A um Cedro que Foi Abatido no Jardim
Só o fragor da queda nos prepara
para o detido correr dos dias
O grande sopro do vento
entre os ramos e depois outros ramos
tornou-se toros empilhados
a regular disposição das plantas
Como se pássaros pudessem aprender
exíguas asas num ar que se voasse
imensamente escoado de si
Toda a tarde o perfume da ferida viva
se deixou respirar pelos gatos do jardim
Talvez um dia seja também nossa
a obscura sabedoria das toupeiras
atentas ao derradeiro furor das raízes
Relâmpagos sombrios da lâmina
são o novo rilhar do tronco às tempestades
balanços perigosos das rajadas
ou os puxões da última corda
a que vai guiando a ruína inteira
É pela noite que tudo regressa
galhos de sombras e depois outras sombras
insistindo nos vidros da casa
Alastra então a floresta de braços decepados
para que nela percamos
nossos passos transparentes
JMTS

imagem vista aqui
1 comentários:
Muito bonito.
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