terça-feira, 25 de maio de 2010
quarta-feira, 12 de maio de 2010
quarta-feira, 5 de maio de 2010
súbito
Agora o menino fixa os brilhos do Sol numa poça de água. O labirinto de ruas, esquinas, montras, espelhos, tabuletas que dizem «moda», «médico», «filatelia», «retrosaria», trouxe-o até ali, àquela praça de luz mediterrânica. Vão partir para África tios e primos, fica pequenino à sombra do vapor, um imenso paquiderme, aquele movimento do cais chora-lhe nos olhos. Ele antecipa a sirene dramática, o barco que vai desencostando, os sabidos lenços brancos. Fixa os brilhos de Sol numa poça de água, a intensidade que ofusca, e pensa, surpreendendo-se de o pensar: «Vou olhar esta luz. Daqui a muitos anos volto a pensar nela, ela existirá ainda talvez, talvez tudo exista ainda um pouco e nada tenha acabado e eu fique aqui para sempre a olhar o brilho desta água para não chorar, talvez partam mas tudo fique ainda um pouco, para sempre».
J.M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007
terça-feira, 27 de abril de 2010
Jeanloup Sieff - Istanbul - 1959
Um barqueiro sombrio? Recorde-se a inclinação de certas horas ou o embalo com que chegam as cidades, aparecem, desaparecem com os avanços das vagas, o vogar atento dos peixes. Saltaremos de barca em barca, até alcançarmos os cais flutuantes, balançam imenso logo que neles assentamos os pés. As torres sobem até ao céu, mergulham com as casas em atropelado precipício. Um pouco mais tarde, esqueceremos a viagem na ondulação dos mercados, ruas e becos. Aí naufragaremos para sempre.
J.M.T.S.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
O JOVEM BACH, IMPROVISANDO EM OHRDRUF
Aqui estou de improviso
rapaz solitário no gelo do tempo
aqui tão só, mal chegando aos pedais

Amélia Piedade
sexta-feira, 9 de abril de 2010
sexta-feira, 2 de abril de 2010
PRENÚNCIO
para a Maria José
Se repetes o sopro luminoso
dos rios das estrelas do lugar
estremecem no tecido do silêncio
os fios do trovão assim suspenso
e as folhas sussurrando entre linhas
inscrevem agora espelhadas
um arrepio teu na minha pele
sexta-feira, 26 de março de 2010

Manuel Álvarez Bravo - Lucy - 1980
segunda-feira, 22 de março de 2010
Desta vez é conduzido pela mão antiga do avô. Ele mostra-lhe as obras na cidade, leva-o nas ruas invadidas pela noite. Os operários aparecem das valas, lançam para as bermas uma terra que vem muito do fundo, os torrões rolam até aos nossos sapatos profanos. Outros avançam, quase sinistros, empunhando bicos de gás, vivem nas máscaras onde se reflecte, bruxuleante, a torre da cidade, a mesma que vê do seu quarto, entre os lençóis e as cortinas. É preciso ter cuidado nas esquinas apertadas, por entre os agudos afloramentos de granito, que são casas cegas no meio das casas com gente lá dentro, é preciso ter cuidado com os eléctricos, diz o avô, cortam de repente as curvas e as plataformas avançam sobre os passeios, mas ele leva-o pelo lado de dentro. É então que sente, como se fosse uma presença escondida, a atmosfera dos portais, um ar laboriosamente edificado, pica nos olhos e no nariz, húmido e denso.
quarta-feira, 17 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
passagens (1/3/1810)
Como se, olhando muito, fechasse enfim os olhos
2. No Luar de Palma
Onde estamos, se nos cerca a vibração da prata
3. A Arte da Composição
A estância da harmonia é esta casa dos ventos
4. A Ocupação do Tempo
Procuramo-nos longe nesta rude estação
5. Adeus
Entre vagas e vagas alternadas
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
domingo, 14 de fevereiro de 2010
súbito
Nesta história sabe que o pai vem de longe, calcorreou ruas, vielas, praças em diagonal, jardins, escadinhas, é um ponto na muralha, nos planos desdobrados e encaixados, até desembocar neste caminho junto ao rio. Encontram-se, estranham-se no modo como os olhos são vivos e únicos, se cruzam e se perdem. Todos dizem «o teu andar é tão igual ao do teu pai» e ele força o que julga serem os pontos de semelhança, um ligeiro curvar, uma coisa assim, mas, no esforço, fica menos parecido e o resultado é grotesco. O pai vai partir um dia, atravessará a grande ponte, segue-o com a vista, aos poucos tornar-se-á difícil distingui-lo, perde-o por momentos, torna a vê-lo numa curva, depois os olhos, quando o encontram, encontram só a cidade. Atravessa também a ponte, sabe que tem de inventar os seus passos, no modo mais antigo e natural, tropeça sempre um pouco. No caminho encontra uma mulher que lhe lê os olhos e o abraça, brincam nas pedrinhas da calçada os meninos que um dia poderão também contar esta história.
sábado, 6 de fevereiro de 2010

A infância, a toda a volta do quarto da mãe, é Valparaíso, um cais que distribui estranha gente pelas ruas, estivadores, marinheiros, santas e mulheres selvagens, chegadas e partidas. É uma cidade que infinitamente se sobe e desce. Ao fim das tardes, alguém liberta das trapeiras gaivotas muito altas. Também existem guindastes e brinquedos mecânicos, caixinhas de música em que bate, como num sonho repetido, o coração. Está tudo edificado em excessiva luz e nas simétricas sombras, caves onde germina o bolor das horas que tombaram, mirantes para descobrir o desenho do movimento das praças. As garrafas passam de mão em mão, é puro leite ou denso veneno.
J.M.T.S.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
no conservatório regional de v.n.gaia

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

André Kertész - Washington Square, New York - 1954
Talvez o mundo seja apenas isto. Talvez me estejam a ver em alguma parte da terra, alguém siga o mesmo caminho de passos que desaparecem em sulcos de neve acumulada. E assim percorra os trilhos elegantes do espesso esquecimento, cercas e sinais, bancos ocupados pelo demasiado branco, caligrafia das árvores despidas. Talvez o mundo aqui nasça, talvez seja o último brilho, talvez os vultos se cruzem ou caiam em si, no gelo visível das paisagens.
J.M.T.S.
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
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J.M.T.S.
súbito
J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Em torno dele o som é como / um laço / Está sentado na margem do / teclado detendo com os braços / a força ameaçadora das águas gastão cruz
olivier messiaen . sobre os pássaros
ao piano Yvonne Loriod
[a música apenas ensina o pássaro a deixar-se cantar e o discreto homem a simplesmente voar]
sábado, 14 de novembro de 2009


alvão. pormenores de uma panorâmica. o douro no porto
sábado, 7 de novembro de 2009
sábado, 31 de outubro de 2009
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
as súbitas permanências
As Súbitas Permanências
V. N. Famalicão, Quasi Edições, Novembro de 2001.
Capa: Mimesis sobre fotografia de J.M.T.S. Ver aqui, incluindo excerto de crítica de Fernando Guimarães.
Epígrafe: "os voos são regressos"- Carlos de Oliveira.
ACABAR, COMEÇAR
Da antiguidade da vida
O arco aberto da primeira maré
a chuva concêntica no musgo dos lagos
o fio incerto dos pássaros no trânsito das nuvens
os olhos que se olham nas cidades aquáticas
Como se ainda voltasses dizendo
no espelho das janelas mergulham para sempre
os peixes sombrios das constelações
Súbitas permanências
J.M.T.S. in As Súbitas Permanências, Quasi Edições, 2001

Amélia Piedade
trabalho original para o poema
"Acabar, Começar"
domingo, 25 de outubro de 2009
Então, desta vez, um texto sobre a palavra sempre. E à transparência, escrita para sempre, a palavra súbito.
jmts
in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007






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