poesia . fotografia . & etc.


Talvez o mundo não seja pequeno / Nem seja a vida um fato consumado . Chico Buarque de Hollanda, com Gilberto Gil








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sábado, 1 de novembro de 2014

das palavras dos outros






gastão cruz / in O Pianista, Limiar, 1984



O TEATRO DAS CIDADES


Qualquer tempo é um tempo duvidoso
assim o meu cercado de cidades
plataformas instáveis
praticáveis cobertos de infinita gente náufraga
que se inclina nas águas como um palco

Paro na convergência dos estrados
chove já sobre a raça ameaçada
Incertas multidões em volta passam
contemporâneas falam interpretam
a duvidosa língua das imagens

Assim no teatro abstracto das cidades
morrem palavras sobre um palco náufrago

O tempo cobre o céu que se enche de água





René-Jacques
L'Homme de nuit, 1939






quinta-feira, 11 de setembro de 2014

das palavras dos outros





rosa maria martelo / in Matéria, Averno, 2014


CORTES


Sobre a mesa iluminada pela luz da tarde, uma jarra de flores expõe a beleza cortada, agonizante, assassinada pelo amor da beleza, que a trouxe para dentro de casa, para morrer. Muito juntas, as flores sobrevivem ainda, e encenam no pouco tempo que resta o mundo de onde vieram. Parecem vivas, quase deixam esquecer que são o grande ramo da morte a emergir de um frasco transparente. A contemplação da beleza: acredita na suspensão absoluta do instante, mesmo se tudo em volta lhe diz que não é bem disso que se trata. Repara, alguns ramos já começam a secar.






Emily Dickinson, Herbarium 
(circa 1839-1846)




  imagem vista aqui



domingo, 23 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







fernando guimarães / in Lições de Trevas, Quasi Edições, 2002




 CEMITÉRIO INGLÊS DE ELVAS (SÉCULO XIX)


Quase todos são soldados. Aqui chegaram trazidos
por uma espécie de acaso e os seus olhos de repente fecharam-se
para encontrarem este espaço murado. Não há muitas flores. Nele
as lápides dão-nos algumas informações. Vieram de longe
e traziam consigo uma pequena luz. Esta apagou-se. Ficaram só escritos
alguns dos seus nomes; pouco se conhece acerca da viagem
que tinham iniciado. Se chega o vento, ainda traz consigo a poeira
de alguns combates. Foi há muitos anos, mas para eles o tempo
não passa porque se encontram sozinhos. É muito o que a areia
espalhada à sua volta nos oculta. Há um portão entreaberto. Por ele
entrámos e havemos de sair. Não temos pressa. Qualquer
uma das nossas mãos podia estender-se, colher o que talvez fosse
apenas uma sombra. Eles estão ali para nos dar qualquer coisa.






 Philippa Jones





imagem vista aqui



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

das palavras dos outros







joão cabral de melo neto / in Agrestes, Nova Fronteira,1985




 LEMBRANÇA DO PORTO DOS CAVALOS


O incenso e fumos não sagrados
o cheiro nunca dispensaram

da lama, folhas de ingazeira,
monturo e lixo, da Jaqueira.

A maré-baixa e a maré-cheia
recobrem, tiram da panela,

essa infusão que o sol destila
no meu álcool, minha bebida.

Não tem do fumo o cheiro enxuto,
cheira entre o que é vivo e o corruto,

cheira na linha da poesia:
entre o defunto e o suor de vida.


    





 winn bullock






quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

das palavras dos outros






daniel jonas / in Passageiro Frequente, Língua Morta, 2013



 VELHO MESTRE


O silêncio
de um fruto sobre a mesa,
apenas ferido
por um gume de luz
no meridiano.

Mas nenhuma ameaça,
nem o arnês de dedos
formando-se no horizonte,
apenas o golpe do sol
afiado na vidraça.

Um fruto
é um velho mestre
esperando na luz
as trevas
do amadurecimento.




humberto rivas




    



domingo, 20 de outubro de 2013

das palavras dos outros






egito gonçalves / in O Pêndulo Afectivo, Porto, Afrontamento, 1991




 AFOGADO NO RIO LEÇA


Vogavas entre duas águas com o corpo torcido
e a corrente impelia-te, vagarosamente, para a foz.
O coração batia mas já não respiravas;
a morte instalava-se no teu corpo molhado.

Devagar montava a máquina dos sonhos,
devagar armava-te as futuras asas.

No mar afundavam-se os símbolos da tarde;
enovelado, sem poesia, asfixiavas,
descendo o rio em direcção à noite,
descendo o rio em direcção à liberdade.

As unhas violáceas, os cabelos flutuando,
o sangue estrangulado, a fome liquefeita...

Então, como a um menino, alguém te conduziu para a margem relvada.
A Morte sentou-se a ver os trabalhos de respiração artificial,
depois disse-te «Adeus», acenou-te «Até breve»,
e aproveitou a ambulância que te levava ao hospital
para ir mais depressa à sua vida.

1951







 m. álvarez bravo







terça-feira, 3 de setembro de 2013

das palavras dos outros






seamus heaney / in Death of a Naturalist
 [ Antologia Poética . Seamus Heaney. selecção e tradução de Vasco  Graça Moura , Campo das Letras, 1998]



HELICON PESSOAL
para Michael Longley

Em pequeno, ninguém me tirava da beira
de poços, velhas bombas com roldana e balde.
Amava o escuro gotejar, o céu cativo, onde cheira
a ervas, fungos, musgo, relentos de humidade.

Numa tijolaria, havia um de tampo podre. Como
sabia o rico choque de um balde que baixava
na ponta de uma corda assim a prumo!
Tão fundo que nem um só reflexo dava.

Um, menos alto, sob o rebordo, ia
frutificando como aquário. E a quem puxasse
longas raízes da rede húmida e macia,
sobre o fundo boiava a branca face.

Outros tinham ecos, a devolver a voz sem faltas
em limpo e novo som. E era um puro susto
porque lá, entre os fetos e as dedaleiras altas,
no meu reflexo um rato dava um sacão brusco.

Agora, espreitar entre raízes, dedilhar o limo,
olhar, Narciso de olhos grandes, uma nascente, não
é digno de um adulto. Eu rimo
para me ver, para dar eco à escuridão.




 george konig

"Two sewer workers examine the Fleet sewer, London, 
at low water level, 14 January, 1914"








sexta-feira, 23 de agosto de 2013

das palavras dos outros






fernando echevarría / in Sobre os mortos, Afrontamento, 1991



O corpo dos defuntos é enigmático:
não tem além de si, nem dentro.
Nada se lê no seu volume. O pacto
substante que sustenta o pensamento
cedeu lugar a um vácuo
a dar somente para estar cedendo.
O corpo dos defuntos é enigmático
porque o enigma, nele, perdeu seu peso.

*

Das figuras amadas fica o eco
da sua refulgência de figuras.
São quase mágoa de sítio
em que, havendo-se já apagado a lua,
brilhasse ainda o vácuo
duma presença para sempre nula.
E, contudo, o firmamento
se ilumina das máculas nocturnas
desses ecos amados entre lágrimas
na sua refulgência de figuras.






hervé guibert








quarta-feira, 10 de julho de 2013

das palavras dos outros





antónio ramos rosa / in Três Lições Materiais, Kairos, 1989


Energia verde das árvores que torna todo o amor verde e os próprios esqueletos verdes. Os corpos constroem a sua destruição horizontal como rios verdes: para além da morte: no gérmen verde.

*

Aceita, acolhe a minúscula astronomia de um jardim: os insectos com as suas múltiplas facetas e as delicadas antenas com que se orientam. Ao rés do chão: um ramo partido, uma formiga, a baba de um caracol. Fascinantes, meticulosos são os vocábulos que compõem as constelações legíveis, intactas. Uma fábula adormece ao sol das folhas: o jardim é um estremecimento.






josef sudek








quinta-feira, 27 de junho de 2013

das palavras dos outros


Fui resistindo a pôr aqui palavras poéticas dos outros. Não faz sentido: as nossas palavras são, de uma forma ou de outra, as palavras dos outros. Há, em transparência ou em camadas, o rascunho das nossas palavras e depois, quase a transbordar e às vezes em blocos de gelo impenetrável, o rio subterrâneo das palavras dos outros.


*


inês lourenço / in Coisas Que Nunca, Lisboa, & etc., 2010



SALA PROVISÓRIA

Nunca se sabe
quando estamos num lugar
pela última vez. Numa casa
que vai ser demolida, numa sala
provisória que vai encerrar, num velho
café que mudará de ramo, como
página virada jamais reaberta, como
canção demasiado gasta, como
abraço tornado irrepetível, numa
porta a que não voltaremos.





henri cartier-bresson