no conservatório regional de v. n. gaia

J.M.T.S.
Jeanloup Sieff - Istanbul - 1959
Um barqueiro sombrio? Recorde-se a inclinação de certas horas ou o embalo com que chegam as cidades, aparecem, desaparecem com os avanços das vagas, o vogar atento dos peixes. Saltaremos de barca em barca, até alcançarmos os cais flutuantes, balançam imenso logo que neles assentamos os pés. As torres sobem até ao céu, mergulham com as casas em atropelado precipício. Um pouco mais tarde, esqueceremos a viagem na ondulação dos mercados, ruas e becos. Aí naufragaremos para sempre.
J.M.T.S.



A infância, a toda a volta do quarto da mãe, é Valparaíso, um cais que distribui estranha gente pelas ruas, estivadores, marinheiros, santas e mulheres selvagens, chegadas e partidas. É uma cidade que infinitamente se sobe e desce. Ao fim das tardes, alguém liberta das trapeiras gaivotas muito altas. Também existem guindastes e brinquedos mecânicos, caixinhas de música em que bate, como num sonho repetido, o coração. Está tudo edificado em excessiva luz e nas simétricas sombras, caves onde germina o bolor das horas que tombaram, mirantes para descobrir o desenho do movimento das praças. As garrafas passam de mão em mão, é puro leite ou denso veneno.
J.M.T.S.


André Kertész - Washington Square, New York - 1954
Talvez o mundo seja apenas isto. Talvez me estejam a ver em alguma parte da terra, alguém siga o mesmo caminho de passos que desaparecem em sulcos de neve acumulada. E assim percorra os trilhos elegantes do espesso esquecimento, cercas e sinais, bancos ocupados pelo demasiado branco, caligrafia das árvores despidas. Talvez o mundo aqui nasça, talvez seja o último brilho, talvez os vultos se cruzem ou caiam em si, no gelo visível das paisagens.
J.M.T.S.
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J. M.T.S. in A Minha Palavra Favorita, Centro Atlântico, 2007


