ou excerto narrativo alheios, tudo o mais.

É também uma homenagem distante a um professor de Teoria da Literatura, Américo Santos, a quem muito admirava por um saber que queria sobretudo inquietar (assistente de um outro professor que também não esqueço, José Augusto Seabra, ambos absurdamente já distantes do mundo onde estamos). Ensinava ele que nesse livro de prosas estavam sugeridas, exemplificadas ou consagradas todas as grandes questões de uma teoria da literatura (dizia: podem daqui nascer infinitos ensaios sobre a vida dos livros).

Permita-se uma primeira intuição sobre o tema que aqui nos ocupará: uma teoria da poesia talvez se traduza apenas em parêntesis como estes, parêntesis que sempre se abrem noutros parêntesis, algo que vai avançando, mas tudo suspendendo e a tudo regressando. Sim, e talvez se vire o feitiço contra o feiticeiro, manipulando matérias facilmente inflamáveis.

O Aprendiz de Feiticeiro- um livro que, se pudesse, mandava encadernar com uma capa sóbria de pele natural, para proteger os grafismos de Lima de Freitas e as fotografias de Augusto Cabrita, mas haveria nela desenhos extravagantes embutidos, labirintos lavrados a fogo.

J.M.T.S.






















Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro (com fotografias de Augusto Cabrita),
publicações dom quixote, 1971









quarta-feira, 5 de maio de 2010




















J.M.T.S.


súbito
Agora o menino fixa os brilhos do Sol numa poça de água. O labirinto de ruas, esquinas, montras, espelhos, tabuletas que dizem «moda», «médico», «filatelia», «retrosaria», trouxe-o até ali, àquela praça de luz mediterrânica. Vão partir para África tios e primos, fica pequenino à sombra do vapor, um imenso paquiderme, aquele movimento do cais chora-lhe nos olhos. Ele antecipa a sirene dramática, o barco que vai desencostando, os sabidos lenços brancos. Fixa os brilhos de Sol numa poça de água, a intensidade que ofusca, e pensa, surpreendendo-se de o pensar: «Vou olhar esta luz. Daqui a muitos anos volto a pensar nela, ela existirá ainda talvez, talvez tudo exista ainda um pouco e nada tenha acabado e eu fique aqui para sempre a olhar o brilho desta água para não chorar, talvez partam mas tudo fique ainda um pouco, para sempre».


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

terça-feira, 27 de abril de 2010

olhos nos olhos


Jeanloup Sieff - Istanbul - 1959


Um barqueiro sombrio? Recorde-se a inclinação de certas horas ou o embalo com que chegam as cidades, aparecem, desaparecem com os avanços das vagas, o vogar atento dos peixes. Saltaremos de barca em barca, até alcançarmos os cais flutuantes, balançam imenso logo que neles assentamos os pés. As torres sobem até ao céu, mergulham com as casas em atropelado precipício. Um pouco mais tarde, esqueceremos a viagem na ondulação dos mercados, ruas e becos. Aí naufragaremos para sempre.

J.M.T.S.



sexta-feira, 23 de abril de 2010

as súbitas permanências



O JOVEM BACH, IMPROVISANDO EM OHRDRUF


Aqui estou de improviso
rapaz solitário no gelo do tempo
Talvez se chame destino, é uma cifra inspirada
água que de longe corresse nos dedos mais vivos
Ficam rígidos se paro
e a música brilha, então, silenciosa no ar da neve
Horas e horas a fio
abre-se-me a vida, imparável, submissa
como se houvesse uma glória das coisas
que assim nos fosse sensível
Voos que de voos se engendrassem
do mais surdo rumor dos dias
velórios sucessivos, a lenha conquistada
tantas outras fugas
O vento destas frinchas enregela os ossos
oxida a floresta dos tubos
musa de um desarmado fervor cósmico
Assim se aprende
no acaso decidido dos meus dedos
que tudo pode afinal acontecer
aqui tão só, mal chegando aos pedais
que movem o mundo


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)






























































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema
"O Jovem Bach, improvisando em Ohrdruf"








sexta-feira, 2 de abril de 2010

as súbitas permanências


PRENÚNCIO
para a Maria José

Se repetes o sopro luminoso
dos rios das estrelas do lugar
estremecem no tecido do silêncio
os fios do trovão assim suspenso
e as folhas sussurrando entre linhas
inscrevem agora espelhadas
um arrepio teu na minha pele


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001 (aqui)








































Amélia Piedade
trabalhos originais para o poema "Prenúncio"









sexta-feira, 26 de março de 2010

olhos nos olhos


Manuel Álvarez Bravo - Lucy - 1980

Reparem como estou vestida pelo sol mexicano. Fui desta vez o ser degolado, espantaram-me o cuidado do golpe e a ternura implacável. Só me resta devolver-te os olhos desejosos de mim. Toma-os com a melhor dedicatória: assim dançarei em redor dos salões sombrios a que ficaste condenado. Não quebres agora o silêncio, deixa-me despida de mim própria. Um triângulo de ouro escurecido, correspondências interrompidas, pupilas, mamilos, coisas visíveis que também espreitam o mundo.
J.M.T.S.




segunda-feira, 22 de março de 2010













J.M.T.S.



súbito
Desta vez é conduzido pela mão antiga do avô. Ele mostra-lhe as obras na cidade, leva-o nas ruas invadidas pela noite. Os operários aparecem das valas, lançam para as bermas uma terra que vem muito do fundo, os torrões rolam até aos nossos sapatos profanos. Outros avançam, quase sinistros, empunhando bicos de gás, vivem nas máscaras onde se reflecte, bruxuleante, a torre da cidade, a mesma que vê do seu quarto, entre os lençóis e as cortinas. É preciso ter cuidado nas esquinas apertadas, por entre os agudos afloramentos de granito, que são casas cegas no meio das casas com gente lá dentro, é preciso ter cuidado com os eléctricos, diz o avô, cortam de repente as curvas e as plataformas avançam sobre os passeios, mas ele leva-o pelo lado de dentro. É então que sente, como se fosse uma presença escondida, a atmosfera dos portais, um ar laboriosamente edificado, pica nos olhos e no nariz, húmido e denso.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007




quarta-feira, 17 de março de 2010

o coração vertiginoso e a lentidão do mundo




alfred hitchcock . janela indiscreta . 1954
com james stewart e grace kelly




segunda-feira, 1 de março de 2010

as súbitas permanências
passagens (1/3/1810)



FRÉDÉRIC CHOPIN, NO INVERNO DE MAIORCA
para o Domingos, em memória do tio António


1. A chegada à Ilha

Como se, olhando muito, fechasse enfim os olhos
e me embalasse, em contratempo, o ondular dos remos
o abraço dos últimos balanços que trazem a ilha
os palmares de brisa inebriante, dizem
enquanto tusso assim na tempestade
e ardem as fundas grutas do meu peito
os ecos da escassa música, o duro ataque


2.
No Luar de Palma

Onde estamos, se nos cerca a vibração da prata
o mar das baleares, o canto sacudido pelo vento?
Alheio bate-nos um coração do mundo noite fora
o contraponto, em silêncio, das ruas paralelas
ou as estrelas, a sua fuga, nos vagares da insónia
e ouço, do pátio exíguo, no fundo leito
o sopro inteiro do poço encantado do lugar


3.
A Arte da Composição

A estância da harmonia é esta casa dos ventos
o doce mecanismo dos tufões, um nocturno rumor improvisado
Chego-me ao fogo da cozinha, se o frio é assim a pele dos dedos
quando Aurora ilumina a perfeição, digamo-lo, de uma cebola
a aspereza nas pétalas delicadas sob a faca
Persigo os riscos das bátegas, o decisivo curso errático da vida
prelúdios para sempre inacabados, lágrimas apenas verdadeiras


4.
A Ocupação do Tempo

Procuramo-nos longe nesta rude estação
de costas um para o outro, como quem avalia uma distância
o estrondo do trovão no claustro abandonado, os relâmpagos
que o tempo ecoará no seu lento fulgor
Espera-se sempre um acorde e o silêncio
que ilumine o intervalo desta vida
a tua nudez anunciada, a sábia incompletude do amor


5.
Adeus

Entre vagas e vagas alternadas
partimos sempre da nossa vida inteira
como de uma ilha tão pouco visitada
À deriva das horas submersas
a neve sobre a neve, o rosto da amada
vida que corria com o rio
este último canto sobre as águas


J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001


[Saber que o tempo não se acumula, vibra em cada momento. 
Recordo este poema no dia em que Chopin nasceu, há 200 anos, 
um de Março de mil oitocentos e dez.]







 
 










única fotografia conhecida de Chopin, 
atribuída a Louis-Auguste Bisson, 
de 1849, o ano da morte






quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

domingo, 14 de fevereiro de 2010




















J.M.T.S.


súbito
Nesta história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio. Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar, uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça, brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também contar esta história.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita , Centro Atlântico, 2007






sábado, 6 de fevereiro de 2010

olhos nos olhos


Sergio Larrain - Valparaíso, Chile - 1957

A infância, a toda a volta do quarto da mãe, é Valparaíso, um cais que distribui estranha gente pelas ruas, estivadores, marinheiros, santas e mulheres selvagens, chegadas e partidas. É uma cidade que infinitamente se sobe e desce. Ao fim das tardes, alguém liberta das trapeiras gaivotas muito altas. Também existem guindastes e brinquedos mecânicos, caixinhas de música em que bate, como num sonho repetido, o coração. Está tudo edificado em excessiva luz e nas simétricas sombras, caves onde germina o bolor das horas que tombaram, mirantes para descobrir o desenho do movimento das praças. As garrafas passam de mão em mão, é puro leite ou denso veneno.

J.M.T.S.






terça-feira, 12 de janeiro de 2010

UmA EspéciE de MúsicA
no conservatório regional de v.n.gaia











UmA EspéciE de MúsicA. É um projecto fotográfico em curso, que interpreta o espaço arquitectónico do Conservatório Regional de Vila Nova de Gaia e a natureza que o envolve como uma espécie de música, para usar a expressão de Óscar Lopes a propósito da poesia de Eugénio de Andrade. Como se a música também no mundo respirasse. Dar corpo a uma suspeita: a fotografia talvez pudesse dialogar com uma casa e o seu jardim, para neles se revelar mais do que a sabida realidade utilitária. Estaria à nossa espera uma linguagem musical subjacente- ritmos, padrões, contrapontos, esquemas abstractos, formas orgânicas, meticulosos silêncios edificados. O lugar em que vive, ocupando com felicidade o nosso tempo, o Conservatório de Vila Nova de Gaia. Rascunhos, provas por acabar. J.M.T.S.









terça-feira, 5 de janeiro de 2010

olhos nos olhos

André Kertész - Washington Square, New York - 1954

Talvez o mundo seja apenas isto. Talvez me estejam a ver em alguma parte da terra, alguém siga o mesmo caminho de passos que desaparecem em sulcos de neve acumulada. E assim percorra os trilhos elegantes do espesso esquecimento, cercas e sinais, bancos ocupados pelo demasiado branco, caligrafia das árvores despidas. Talvez o mundo aqui nasça, talvez seja o último brilho, talvez os vultos se cruzem ou caiam em si, no gelo visível das paisagens.

J.M.T.S.


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009


J.M.T.S.



súbito
Na segunda [história] não nasci, mas há uma mulher que espera, com as mãos cruzadas no ventre. Olha pela janela do enorme edifício, uma fábrica de silêncios e ecos, a manhã avança, é como se escutasse o rumor do mundo, os silvos da sua rotação. Ela vê as ramagens em sobressalto, está à espera em frente do vidro e decifra as gotas de chuva. Batem as portadas, aqui e acolá, pensa nos pescadores que estão longe e sofrem no mar, nos que se abrigam entre as torres antigas da sua cidade, nos que vão pelos arrabaldes lamacentos. Acaricia distraidamente o ventre, descobre na distância um vulto que está também à janela, um rapaz que olha a tempestade, o mundo inteiro que nasce para os seus olhos. Ele acena-lhe longamente, por entre os riscos do dia, ela decide responder-lhe.

J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

o som é como um laço



igor stravinsky dirige pássaro de fogo . 1965
lullaby e final hymn

[como sustentar o pássaro da nossa própria música, o seu fogo, como despedi-la para tão longe de nós, adormecer nela, aí despertar para sempre, enquanto nos retiramos, compasso a compasso?]




ver.





J.M.T.S.






segunda-feira, 23 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

o som é como um laço


Em torno dele o som é como / um laço / Está sentado na margem do / teclado detendo com os braços / a força ameaçadora das águas gastão cruz







olivier messiaen . sobre os pássaros
ao piano Yvonne Loriod

[a música apenas ensina o pássaro a deixar-se cantar e o discreto homem a simplesmente voar]




sábado, 14 de novembro de 2009




alvão. pormenores de uma panorâmica. o douro no porto

súbito
E eis que retenho uma imagem da perfeição. Uma mulher canta na varanda, está lá desde sempre, encostada ao pano de pedra da parede, defende-se da vertigem. O braço leve acompanha a cal, o estuque esboroado. Está encostada e respira sob o tecido do vestido, canta, e é então que todo o ar da cidade a empurra mais um pouco contra o muro, a mão sobre os dois seios, o ar da cidade agora tão apurado, maresia, ferrugens, pó húmido de nuvens e ervas distantes, o penetrante cheiro do lodo do rio, a poeira dourada da ascensão do dia. Uma mulher canta, o ar espesso da cidade respira, suave e antigo, no longuíssimo momento.


J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007